Atentos?

fernando-pessoa

Um amigo dá-me boleia, no carro dele seguimos a ouvir rádio, sei nas notícias que neste dia se cumprem três décadas sobre a morte de José Afonso, sei da polémica do desaparecimento das gravações originais dos seus discos, algo perfeitamente patético em termos de política patrimonial numa Europa de XXI. E ouço, naquele noticiário radiofónico, as declarações de Luís Mendes, o ministro da cultura deste nosso país. Diz ele, sossegando os compatriotas cultores da cultura, que os “serviços do ministério estão atentos” à situação, em busca deste património. Chego a casa, googlo, aporto no velho “Blitz”, jornal da nossa geração, que noticia o facto. Referindo também que esse desaparecimento foi anunciado há uma década, pois já em 2008 uma voz conhecida e respeitada como é a de Fausto o avisara.

E diante disto tem o “ministro” o atrevimento, a suprema arrogância, de dizer que tem os serviços atentos. Atentos!  E o tempo passa, são estes os atentos “ministros” que vamos tendo, impantes e impávidos, os funcionários, serviços públicos e seus dirigentes, ufanos e de si ciosos, que temos.

Já me é tarde para ver isto mudar. Vale-me o youtube. Ligo-o, para ouvir um verdadeiro poeta, adequado a tudo isto:

Trinta anos depois!

cavaco-silva

Desgrudei-me do FB. Continuo a utilizá-lo para ligar os postais do blog. Não porque “não sirva para nada” – serve para imensa coisa, é (ou pode ser) muito útil; ou porque “seja um local de engate” como diz o outro, dado que nada tenho contra o convívio. Não porque me tenha cansado das fotos das famílias felizes, das festas e férias alegres ou dos repastos pantagruélicos ou gourmets: gosto e desejo (d)a felicidade alheia, (d)o lazer alegre alheio e (d)a boa mesa alheia. Não encontro desinteresse nos dois universos facebuqueiros com os quais contacto, o português e o moçambicano. Mas encontro-os abrasivos em demasia para o meu estado de espírito. Com razões para tal, porventura, o moçambicano: crise profundíssima económica e cultural, um conflito latente, um processo político muito difícil pela frente. O debate FB moçambicano é muito interessante. Mas é também doloroso, lido de longe. Abrasivo também o português mas  muito menos sumarento. Quase uma encenação numa sociedade de abundância, de enorme homogeneidade social, cultural e ideológica, onde as grandes divisões são apenas entre as diversas concepções sobre como regular o acesso à redistribuição estatal da riqueza. O tom fervilhante da polémica no FB (como o foi no final da década passada nos blogs) dá um pouco vontade de perguntar “estão a discutir o quê?”. Aqui sim, um debate vácuo e pouco consistente sobre o país.

Disso exemplo é o que acabo de ver. Entrei agora no FB para partilhar ligações do último postal aqui. Encontro várias partilhas de uma notícia vituperando Cavaco Silva por o seu governo ter votado na ONU contra uma deliberação pela libertação de Mandela e pelo fim do apartheid. O artigo de jornal agora desenterrado e veementemente partilhado tem quatro anos, e aludia a uma votação de 1987, há trinta anos! O contexto desta até surpreendente partilha (a que propósito?, perguntaria alguém mais distraído) é simples: Cavaco Silva lançou um livro de memórias, critica sobremaneira o antigo primeiro-ministro Sócrates e alude criticamente ao actual bloco de poder parlamentar.

A questão não é de ter uma boa memória desse episódio, com ele ter concordado ou concordar hoje. Recordá-lo poderá ser interessante se explicitando o conteúdo completo daquela votação, coisa que o artigo em partilha elide propositadamente. E integrando-o seja no pendor “atlantista” (pró-americano, pró-britânico) da política externa portuguesa, seja na complexa política externa africana portuguesa naquela década, seja ainda aludindo às questões que então se levantavam sobre o hipotético devir da comunidade de portugueses emigrados na África do Sul. Mas nada disso é referido, fica apenas o ataque ad hominem a Cavaco Silva – credor de muitas críticas mas não deste jeito. Neste modo de alisar o real, simplificar (manipular) a história. Apenas, sublinhe-se, para atacar o homem que critica Sócrates e descrê na “cloud” dita “geringonça”.

