A reunião

Há quase um ano a mim e ao meu amigo Pedro apeteceu-nos propor uma conversa sobre o êxtase, e as formas de como sobre ele se constroem e manuseiam as memórias sociais. Os donos da bola mandaram-nos dar uma curva, qu’havia outras conversas mais interessantes e que a gente pedisse para nos aturarem numa delas. O Pedro, que é gajo com CV (em latim) e PHD (em português), acho que ficou em cold turkey com a resposta, eu como vinha sem o acrónimo, e como tal mais modesto, apenas sorri e resmunguei o meu “são de lisboa”, que é um dito que em mim, lisboeta de gema, não é nada elogioso – e que um dia poderei tentar explicar a algum interessado, mas adianto que tem algo a ver com um muito ligeiro langor na entoação e um quase-pairar no olhar que por cá se usa em alguns nichos dos “classesmédias”. Não é bem um spleen, que não há firmeza para isso, é mesmo só, enfim …

Bem, o que conta é que ficámos um bocado chateados. O Pedro trabalha com museologia social (que é uma coisa que ele explicará, eu não sei bem bem o que é), e decerto que teria algo para botar. Quanto a mim tinha a certeza que numa conversa destas apareceria alguém a falar de S. Sebastião (que é um assunto must, como se sabe), em regime orgiástico ou dialéctico, e tinha francas esperanças que aparecesse algum velho, como nós, a falar das memórias da heroína, dos ácidos ou de químicos posteriores. Isto já para não falar da quantidade de cenas que dantes se chamaram “esbanjos” (na antropologia têm o petit nom de potlatch), que têm imensas variantes: o êxtase do window shopping, o das férias em pacote, o do heteroerotismo como vínculo político (vide o íman José Sócrates, vero S. Sebastião das pós-balzaquianas), o orgasmo do golo futebolístico (cf. F. Gomes, dito “bibota”, c. 1984), e tantas outras coisas, tudo assuntos postos em memórias, físicas ou não (neste caso manda a UNESCO dizer intangíveis). E tinha a expectativa de que acontecesse alguém a falar de êxtases mais austrais, daqueles que ficam sempre bem quando os antropólogos se sentam à mesa. Se não aparecesse ninguém nisso meter-me-ia eu a falar da representação extática (fica sempre bem falar assim) religiosa, e botaria sobre faquires (fica sempre mal falar assim) africanos. Caso contrário ficaria livre para falar do que realmente me apetecia, de uma prima patrilateral minha, que é proto-beata e tem culto católico próprio, com museu e capela e isso, coisas de êxtases talvez dela e decerto que de família e vizinhança de então.

Isto comprova que nada tenho contra a religião, nem mesmo contra a católica (isso que gauchisme oblige). Até porque, como vêm, it runs in the family.

Entretanto nos últimos dias tenho encontrado uma série de colegas que entre sorrisos me perguntam: “então, vais à rave?”, as tais conversas que acima referi. E eu, sem nenhum êxtase, resmungo que “náda!”. Que estou liso, nem ao Springsteen vou …

(jpt)

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