“Vai-te embora, ó palhaço”

campo

 

Este artigo do Público seria das coisas mais patetas se não fosse mesmo abjecto em termos de manipulação (é certo que só lê o pasquim quem quer). Um estrangeiro invade um espectáculo legal em Portugal. O Público dá grande destaque ao caso, noticiando que se trata de um “cidadão contra as touradas” – é certo que é um cidadão, e que a partilha de soberania explícita na União Europeia o torna mais endógeno que os restantes estrangeiros exo-UE não residentes. Mas é um estrangeiro em registo abusivo – e com toda a certeza que as prestáveis organizações em que se integra e que o apoiam são das menos favoráveis a esta configuração institucional europeia, esta que partilha soberanias, assim tratando de endogeneizar (relativamente) o estrangeiro.

Às pessoas presentes o Público denomina como “aficionados e apoiantes da tradição tauromáquica” e não, como é habitual, como “espectadores”. A semântica é tudo! Refere, com ênfase, a jornalista do Público que ele foi insultado, e sublinha que nos filmes realizados se ouve, várias vezes, “vai-te embora, ó palhaço” gritado da bancada. Chocante, um verdadeiro atentado. Depois o homem foi agredido, levou uns xutos e murros – que, obviamente, são também o seu objectivo “para a fotografia”. Os bens pensantes ficam todos chocados, impressionados com a “selvajaria” dos tais “aficionados”.

Nunca fui a uma tourada, nem acho piada aquilo, sempre as pensei como algo tipo espectáculo de drag queens avant la lettre. Mas a estes patetas das “boas causas” não tenho mesmo qualquer respeito. A este palhaço holandês só me ocorre gritar “vai-te embora ó palhaço”. Dele não se esperará nada melhor. Mas de outros, os pressurosos ofendidos com isto, dá vontade de lhes gritar, vão lá ler, “bolas” (ai, meu deus, que terrível insulto) e preocupar-se com as verdadeiras coisas do mundo. Por exemplo, logo na primeira página de uma simples pesquisa no google, e já que estão tão preocupados com os touros, podem apanhar isto. Leiam, se tiverem afã, pensem, se ainda conseguirem, partilhem, que é o que vos é mais fácil. E, “ó palhaços”, actuem, já que são mais sensíveis. E vão pensando, entretanto, que raio faz este histriónico S. Sebastião holandês neste propósitos. E onde está, verdadeiramente, a “selvajaria” “cruel” dos “aficionados”, e quais e de quê são estes. Caso contrário? “Estejam calados, ó palhaços”.

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7 pensamentos sobre ““Vai-te embora, ó palhaço”

  1. Para quem “não acha piada aquilo” tem sentido respeito por tudo o que lhe rodeia. Se assim não fosse não faria o clássico caso da inversão das prioridades. Explico. Para si, o problema é que a tourada não faz parte da lista das “verdadeiras coisas do mundo”. E como se isso não bastasse vai buscar a influência holandesa na desflorestação, porque o tipo é… holandês… Fará sentido essa argumentação? Casos semelhantes também se encontram no tema dos refugiados (“se estás tão preocupado, porque não fazes o mesmo com os sem-abrigo?” ou mesmo na luta dos direitos dos animais (“então e as pessoas, os idosos e as crianças que sofrem por esse mundo fora?”) Ou seja, faltou explicar o essencial, pois ainda que não achando piada à coisa, acha menos normal que a peça jornalistica chame aficionados aos espectadores, de um espectaulo que vai contra principios básicos de bem-estar animal, e que muitas vezes acaba por estar ligado a cenas de violência sempre que alguma manifestação pacifica ocorre…

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    1. a) a invasão de um espectáculo não é uma manifestação pacífica …
      b) “as verdadeiras coisas do mundo” são todas, as hierarquias das causas também são “verdadeiras coisas do mundo”. A questão que se coloca aqui é a das agendas ideológicas e, mais ainda, das de agit-prop. Na nossa sociedade vergamo-nos, quase constantemente, a elas porque parecem naturais, assentes numa espécie de moral universal. E os bem intencionados assumem-nas em regime de crença (“é errado fazer sofrer o touro”). E nesse regime de crença, com a subsequente martirofilia, da qual este homem é manifestamente adepto, não há qualquer relativização dos pressupostos, inquietação com as agendas. É uma festividade, uma comunhão. Eu sou velho, adolescente na explosão dos movimentos ecologistas na Europa – que eles hoje se assumam, enquanto manifestações públicas, como amigos dos gatos domésticos (do quais sou cultor) e dos touros bravos, é, pura e simplesmente, patético. Mas compreensível, sociológica e ideologicamente interpretável.

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      1. E sim, acho muito menos natural que uma peça jornalística seja completamente alinhada do que haja uma diversidade de pontos de vista sobre uma situação.

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  2. O meu Caro José Pimentel Teixeira não acha piada aquilo. Eu acho que aquilo é um acto de selvajaria, condenável a todos os títulos, e que deve ser erradicado da face da terra. Se estivesse na pele do touro, ficaria eternamente a qualquer holandês ou outro estrangeiro, da Zona Euro ou não, que viesse em meu socorro ou que para comigo expressasse, como se dizia na terra onde o José Pimentel Teixeira viveu até há bem pouco, “solidariedade indefectível”.

    Mas, à luz de legislação recentemente aprovada na magna Assembleia da República portuguesa, será mesmo legal esse tipo espectáculo de drag queens?

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    1. Cabrita não sei se teve oportunidade de ler o documento que eu partilhei mesmo no final do texto. Esclarece, julgo, todas as questões relacionadas com a minha relação com a tourada.

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