E enjoa ver alguns dos nossos, impávidos, neste “piloto automático”. De alguns mesmo esperar-se-ia que fossem os “nossos melhores”. Mas recusam-se a sê-lo. É melhor deixar-lhes o FB. E, passe a evidente cagança, regressar a este Tormes, à pequena machamba que é este Courelas.

Vinte anos aos vinte de Fevereiro

engels

Na véspera embarcara na Portela, o avião levantara, os alarmes dispararam, deu-se uma rapidíssima volta ali ao Guincho, veio a dizer-me uma tripulante minha conhecida, e aterrara de novo, para calafrio generalizado. Horas depois partimos de novo e na alvorada daquele dia seguinte aterrou-se em Maputo.  Levaram-me para a casa que me estava destinada, esta varanda na Engels. Chegara para três anos de trabalho. Algum tempo tempo depois percebi que já haviam sido dezoito, os anos ali. Largas dezenas de coisas que não fiz, ainda mais as que mal fiz, um ou outro descalabro. Mas foram-me magníficos esses anos, começados em Mavalane naquele 20 de Fevereiro, há exactamente vinte anos.

Celebro-os com um poema do Eduardo White:

País de mim

O peso da vida!
Gostava de senti-lo à tua maneira
e ouvi-la crescer dentro de mim,
em carne viva,

não queria somente
rasgar-te a ferida,
não queria apenas esta vocação paciente
do lavrador,
mas, também, a da terra
e que é a tua

Assume o amor como um ofício
onde tens que te esmerar,

repete-o até à perfeição,
repete-o quantas vezes for preciso
até dentro dele tudo durar
e ter sentido

Deixa nele crescer o sol
até tarde,
deixa-o ser a asa da imaginação,
a casa da concórdia,

só nunca deixes que sobre
para não ser memória.

Trump, Suécia e Mike Pence

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Por mais português e europeu que um homem seja, este novo presidente americano convoca as atenções. Este fim-de-semana li vários textos anglófonos sobre o “estado da arte” americano actual (para alguns deixei ligações no postal abaixo). Mais do que as tonitruantes declarações, mais do que as bombásticas primeiras medidas, que vão sendo embargadas ou aparadas, mais do que as tão precoces demissões entre o seu núcleo duro, mais do que o arrivismo dos membros da “primeira família” – e como o kitsch da recente cerimónia de empossamento (“inauguração” dizem os analfabetos portugueses) e esta socialite concepção de “primeira família” e “primeira dama” apela ao imaginário da decadente tardo-república romana -, o que impressiona nesses artigos é a percepção da paralisia de tudo aquilo. Durante a campanha eleitoral Obama havia dito, com alguma displicência, é certo, que o homem não estava preparado para um posto daqueles. Independentemente do que se pense das suas ideias e tiradas a realidade parece ser mesmo essa, o salto em frente dos “reality shows” para a presidência do país mais poderoso do mundo foi um “passo maior do que a perna”.

Trump vem desse contexto existencial e intelectual, o qual não quer ou não sabe largar, como o mostra o seu tuiterismo desbragado e aquela “boca” a Schwarzenegger, seu sucessor na apresentação de programa televisivo. A ideia fundamental ali é que a realidade depende da imprensa, e não o contrário, algo que é típico do populismo – e que tem tido e continua a ter, à escala, é certo, cultores no poder português. Daí a campanha anti-jornalismo, na ânsia de que o controlo deste implique o controlo dessa realidade. Corre sempre mal. Nessa denúncia da falsidade jornalística como meio de controlar a imprensa, e assim a realidade, nos últimos dias dois disparates pegados, no meio da sua diária gritaria: a reclamação de ter tido a maior vitória desde os anos 1980s, falsidade pronta e em directo desvendada por um jornalista. E agora, ontem, a patacoada sobre os inexistentes acontecimentos na Suécia. Esta última já no domínio da irrealidade, quase surreal. Quem imaginaria um presidente americano a disparatar deste modo pueril? O regime patacoês é tamanho que duvido que aquele “aparelho de Estado” aceite/suporte por muito tempo a deriva.

