A “Visão” e a mesquita em Lisboa

mesquita mouraria

A ler este texto do director-adjunto da “Visão” reduzindo os adversos à construção estatal da nova mesquita em Lisboa a meros eleitoralistas e pobres almas em busca de “aprovações e partilhas nas redes sociais” .  E atira o seu desprezo por esta mole com um “onde estavam todos em 2012?”, quando o assunto foi decidido ante o silêncio geral, tal como em 2015 quando foi reafirmado. Em suma, diz-nos uns ignorantes preguiçosos que nem ao google indagamos antecedentes do projecto nem percebemos ser aquela área a mais “multicultural” do país – neste último item, o recurso ao “multiculturalismo” como se argumento suficientemente justificativo de uma política, é evidente que o jornalista não está capacitado intelectualmente para perceber a mediocridade da sua argumentação, navega uma já velha moda e julga-a com pergaminhos. E por isso tudo desvaloriza que até se fale da “laicidade do estado“, à qual alude como se descabido seja referi-la nesta temática.

Como bloguei sobre o assunto respondo pela minha parte: em 2012 estava emigrado, há quinze anos. Reparava nos assuntos de Portugal, mas menos do que agora. E isto escapou-se-me. E em 2015 nada li sobre o assunto. Soube agora, por via de um jornal local, “O Corvo“, noticiando as expropriações. Fiquei estupefacto; bloguei; e depois vi alguns ecos de “amigos-FB” meus. Entretanto o assunto espalhou-se no molde actual típico, a propagação rizomática. Decerto que devido ao eco na imprensa das reclamações dos expropriados e da posterior decisão do tribunal.

Porque escrevo, em blog? Por causa da aprovação nas redes sociais? Blogo porque gosto mas também porque há gente que lê, aprecia, atura. E gosto dos comentários, das discussões. E dos likes (os links da década passada) – porque são mimos, sim; e porque aumentam a visibilidade (das minhas opiniões, dos meus resmungos e gostos), até porque agitam essa entidade quase metafísica d’hoje, o algoritmo-FB. Não preciso de escrever, não sou habitado por uma qualquer alma talentosa, uma qualquer imanência. Escrevo apenas porque gosto, de opinar, de conversar, de ser lido e de ler. E há imensa gente assim, uns somos mais interessantes, outros somos menos. E que uma coisa tão simples e saudável seja menosprezada por um tipo que leva como profissão o jornalismo mostra, só, o quão medíocre ele vai. Talvez, anacrónico, saudoso dos tempos em que eram os jornalistas os únicos a partilhar (junto com os “senhores doutores” que convidavam para abrilhantar). Mas isso acabou, mesmo, e ainda bem.

Porque escrevi, sobre a futura mesquita? Exactamente por aquilo que o inculto jornalista acha descabido referir, a “laicidade do estado”. Esta é fruto de um processo histórico longo, de guerras, de conflitos, de acordos. E é em Portugal algo ainda por concluir, por depurar, não só por causa dos tratados (ainda que a Concordata actual seja “suave”), mas fundamentalmente pelas práticas estatais e pelo ambiente moral. Como exemplo dessa dificuldade do apartar estado da religião eu dou sempre como exemplo o abjecto discurso da medíocre Canavilhas no funeral de Saramago, a este pondo em causa. Se o escritor dedicou parte fundamental da sua obra ao combate não só à igreja mas à própria religiosidade, a então ministra foi-se-lhe para o enterro representar o estado, ironizando ao aventar a hipótese do falecido vir a encontrar deus. Ninguém se irritou, claro, pois não só a intelectualidade lusa adora o PS, como também porque a questão religião é por cá quase tabu.

E é neste ambiente intelectual, irreflexivo e submisso, que a ideia de referir a laicidade estatal aparece como descabida. O pobre pensamento que este jornalista aparenta ecoar reduz essa laicidade estatal a uma espécie de equidistância do estado face às diferentes confissões. Ou seja, o estado a todas deve apoiar, até devido à crendice “multiculturalista”, seja por igual seja segundo uma espécie de método de Hondt, pela qual o apoio vai variando consoante o tamanho das adesões. E agora terá chegado a hora do islão, depois virão (ou continuarão) outras.

Ora a laicidade que se requer ao estado não é isso, não é esse tipo de equidistância. É uma distância. A religião é algo de privado, pessoal, da sociedade civil ( se se gosta deste jargão). E o estado não tem uma religião nem várias. Tem como princípio fundamental a liberdade de culto. Conjuga-o com o da liberdade de associação e garante o exercício das comunidades de crentes. E pronto. Ou seja, não faz proselitismo cultual, não considera positiva a prática religiosa, muito menos a pensa como objectivo social. É essa distância necessária, exigível. Não é totalmente cumprida? Então não é chegada agora “a hora do islão”, é mas é chegada a hora de a fazer cumprir. A essa distância.

Nisto tudo porquê o texto na “Visão”, tanta pancada em nós-parolos desvalidos em busca de laiques e shares no FB a contrariarmos a mesquita? Porquê a denúncia da nossa pobreza existencial e, até, da nossa desonestidade eleitoraleira, até imoral? Porquê tanta arrogância do jornalista da “Visão”?

Há semanas deparei-me com o mesmo assunto em destaque nas capas das semanárias “Visão” e “Sábado”, o pouco relevante tema dos clubes privados lisboetas, coisa da burguesia endinheirada. Surpreso com aquilo, sinal de desnorte das direcções de ambas as revistas, comentei isso com um amigo, jornalista veterano, e ele, risonho, atribuiu a até ridícula coincidência à influência daquelas empresas, e seus associados, nas direcções das revistas. Decerto que teriam feito lóbi para aparecerem nas revistas, talvez até pago, e as direcções aderiram. Há dias conversava com dois outros amigos, também jornalistas veteranos, sobre a pluralidade de obras rodoviárias em Lisboa, e espantava-me. Pois, e independentemente da sua necessidade, a sua conjugação causa tais contratempos à população que talvez venham a ter custos eleitorais para a actual vereação nas próximas autárquicas. Riram-se os dois, menosprezando a possibilidade de efeitos eleitorais da azáfama lisboeta, resumindo que “a câmara tem a imprensa na mão”, e com isso conta para tornear a impaciência que agora causa nos seus eleitores.

Ok, talvez nós, blogo-facebuaqueiros sejamos uns frustrados tontos, remunerados em “aprovações e partilhas nas redes sociais“, assim uns verdadeiros ridículos desvalidos. Mas se pensarmos bem, se nos lembrarmos desta tão sabida plasticidade da imprensa face aos grupos políticos e económicos, ao ver um texto como este, a defender de tal forma a câmara de António Costa e Medina, não deixa de me ocorrer que o director-adjunto da “Visão” não é apenas um inculto, um irreflectido, mas que procura para si e/ou sua revista “aprovações e partilhas“. De outro estilo, claro, bem mais material. E estou tão fundamentado, pelo menos, como ele está ao presumir as intenções qu’a gente tem ao resmungarmos contra a construção estatal de um templo.

 

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Um pensamento sobre “A “Visão” e a mesquita em Lisboa

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