Olivais, 1970s

love you live

Abaixo meti que visitei a minha velha escola secundária, 35 anos depois, coisas de ter regressado ao bairro lisboeta onde cresci. Há uns anos estive num blog colectivo dedicado ao bairro, o Olivesaria – tempos tão distantes que da era pré-facebook, quando as pessoas se podiam juntar e partilhar escritos e não apenas “sharar” “nacos-de-som”. De vez em quando escrevi e escreveu-se sobre aquela escola, os “Viveiros” (actual Eça de Queirós). Nestes dias memorialistas deu-me para googlar o Olivesaria e apanhei este texto: onde lembrei um bocadinho a escola e, acima de tudo, o crescer nos Olivais durante os 1970s. E é também, descubro agora, o elogio do tabaco …

***

Nas tardes dos “Viveiros” na Primavera de 78? 8º ano, 13 anos, um poço de timidez desajustada, tão fundo poço que até afogou quase tudo da memória desse ano. Muito mais tarde haveria de recuperar algo desse tempo, como se me preenchendo, em incompetente regime de auto-construção própria, entenda-se. Mas isso só uma mão-cheia de anos depois, algo até começado no ano seguinte, um 9º ano já mais desanuviado também por obra de uma turma mais enturmada e assim animando, fazendo libertar, mas tudo aquilo num passo a passo feito de passos muito pequeninos e tão lentos, assustados por vezes, aterrados tantas outras. Sei que naquele 8º ano tinha aulas de manhã e que era uma turma nova para mim onde resplandecia – em algumas disciplinas comuns – a beleza absoluta, longínqua como se de realeza mágica, coisa até divinal e por isso trituradora, devastadora, dolorosa, da Ana M. essa mesma que já em adulta passou a Ana C., então já vista como se algo humana presença. E com quem até já voei transcontinentais por duas ou três vezes sem nunca lhe ter dito de tais memórias – e que a Teresa não as vá denunciar hoje, em reuniões de família …, acho que voltaria a corar, fenómeno que era, e continuou a ser nesses anos seguintes, o meu tenebroso dia-a-dia de então.

Mas é das tardes do tempo dos “Viveiros” que querem relato, não desses trambolhões matinais. E essas eram eram passadas no futebol, ainda. Sofrendo, de quando em vez, com as intromissões dos queques da Bolama, cheios de pullovers Sidney e sapatinhos, a acharem-se muito importantes e crescidos, os sacanas, uns putos insuportáveis sempre com umas flausinas em torno deles, elas de calças apertadas nos joelhos e uns reis na barriga, a desprezarem os putos foleiros que jogavam à bola. Não me esquecerei nunca de chegarem eles aliados à seita do Pimenta, um dos líderes dos temidos “ciganos”, para nos roubar a bola – por acaso chegou o meu pai, tiveram que se refundir -, mas isso talvez tenha sido um ou dois anos antes.

E foi nessa altura, no ano anterior ou nesse, que conheci o Mário W. (e foi o Abu, então ainda puto Zé, que nos apresentou e ainda me lembro dele à frente do “Canguru” a dizer com um sorriso “temos um novo amigo“, e tivemos que o Mário era uma jóia), vizinho do prédio de cima, o do Zé Nuno Martins, esse onde de vez em quando aportava um célebre “Cantor da Rádio”. O Mário chegara da Guiné-Bissau para viver com a tia, a família passando um mau bocado por lá, detalhes que só alguns anos depois pude dele saber e entender, coisas das revoluções e dos horrores nunca-ditos da família Cabral. O Mário era um amigo de mão-cheia – do qual perdi o contacto, estupidamente, pela minha inércia de termos subido para circuitos diferentes e dele ter avançado na biografia mais depressa, casado e trabalhando ainda eu andava numa tardia adolescência, e depois até enviuvando, ao que ouvi. Nessa época passávamos as tardes no quarto dele ouvindo música, uma fantástica iniciação ao “afro”- funky, disco (sim, disco), reggae, mais tarde até ska: sabia lá eu que estava a ouvir o Off The Wall, os Chic, Diana Ross, todo o Motown, tanta coisa que era aquilo tudo. Pois para mim que apenas conhecia, através dos mais velhos e da rádio, o rock inglês e o rock progressivo, de todas aquelas novidades só o Marley me já era ícone, o resto apenas fabulosa música. Era um mundo novo que se abria, uma fabulosa discografia baseada num gosto tão diferente, tão mais burilado, tão mais rico, e um ritmo quente, diferente, como se outras coisas houvessem por aí afora. Quase tudo daquilo era pertença do primo dele, um tipo mais velho, já nos vintes e tais, e que veio a morrer novo, pouco depois, só depois percebi que da doença que entretanto chegou, coisas do como ele era e vivia. Música a deixar-nos sentir diferente também pela dança que ali aprendíamos, ainda que desajeitados de envergonhados, pois tanto o Mário nos dava “aulas” como a prima Zinha, um bom par de anos mais velha, nos ensinava, com uma simpatia radiosa de fazer crescer os miúdos.

