Os professores dos “Viveiros”

viveiros

Como falei dos Viveiros, a minha escola nos Olivais, replico aqui um texto que meti no Olivesaria sobre a minha memória dos seus professores (lateralmente também será um texto sobre a “escola pública”).

***

À escola vieram-lhe a chamar Eça de Queirós mas nós, que em Janeiro de 1977 a inaugurámos no meio do lamaçal – data tardia para o início de ano lectivo até nesses tempos revolucionários -, ficámos na trincheira de lhe chamar Viveiros. Há tempos o João Belo [o cognome do Joaquim Paulo Nogueira no blog Olivesaria] lembrou o lendário stôr Roxo, anos a fio presidente do conselho directivo. E então tentei lembrar o plantel dos professores de liceu que por lá tive. Sinal claro da balbúrdia desses tempos, a grande maioria varreu-se-me da memória. Se me recordo dos professores do “ciclo”, passado no recato do Valsassina, os anos escolares seguintes estão na bruma. Lembro algumas personagens mas por questões acidentais – uma professora de matemática do 7º e uma outra de biologia do 8º porque vizinhas, uma de biologia do 9º porque lindíssima, um de português de um ano esquecido porque jovem barbudo e de cerrado sotaque do Porto – e um gajo porreiro -, e quatro ou cinco personagens já meio confundidas porque vítimas privilegiadas das “malvadezas” daquele então. Sem ironia, um tipo olha para trás e vê que se divertiu (como não? se com aquela idade …) mas por ali passou como por outro sítio qualquer teria passado.

De seis anos de “ensino secundário” ficou-me o registo de três professores. Desse quase vazio a culpa, se é que isso existe (e um gajo quando depois veio a passar pela profissão atira menos pedras), não seria de cada um deles mas acima de tudo daquela balbúrdia radical, do desarranjo de tudo aquilo. E também da parvoíce dos infantes, minha e não só, num estado pré-selvagem (como diria o sô Rafael da drogaria do bairro, aquela entre-cafés “Pinto” e “Tó”, passados alguns anos). Lembro dois excelentes professores de História no 10º e no 11º – um era Aníbal Esteves, ali vizinho, pois até vivia na rua da escola. Do outro esqueci o nome (aqui mea maxima culpa), um sábio, barbudo de meia-idade, comunista, belo professor e a conseguir impor um bocadinho, não mais do que isso, de ordem – como lhe pude esquecer o nome?

Mas, mesmo assim, no meio daqueles Viveiros ainda deu para cruzar o professor que me foi o mais importante na vida. Um puto (teria ele para aí uns 22 anos) ainda estudante e que ensinava Filosofia. Brilhante, genial nas aulas. A ensinar o pessoal (era aquilo do Belo e dos pré-socráticos e outros gregos assim), a apaixonar as meninas claro, que as colegas andavam suspirosas pelos corredores, e a vir cá para fora ensinar-nos fintas de pés para o râguebi que jogávamos, enganando os candeeiros ali ao café “Vitor” (para não ser à porta da escola). Depois pôs-nos a dar aulas, “como na Universidade” aliciava ele e nisso não mentia – lá fui com o Miguel Amaral (da Policlínica), com o Pedro Portugal (ao Tosta) e com o Facadas (da Catió) – esse que se veio a tornar no João Matias – dar uma aula sobre uns helénicos – uma catástrofe que ele aplaudiu. Depois pôs-me a dar uma aula sobre Heráclito, sozinho, preparei-me por um calhamaço [“Os filósofos pré-socráticos”, de Kirk e Raven, um clássico botado na Gulbenkian, o meu primeiro livro daquele quilate] – tinha quinze anos! Correu-me bem, acho, acharam. Tínhamos todos aquela idade! Passado algum tempo conversávamos no pátio e ele, até surpreso depois dos testes, “estranho, vocês perceberam melhor o Parménides do que o Heráclito, costuma ser o contrário“. “Pois, stôr, fui eu que dei a aula do Heráclito“, disse até acabrunhado. “Nada disso, V. foi excelente” e eu, puto estúpido, logo a (re)inchar-me. Mas destas ingenuidades todas, até dele, um gajo só percebe quando vai para mais velho. Ao aproximar-se o fim do ano veio avisar, “ninguém chumba comigo” pois “vocês não têm idade para abstrair, só a partir dos dezasseis anos e mesmo assim …” – platónico, estava-se mesmo a ver, ainda que ele também não tivesse os trinta anos recomendados pelo mestre da Antiguidade. E o pessoal ainda assim, ou talvez por isso mesmo, a ir-se aos estudos – não muito, que não era recomendado perder a face de balda, claro, seria até vergonhoso. Depois desapareceu, foi à vida dele.

