Transferência para novo blog

lisipo

 

Este Courelas é formalmente um blog colectivo mas o bloguismo parece hoje ser algo anacrónico e a colectividade foi esmorecendo. Como a mim a blogomania (ou blogotite?) ainda não passou abri um novo blog, no qual estou (literalmente) sozinho. É este O Flávio … (basta clicar no título para a ele aceder).

Quem tiver a paciência para me lá ir aturar será muito bem-vindo.

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Graça Silva

graça silva a maquina(Em “A Máquina Extraviada”, fotografia de Yassmin Santos Forte)

De repente, totalmente inesperada, chega a notícia da morte de Graça Silva, uma das grandes actrizes moçambicanas, mulher belíssima, carismática no palco, encantadora no estrado da vida, na sua radiante simpatia e total simplicidade. Uma figura central do Mutumbela Gogo, o grupo bandeira do teatro nacional  …

motu

(Fotografia de João Costa [Funcho])

Um  grupo peculiar, que há décadas cruza o teatro popular – que em Moçambique irradia pelos contextos rurais em modalidades muito desconhecidas pelo seu próprio público urbano – com a dramaturgia contemporânea e os textos clássicos canónicos.

graça silva hamlet

[com Adelino Branquinho em “Hamlet”, fotografia de Yassmin Santos Forte]

Às vezes deixando a ideia de que a existência do grupo, os seus grandes feitos, orlam o verdadeiro milagre, em contexto tão difícil para a exigência que os seus membros sempre se impõem.

Sabe-se desta morte e um homem fica descoroçoado. Deixo aqui o pouco que encontro de filmes com a sua presença …


(Graça Silva surge aos 5 minutos e 30 segundos]

e uma apresentação da actividade do grupo, ombreando (como sempre) com o Branquinho.

Rebelo de Sousa e a escravocracia

mossuril

Uma visita de Estado presidencial tem uma agenda política (enfim, presume-se …). E uma agenda de eventos, que àquela está associada, explícita ou simbolicamente. O nosso PR foi ao Senegal e foi visitar a “casa dos escravos” na ilha Gorée, património mundial UNESCO, local simbólico do secular tráfico escravista transatlântico. Porquê? Para quê?

Ao ler agora a notícia vem-me à memória as inúmeras recentes visitas de governantes portugueses a Moçambique, expressando um relativo bom ambiente entre os países e os respectivos poderes. Só para referir os governantes de topo, em 1997 Sampaio esteve, também, em Quelimane, cidade que foi, até XIX, um entreposto de comércio escravista. E não aludiu ao facto, e ainda bem, que a viagem foi um momento importante de recomposição das relações entre os países. Mais simbolicamente, Guterres em 1998 e Cavaco Silva em 2008 visitaram a Ilha de Moçambique, também ela durante séculos local de prática e de (tentativa de) controlo do comércio de escravos. E muito menos visitaram o fronteiro e maravilhoso Mossuril, onde está a dita “Rampa dos Escravos” (se verdadeira ou mítica nunca o pude comprovar), pequeno mas muito importante porto de embarque de escravos. Um tráfico que não era só feito por portugueses, mas por uma série de comerciantes transoceânicos africanos, europeus e índicos, fornecidos por comerciantes do interior continental. Mas, claro, exponenciado pela febril procura dos mercados americanos e índicos. Ou seja, o poder português não levantou o assunto, a memória histórica. Privilegiando o reforço das relações, e nisso muito concordo. E talvez por não haver consenso entre as suas equipas sobre que tipo de abordagem ter. Talvez …

Continue reading “Rebelo de Sousa e a escravocracia”

A sexta-feira santa do ateu

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(Imagem do calvário filmado por Mel Gibson)

Hoje é a sexta-feira dos cristãos, nesta sua quadra de comemoração da vida. Que lhes seja santa, e a todos aprazível. Com eles comemoro.

Aproveito para um aparte: encanitei-me ontem, mais uma vez, ao ler a expressão “ateu confesso”. Resmunguei-a, respondeu-me o seu locutor que estava eu a ser vulgar. A expressão tem uma história, nisso um conteúdo: o da perseguição ao ateísmo, exsudando a memória dos constrangimentos impostos para o seu reconhecimento, a demanda da sua confissão (que implicaram tortura, morte ou obrigação à reconversão, e cessação de direitos). Algo que não é apenas uma memória histórica, convém lembrar que há vários países (com os quais Portugal mantém amistosas relações diplomáticas) que penalizam – alguns com a pena de morte – o ateísmo; e o da negação da possibilidade do ateísmo, pois ao ser apelidado de “confesso” é-lhe atribuída a pertença a uma particular crença e a uma particular comunidade de crentes, um artifício dos crentes de facto, assim a quererem preservar as suas mundividências, assentes na omnipresença de uma qualquer fé, como se esta fosse da ontologia humana.