Nisso já andava comigo o Organo, que mais tarde veio a ser “Úare”, e ainda mais tarde “Nani”, mas nesta versão mais para as amigas – um tipo que também não vejo para aí há uma década. E também um pouco o Pedro Cabral, camarada que se afastou já bem mais tarde em corridas diferentes, tendo começado por emigrar para o “Tosta”. Desse grupo, ainda atreito às futeboladas no estádio Marancagalha mas mais ou menos excluídos das sessões musicais, lembro o Chiquinho do prédio do Ambrósio, o tal do “supermercado Cangurú”, que tinha um riso contagioso mas ao qual as coisas não foram correndo nada bem logo desde tão cedo, a avariar-se naquilo das tristezas alheadas, então chamadas esgotamentos à falta de melhor termo, e o Luís e o Manuel, os irmãos “parolos” como dizíamos, na maldade, também elitista, de então.

Nesses meses dos 13 anos foi o começo do crescimento, uma coisa feita neste encerramento que aqui resmungo, porque ainda dolorosos, entre os livros paternos, a colecção de bolso da RTP que até já ia comprando, e a música a fazer-me assim. O primeiro single “Money”, comprado no “Pão de Açúcar” e depois o primeiro LP, “Animals” dos Floyd, 240 escudos comprados com 12 notas de 20, que me era a semanada. A seguir o primeiro Dylan, “Desire” que tinha uma canção quase pop que falava de namoro nas praias tropicais chamada “Mozambique”, sabia lá eu o que me viria depois. E o primeiro Genesis, “Wind and Wuthering”. Em Julho, logo a seguir ao aniversário, já aulas terminadas, uma decisão que depois percebi como estruturante da minha vida: contado o dinheiro das prendas oscilei entre comprar um skate – como alguns queques tinham – e o duplo ao vivo “Love You Live” dos Stones. Hesitei, hesitei e fui ao Apolo 70 comprar o disco. Foi só pôr a tocar a “fanfarra para o homem comum” e perceber que se fodesse o skate . Dois meses antes, numa tarde sozinho em casa, roubara o primeiro SG Filtro da secretária do meu pai. Fumei-o à janela das traseiras, a olhar um Tejo muito longínquo. A deixar-me um sabor que muito de vez em quando ainda me aparece – para aí há um ou dois anos regressou inopinadamente. Pode-me matar esta porra de vício. Mas então construiu-me.

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3 pensamentos sobre “Olivais, 1970s

  1. Claro que a gente não gostava dos queques da Bolama fundamentalmente por causa das raparigas que eles acolitavam. E como “se não podes ganhar-lhes junta-te a eles …”

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  2. Já sabes o que sempre direi da tua roupa velha: a arejar assim, que isso na ‘gaveta’ ainda ganha bicho. Eu também não gostava dos queques da Bolama, mas que diabo, tinham por lá uma irmã, descoberta no 7°ano,… e eu como tu arrastava uma timidez que só me permitia aproximações em espiral. Algumas demorando vários anos.

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