Dez anos depois, estava eu já doutorzito em entre-tropas, vi anunciada uma conferência do Prof. Nuno Nabais no Goethe. Lá fui eu, a ver o que lhe tinha acontecido. Lembro que entrei e assisti, era qualquer coisa como a presença de Kant em Nietzsche ou similar. Não percebi rigorosamente nada, para além das saudações. E nisso foi tamanha a angústia que me escapuli, a fazer-me esquecido do “dá-me licença !?… V. foi meu professor em miúdo” que me tinha levado até ali.

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2 pensamentos sobre “Os professores dos “Viveiros”

  1. olá! Tb adorei o Nuno Nabais! E também fui assistir a uma conferência dele, creio que no Institut Franco-Portugais…

    Tive óptimos professores nos Viveiros, que frequentei do 8.º ao 11 ano (1978-1982). Um deles foi o Paulo Varela Gomes, que faleceu há pouco. Partilho um texto que escrevi nessa ocasião.

    Obrigada Paulo Varela Gomes.

    Fui aluna de Paulo Varela Gomes no 10 .º ano do Secundário, em 1980-81, nos Viveiros, hoje Escola Eça de Queirós, em Lisboa. Foi meu Professor de História. Tinha terminado a Faculdade havia pouco. As suas aulas eram fantásticas, de uma vivacidade extraordinária. Profundas, mas profundamente simples. Prendia-nos do primeiro ao último minuto, a nós todos, adolescentes, à volta dos 15 anos.
    Com ele aprendi um outro olhar sobre a História, cansada que estava da cronológica história que nos acompanhava desde a Primária. Um dos temas de que me lembro melhor foi a Demografia do Antigo Regime, todo um mundo de coisas novas em torno de Philippe Ariès. A história feita vida, a latejar. A história também como forma de olhar o que estava a acontecer à nossa volta, nesses tempos de tantas mudanças, no país, nas ruas, nas nossas casas. Em nós.
    No 11.º ano o Professor não voltou. Saudades imensas das suas aulas diferentes de tudo o que conhecêramos até ali.
    Desde então, fui acompanhando de longe o seu percurso. Li as suas crónicas, vi os seus programas de televisão, segui a sua vida universitária e também política, as suas estadas no Oriente. Encontrei-o pessoalmente numa conferência que fez no Palácio da Ajuda, há muitos anos, creio que sobre Vieira Lusitano, onde recordámos os tempos dos Viveiros.
    Soube da doença há já bastante tempo. O texto da Granta foi um murro no estômago. Tive muita esperança que conseguisse superar.
    E, no entanto, transformou-se em livros nestes breves anos. Uns atrás dos outros. Agarrando a vida. O Era uma vez em Goa foi um dos meus guias de viagem no Verão passado.
    No dia 20 de Abril não esteve no lançamento do livro sobre o pai, o Coronel Varela Gomes, no Liceu Camões. Fiquei apreensiva com a sua ausência.
    No sábado, uma tristeza imensa.
    Foi um dos Professores – com P grande – que deixou marcas fundas. Foi sempre uma referência ao longo de todos estes anos.
    Até agora, quando de frente enfrentou a morte e até ao fim nos ensinou a vida.

    Cristina Rodrigues

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