Com sarcasmo, no Escrever é Triste, Pedro Bidarra escreve sobre o historial de assassinatos de presidentes americanos. É como se um wishful thinking, quase um rascunho para o complemento da notícia esperada. Mas não me parece que se vá (que vão eles) por aí. O descalabro é óbvio, ainda algo ofuscado pela novidade, exponenciado pela falta de “gravitas” (aparente que fosse) e pela incompetência. A gente pode começar a preparar-se para ver Fence ascender a presidente americano, bem em breve, em corolário de manobra interna, como se refere aqui. O qual é um radical reaccionário, uma espécie de integrista cristão, e, muito provavelmente, um “falcão” em termos de política externa. Um político de carreira, com a tal “preparação” para o exercício do poder, de um modo mais racional e burocrático, competente. E que será recebido com alívio geral. Serão os custos, pesados mas conciliáveis, deste breve “affaire” Trump.

A ler

leitor

Nassar e o Camões. E agora, que fazer com o Prémio?

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O grande Raduan Nassar ganhou o prémio Camões, um prémio literário atribuído pelos governos português e brasileiro. Discursou contra o actual poder de Brasília (transcrição do discurso aqui).

Depois falou o embaixador de Portugal no Brasil, Jorge Cabral. E depois o ministro da Cultura brasileiro. Imagens abaixo:

O ministro brasileiro teve a peculiar reacção (muito a la Alcazar/Tapioca) de discursar de seguida, contestando o premiado e os seus argumentos e invectivando as forças políticas apoiadas pelo premiado. Não é exactamente o costume destas cerimónias, os representantes do poder outorgam as medalhas e afins em tom protocolar. Pois nestes dias a palavra é dos premiados, goste-se ou não do que eles dizem, do que fazem, é essa a simbólica prerrogativa dos prémios em democracia. Mas este é apenas mais um pitoresco episódio a demonstrar os estranhos “usos e costumes” da política brasileira, como estrangeiro que sou abstenho-me de grandes comentários, para além deste e do esgar de desprezo.

Mas há uma outra dimensão, que tem a ver connosco, portugueses. O Prémio Camões é um prémio político. Não só porque é patrocinado pelos dois estados, Brasil e Portugal, que o instituíram no seio de uma política de engrandecimento da língua comum, destinado às literaturas em português. Mas fundamentalmente porque é gerido segundo critérios políticos (e administrativos, se se quiser). Há a tradição instituída de ser atribuído alternadamente a um escritor português e a um brasileiro, e de quando em vez, quando considerado necessário à sua sedimentação, a um escritor africano. Ou seja, o critério de mérito literário está subalternizado aos pressupostos políticos que o comandam, a consagração da zona comum moral e linguística, a dita “lusofonia”.

Sendo assim um prémio literário subordinado a questões políticas, e sendo um prémio bilateral (português e brasileiro), como entender e aceitar o aproveitamento político do governante brasileiro (concorde-se ou não com ele?) daquela ocasião? Que faz a nossa república ali a seu lado (simbolizada, como tal presente, no nosso embaixador)? Mas mais ainda, como vai a nossa república, o nosso governo, reagir ao total desaforo do ministro da cultura brasileiro, que explicitamente, em discurso oficial, reclama para o seu governo, para o seu país, a atribuição do prémio? Está dito, basta ouvir. Um total desprezo pela contraparte portuguesa, uma arrogância inaceitável.

Não se trata de fazer uma tempestade no copo de água. Trata-se, pura e simplesmente, de perceber que com parceiros deste quilate não há condições para conjugações. Ou seja, trata-se de suspender o prémio político-literário Camões. De ter um mínimo de auto-respeito.