Velho e saudoso

brasil

 

Amiga próxima acaba de me enviar, por email, um convite para irmos a esta reunião (daqui a bocado) contra o “impedimento” à ex-presidente Roussef. Conhece-me muito bem, sabe do que penso sobre a metastização do partido sindicalista ascendido ao poder e da repugnância que sinto sobre os seus partidos “aliados” e “oponentes”, essa coalizão tétrica que recentemente modificou o poder naquele país. Como tal não achou descabido chamar-me para esta sessão e, se calhar, até nem se enganou.

Mas o que me é relevante (interesso-me muito mais por Portugal do que pelo Brasil) é o manifesto que acompanha a convocatória à sessão, assinado por gente da esquerda portuguesa (com o muito respeitável Pacheco Pereira e o insuportável Araújo Pereira ou seja, entre o PSD social-democrata e o auto-definido comunista, até às irmãs Mortágua).

Pois o colectivo apresenta-se assim: “Somos … Artistas e jornalistas, políticos e cantores, humoristas, escritores e atores, somos trabalhadores, tanta gente. … Somos negros e mulheres, jovens e velhas, artistas, gays e de muitas cores.”. Nem elaboro sobre o conteúdo ideológico disto, que tão sociológico se grita. Sorrio, respondo que não vou dado que não pertenço a nenhuma daquelas categorizações – sim, eu reparei na distraída “all in one” “trabalhadores“.

E, talvez por estar no escritório dele, a escrever na secretária dele, dá-me uma enorme saudade do meu pai, comunista até ao fim, e daqueles tempos da minha adolescência e juventude em que tanto discutíamos, “velhos tempos” em que “classe social” significava algo. E do sorriso dele, tão sarcástico, que decerto teria se lesse um texto destes. Se calhar – ele morreu há quatro anos – iria à manifestação, contra a “direita”, o “capitalismo”, o “fascismo” (“nunca te esqueças que com a tua idade eu vivi a guerra de Espanha/a II Guerra“, dizia-me durante os nossos debates, com a sageza de outra empiria). Mas muito se riria, só para dentro, só cá em casa (até para respeitar a vontade “frentista” do Partido), com estes burguesotes. “Identitaristas, pai”, dir-lhe-ia eu. E beberíamos um rum, ele a abanar a cabeça …

Estou velho e saudoso. E percebo que puxei muito a ele, só não sou é engenheiro. Nem comunista.

(jpt)

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