Humores na internet

Um amigo deu-me agora a conhecer o Jovem Conservador de Direita, uma página de humor político no FB, existente desde 2015, e com evidente sucesso – tem dezenas de milhares de seguidores e imenso laiquismo (mas só 60 das minhas ligações, deve haver um bisturi sociológico qualquer) . Li um naco de postais. Tem alguma piada, mas não tanta.

De facto, e apesar de muitos dos comentadores lhe saudarem a “ironia”, ela inexiste. Pois o tom é sarcástico, uma pantomina do discurso da direita mas em registo demasiado, pelo que não vem muito eficiente, nada ilumina, apenas faz constatar as opiniões aos já concordantes. Mas não quero exagerar na crítica, aquilo tem alguma piada, ainda que um em tom um bocado morno. Convenha-se, o humor é muito difícil. O incrível é a quantidade de comentários de leitores que não percebem o sarcasmo, tão evidente, ali insurgindo-se contra o que julgam ser um verdadeiro discurso de direita (o que demonstra bem o quanto de iletrado irreflectido tem o “indignismo”). 

A página fez-me nostálgico do grande humor blogal, coisa de meados da década passada. No sarcasmo político era espectacular, letal de virulento, “O Anacleto” (que sempre desconfiei que fosse daquele que eu considerava o melhor bloguista político português de então, o jcd, mas não me lembro se ele alguma vez o assumiu [ou negou]). E também dois monumentos, em registo brejeiro: “O Meu Pipi“, que ficou célebre, passou a livro e que ainda está visitável (no blogspot e no sapo). Mas infelizmente despojado dos milhares de comentários, que eram desgarradas fabulosas, desbragadas, com imensos comentadores, alguns deles dotados, e ali exercendo, de uma verve extraordinária, acicatada pelos textos do blog e pelo ambiente daquelas caixas de comentários. Honestamente acho que esses diálogos, verdadeiramente panorgiásticos, foram um momento literário único, colectivo, popular, sociologicamente relevante, e é uma pena terem-se perdido.

E um outro blog, muito mais desconhecido, o “Dói-me“. Um anónimo, que escrevia deliciosamente, e que se assumiu como hipocondríaco e que nos dava conta do seu diário de doenças, das medições e avaliações das suas fezes e estados das restantes maleitas, nisso pontapeando o tom intimista que a vaga bloguística então tinha. Um dia desapareceu (terá morrido, claro). Absolutamente genial. Infelizmente apagou o blog – o que se apropriava ao perfil da personagem. E nem sei se lhe fizeram o elogio (decerto que fúnebre) merecido.

E toda esta memória me recorda um assunto, o dos (infinitos) arquivos da internet …

(jpt)

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