A medíocre superficialidade actual

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Não deixa de ser interessante recensear a quantidade de patetas que denuncia, agora no 2017, com ar sábio e ponderado, decerto que de mão sob o queixo, exactamente o mesmo rol de desgraças intelectuais que Malinowski elencava em 1930 – para os mais distraídos, em 1930 ainda não havia internet … (aliás, nem computadores. A TV, essa outra grande cloaca, acabara de ser inventada e ainda não emitia. E o cinema sonoro, essa alienante degenerescência artística, começara 3 anos antes).

José Capela

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Em 29 e 30 de Maio próximos decorrerá no Porto esta conferência internacional José Capela e a história de Moçambique, dedicada (obviamente) a uma reflexão sobre a vasta e fundamental obra do historiador. Até amanhã, 15 de Março, os interessados poderão enviar para o sítio da conferência as suas propostas de comunicação.

Para quem não conheça a sua obra e se interesse pela história de Moçambique e pela história africana de Portugal é fundamental lê-lo. Sobre o historiador José Capela (de seu verdadeiro nome José Soares Martins) fui deixando alguns textos no antigo blog (e em jornais moçambicanos).  Este, uma referência a um livro que acabara de publicar, agradou-lhe bastante e foi simpático o suficiente para me escrever “A sua referência ao livrinho é muito mais do que isso … é o enunciado da síntese interpretativa do que fiz como historiografia de Moçambique que melhor corresponde àquilo que pretendi significar“. Decerto um exagero, aquela coisa da simpatia, mas refiro-o aqui, evitando falsas modéstias, para lembrar: quem nunca leu Capela veja estas 3 pequenas páginas que podem ser uma antecâmara para a sua obra.

Quando Soares Martins morreu (em 2014) coloquei este texto, com 15 capas de livros (uma bibliografia incompleta).

Enfim, quem tenha interesse nesta área do saber que se apresse e inscreva-se. Será a melhor maneira de homenagear a memória do grande historiador. E do excelente homem.

Um amigo e o Knopfli

basta viver

Um amigo, de muito longe, lá no muito longe, mandou-me isto, num “li e lembrei-me de ti”. Respondo-lhe “vai-te foder, deste cabo de mim … Um beijo para ti”. Defendo-me aqui, através da imagem, pobre muralha …

O Livro Fechado

Quebrada a vara, fechei o livro 
e não será por incúria ou descuido 
que algumas páginas se reabram 
e os mesmos fantasmas me visitem. 
Fechei o livro, Senhor, fechei-o, 

mas os mortos e a sua memória, 
os vivos e sua presença podem mais 
que o álcool de todos os esquecimentos. 
Abjurado, recusei-o e cumpro, 
na gangrena do corpo que me coube, 

em lugar que lhe não compete, 
o dia a dia de um destino tolerado. 
Na raça de estranhos em que mudei, 
é entre estranhos da mesma raça 
que, dissimulado e obediente, o sofro. 

Aventureiro, ou não, servidor apenas 
de qualquer missão remota ao sol poente, 
em amanuense me tornei do horizonte 
severo e restrito que me não pertence, 
lavrador vergado sobre solo alheio 

onde não cai, nem vinga, desmobilizada, 
a sombra elíptica do guerreiro. 
Fechei o livro, calei todas as vozes, 
contas de longe cobradas em nada. 
Fale, somente, o silêncio que lhes sucede. 

Rui Knopfli, in “O Corpo de Atena”

Nova Portugalidade Summit

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Em pleno 2017, no centro de Lisboa, uma conferência numa universidade pública é impedida pela direcção da associação de estudantes. Jaime Nogueira Pinto iria falar sobre “Brexit, Trump e Le Pen”. Os organizadores pertencem a uma agremiação intitulada “Nova Portugalidade”, que divulga um conjunto de argumentos hoje tão anacrónicos que deveras pitorescos. É assim a democracia, cada cabeça sua sentença, sendo que a esmagadora  maioria de nós segue as sentenças que alguns proclamam. Não particularmente iluminadas as da “Nova Portugalidade” mas … e depois?

Fico estupefacto. Durante 15 anos leccionei na Faculdade de Letras e Ciências Sociais da Universidade Eduardo Mondlane. Num contexto político (e tantas vezes militar) interno muitíssimo mais conflitual do que o da sociedade portuguesa. Onde a tradição da autonomia universitária face aos poderes políticos é menor. Onde os académicos pertencem (ou apoiam) a diversos movimentos políticos. Onde muitas vezes houve tensão – em moldes bem mais angustiantes, por vezes – devido à expressão pública de análises sobre os processos nacionais e internacionais. Mas, e apesar de todo esse contexto, nunca assisti a uma prática censória destas. Dinamizada por um órgão eleito, subscrita pela direcção, silenciada pelo corpo docente.

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Mas aqui, em 2017, um conjunto de futuros cientistas sociais e humanos, entretanto eleitos para a direcção da associação de estudantes daquela faculdade, assinam uma proibição do direito à expressão pública, sem terem qualquer substrato legal para o fazer. São, consta, jovens adultos ligados à coligação  Bloco de Esquerda, base parlamentar do nosso governo. Daqui a breves anos estarão nos postos de direcção do estado, funcionários ou políticos. Ou, alguns, serão alvo dos financiamentos públicos à investigação. Estamos, continuamos, a alimentar a(s) besta(s).

Para além das questões de princípios, da liberdade de expressão, há coisas aparentemente mais comezinhas. A direcção da faculdade acobarda-se, vilmente, mostrando ser incapaz de induzir o são ambiente académico, de debate e até conflitualidade intelectual. Numa escola de ciências sociais e humanas! Seria, se a lógica existisse, o prenúncio do pedido de demissão colectiva. Independentemente de quaisquer  outros méritos, administrativos e/ou académicos, que a direcção possa ter.

Mas outra coisa me é mais relevante. A curiosidade em saber quantos professores daquela faculdade se insurgiram contra esta decisão. Se disponibilizaram para enquadrar, naquele momento, o conferencista. Mesmo que com ele previssem discordar, coisa mais do que natural numa faculdade (ainda para mais de ciências sociais e humanas). Quantos se recusaram a subscrever, pela mera apatia que seja, tamanha violação da lei numa universidade pública, tamanho estupro da democracia? Ou por outra, quantos são cidadãos democratas ou apenas patéticos aspirantes a mandarins? Até porque, e como acabo de ler no mural de Facebook de Telmo Azevedo Fernandes, “se se chamasse Nova Portugalidade Summit” não havia problema“.

Pois, de facto, para além da monumental cobardia institucional e da anti-democraticidade congénita da intelectualidade funcionária pública portuguesa, o que esta vilania denota é uma incultura patética. Ou melhor, pateta.