Ser ateu é exactamente o contrário de “confesso“: não confesso qualquer erro (neste âmbito), não sou merecedor de qualquer acusação (neste âmbito), não me converti a nada, não pertenço a nenhuma congregação. Ser ateu é descrer, não ter fé ou crença (no sentido vulgar de crença). Em última análise, logicamente ser ateu é ser “des-confesso”. E, politica e historicamente, ser ateu é ser “pós-confesso”, refutar as perseguições encerradas na velha expressão, refutar a possibilidade do seu regresso.

Enfim, celebrem a páscoa. Confessem. “Estamos juntos”. Mas não me insultem nem desrespeitem a memória dos que antes de mim descreram, apagando por esta vulgar e até risonha expressão o sofrimento que os vossos ancestrais lhes causaram. E aquele que os vossos amigos causam a tantos dos des-confessos actuais.

Ainda por cima nesta vossa santa quadra.

A direita e a esquerda

esqdir

É muito interessante ler textos já algo antigos mas ainda contemporâneos. Eduardo Lourenço tende para a unanimidade nacional, também mas não só pela sua elevada idade. Em 1986 escreveu o artigo, “A Esquerda como problema e como esperança (Sobre a crise de imagem da Esquerda)”, que veio a integrar o livro A Esquerda na Encruzilhada ou Fora da História? (Gradiva, 2009). Retiro este (delicioso) trecho, que é, aliás, muito denotativo do conjunto de textos coligidos no livro, ainda mais interessantes porque alguns são anteriores à destruição do bloco comunista e ao subsequente desnorte social-democrata:

O único inimigo que a Esquerda tem, nas suas diversas modalidades, é ela mesmo enquanto inconsequente, enquanto esquecimento da sua própria aventura … até porque a Direita, quer dizer, a tentação do poderio, a ilusão de deter com a verdade que tem a Verdade toda, com a cultura que é, o monopólio da cultura, está também aninhada no seu coração. A luta pela Esquerda é também a luta contra essa Direita em nós. A outra, a que nos combate por ser essa a sua fatalidade, por mais sinistra ou sedutora que se apresente, nem sequer devia o objecto das nossas ocupações e preocupações. Nesse sentido … a Esquerda não tem inimigos. Ela é o lugar histórico da tolerância, a vitória lenta mas constante do diálogo imposto aos que não querem ou não precisam de dialogar, ele é ou deve ser o lugar da máxima transparência de que uma sociedade é capaz e se, por graça dos deuses, aqueles que se dizem de Direita ou são de Direita partilham deste espaço de diálogo, são também, saibam-no ou não, povo de Esquerda.” (p. 50).

Um tipo lê isto, trinta anos depois, e nem sequer  discute o seu conteúdo (e as maiúsculas). Apenas se lembra que o autor, apologista da “Esquerda” “lugar da máxima transparência” acabou a posfaciar o livro do “Senhor Engenheiro José Sócrates” (como o apelidou). E sorri(o), diante da tal unanimidade nacional …

O vosso Costa

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É difícil gostar de Shäuble. Porque é alemão, o poder europeu de agora. Porque é alemão, e a gente não esquece (apesar deles-próprios) as malfeitorias alemãs de 1914 a 1989 (aqui na Europa a gente assobia para o lado quanto ao genocídio namibiano, daí estas datas). Também porque é um ministro das Finanças que tem a mania de falar sobre o estrangeiro – parece que a Alemanha não tem ministro dos negócios estrangeiros, parece que a sua primeira-ministra não tem verdadeiro poder interno. De facto, fá-lo porque quis o homem ser o sucessor de Kohl mas as suas trapalhadas com financiamentos ilegais (sim, ele tem telhados de vidro) impediram-no: ele é um califa frustrado. E, muito provavelmente, porque é Shäuble.

Há alguns anos alguém gozou com Vítor Gaspar por causa desta foto, dizendo-o tão submisso que dobrando a coluna vertical ao alemão. Esquecera-se o locutor, ou desconhecia, que o homem anda de cadeira-de-rodas, paralisado por um atentado. Muitos lhe criticaram a desavisada “boca”, e nessa polémica todos ficaram cientes da incapacidade motora do ministro alemão.

Agora António Costa vem retomar o remoque, invectivando os que antes se ajoelhavam no Eurogrupo. Decerto que daqui a umas horas virá, naquele seu abjecto sorriso, dizer que não era a isto que se referia, que terá sido uma metáfora sobre a política governamental anterior. Mas não é. É apenas o âmago vil do vosso Costa. E é também a prova da torpeza pandémica: pois hoje e amanhã nenhum dos fervorosos activistas, sempre prontos a defender os oprimidos, desprotegidos ou desfavorecidos, sempre prontos a censurar os usos linguísticos alheios que lhes parecem menos “correctos”, virá resmungar contra este Costa. Estão bem uns para os outros, o vosso Costa e vocês.

Querer tudo

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(Adão e Eva no Jardim do Eden, Brueghel [Velho])

Acho que isto vem a propósito, nos dias que correm, ainda que complique um bocado o voluntarismo (utópico pois tendencialmente absolutizador) invectivador : “Porventura nada custou mais caro à humanidade que as suas utopias e entre elas, a utopia das utopias, a do Paraíso. Mas esse sonho de absoluto, fonte de horror, é o único que sem cessar extrai os homens da sua original inumanidade.” (Eduardo Lourenço, “O avesso do paraíso”, A Morte de Colombo. Metamorfose e Fim do Ocidente como Mito, Gradiva 2005 (o artigo é de 1992), p. 33).

Torremolinos e os estudantes

Torremolinos

Basta-me olhar para esta fotografia para comprovar que Torremolinos é um sítio ao qual espero nunca ir. Nem sempre foi assim. Em 1980 estava no 10º ano e preparava-me para no ano seguinte ir à minha viagem de finalistas (por alguma sobrevivência elas eram feitas no 11º ano e não no recém-introduzido 12º, sucessor dos patéticos anos cívicos e propedêuticos que o estado havia tentado). As viagens eram nas férias da Páscoa e dirigiam-se, já na altura, para Torremolinos. Ali congregavam-se os finalistas de inúmeras escolas secundárias, promovendo, segundo rezavam as crónicas dos que lá iam e assim despertando a nossa cobiça de mais-novos, afincados rituais de potlatch, enormes esbanjos de droga (ganzas acima de tudo), álcool (tudo o que se apanhasse), sexo (em versão bíblica para os mais sortudos, ou meros “melos” para os mais atados) e ainda algum rock (havia uma célebre discoteca, o Piper’s, onde todos se gabavam de ter entrado).

Mas esse meu (e não só) anseio falhou. Pois naquele 1980 o esbanjo foi tão caótico que uma malvada deputada do PS – cujo nome, por isto mesmo, nunca mais esqueci (Teresa Ambrósio) – cerceou as minhas ânsias, ao denunciar em plena Assembleia da República o desvairado estado a que as coisas haviam chegado. Tamanha bronca aquilo deu, entre a AR e a imprensa, que no ano seguinte não houve Torremolinos para ninguém …

Parece que agora, 37 anos depois, as coisas continuam na mesma. Querem opinar sobre o assunto? Façam-no, mas, sff, com alguma dimensão histórica. Caso contrário são apenas atoardas. Abaixo fica a pesquisa bibliográfica que fiz (via google):

PÁGINA INICIAL 3ª REPÚBLICA ASSEMBLEIA DA REPÚBLICA SÉRIE III LEGISLATURA SESSÃO LEGISLATIVA 04 NÚMERO 070 1980-06-12 PÁGINA 1159

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II SÉRIE — NÚMERO 70

Requerimento

Ex.mo Sr. Presidente da Assembleia da República:

Nos termos regimentais, requeiro a V. Ex.a que sejam solicitados ao Ministério da Educação e Ciência e ao Ministério do Comércio e Turismo os resultados dos inquéritos levados a efeito por aqueles dois departamentos do Governo sobre os acontecimentos em Torremolinos ocorridos com estudantes das escolas secundárias durante o período das férias da Páscoa e por mim pedidos nesta Assembleia.

A Deputada do PS, Maria Teresa Ambrósio.

Curioso também este trecho de uma intervenção então feita pela deputada do PCP Rosa Represas sobre aqueles acontecimentos. Numa interpretação sui generis da maluqueira então acontecida em Torremolinos considerava que a culpa era da AD (então no governo). Presumo que os seus sucessores, fiéis à sempre louvável coerência ideológica do “Partido”, estejam hoje a invectivar o PS exactamente pela mesma causa. Aqui fica o excerto para os que não gostam de clicar:

” … Ao destacar o papel do movimento associativo como elemento fundamental de intervenção construtiva dos estudantes na resolução dos seus problemas, na realização de iniciativas culturais e de convívio, não quero deixar de fazer uma referência ainda que breve, aos recentes acontecimentos ocorridos em Torremolinos.

E quanto a isto, as versões, ainda que nalguns aspectos contraditórias, apontam para uma única conclusão: uma excursão de jovens, um momento de alegria « convívio, foi transformada por alguns deles em cenas de violência gratuita e vandalismo.

No fundo, aquilo que se passa quase diariamente em muitos liceus do País, repetiu-se em Espanha. As acções são semelhantes. Os seus autores identificam-se. Recorde-se os recentes acontecimentos nos Liceus de Oeiras e Amadora, onde alguns jovens, identificados com a AD e fazendo culto da violência, agrediram estudantes. Tal como em Portugal, estes elementos não se esqueceram de, em Espanha, deixar a sua marca, ou seja, as inscrições nazis, cruzes suásticas, etc.

E, se é necessário que seja feito um inquérito aos acontecimentos de Torremolinos dada a sua gravidade, também é preciso exigir que o Governo deixe de estar conivente, esteja atento e aja quando actos desta natureza se fazem sentir nos liceus.

É ainda necessário que se diga que os acontecimentos de Torremolinos dão uma imagem distorcida do que são os estudantes portugueses.

Um grupo restrito de estudantes, alguns dos quais identificados com a AD, não dão a imagem da grande maioria dos estudantes portugueses.

Tal como a não dá o pequeno grupo de arruaceiros que, em alguns dos nossos estabelecimentos de ensino, lança frequentemente a violência e a confusão.”

O estado dos cientistas

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Janto com um amigo, académico. Diz-me que prepara um projecto de investigação, que para a sua realização irá candidatar-se a um programa de financiamentos públicos chamado Horizonte 2020. Diz-me também que as questões burocráticas, de preenchimento da candidatura, são um pouco difíceis. As quais se tratam em portal electrónico próprio, no qual ele já se inscreveu.

Diz-me também que o acesso individual a este portal de financiamento de projectos de investigação científica se faz pelo Número de Identificação Fiscal de cada cientista candidato. Entenda-se, o acesso à actividade de cada um neste portal de financiamento à ciência faz-se pela apresentação do respectivo NIF.

Fico estupefacto. A individualidade do cientista (candidato a financiamento) não é expressa electronicamente pelo seu nome. Ou simbolizada por uma senha que tenha escolhido, num livre-arbítrio expressando o seu imaginário ou realidade (eu lembro, entre outras, as minhas nropa, balama, bolama, inhaca, já abandonadas). Ou, vá lá, o seu número de bilhete de identidade/cartão de cidadão, expressando a sua cidadania, afirmando o indivíduo cidadão com direitos e deveres desta república.

Já não é assim. A individualidade do cientista (candidato a financiamento) é mostrada à instituição financiadora da ciência através do seu número de pagador de impostos!

Muitos textos de muitos autores li referindo esta evolução do sistema capitalista/economia de mercado (há quem lhe chame pós-moderna, pós-industrial, pós-colonial, pós-etc.) que transforma (avilta, dizem) os cidadãos em meros consumidores, como factor de transmutação cultural/existencial necessário ou favorável à estabilidade e potenciação do modus vivendi. Mas neste caso o que vejo, porque o Estado (financiador da ciência) mo grita, é a redução do cidadão (cientista), e assim até a da ciência (dos cidadãos), a utente, pagador de impostos. E diante disto não há um “indignista”, um de prosápia de subversivo, um cientista social analítico, crítico, seja lá o que for, que se arrepie.

Vão felizes, assim utentes. Submersos neste véu ideológico. Dizia-se antes cúmplices. Ou mesmo colaboracionistas. E dançam, os cúmplices. Inscrevem-se, candidatam-se. Apresentando o NIF … Colaboram. E vão saracotear-se alhures.