Olivais, 1980s

olival
(foto Bill)
(Já que estou a reviver isto dos Olivais coloco o terceiro dos textos memorialistas sobre o bairro que há quase uma década metera no Olivesaria. Este escrevi-o há quinze anos – e isso nota-se nas referências finais – e depois de o blogar tive que o apagar pois evocara alguém que eu julgava “desaparecido em combate” mas que felizmente ainda aqui está. Depurei-o das referências que poderiam magoar, e fiquei desculpando-me de qualquer involuntário, distraído, agravo. Deixei o nome do Zé Monteiro – por favor não me venham dizer que parece mal dizer que continuo com imensas saudades dele).

 

Em memória do Zé Monteiro, Senhor e Iconoclasta. E que faz falta …

O primeiro tipo que vi a xutar foi o Beto João, para aí há uns 20 anos, estávamos todos na cave do Venâncio. O gajo apareceu a pedir para dar lá o caldo e entrámos todos, a pensar que se ia fumar um charro. Ele não gostou, e eu também não que seringas nunca foi comigo, mas ainda precisou de ajuda para o garrote, hesitámos, ficámo-nos e foi a Maria que os teve para se chegar à frente. O Beto João era da geração mais velha, junkie de sapato italiano, bem penteado, andar balançante e inchado, olho arqueado, um bonitão um bocado p’ró piroso. Depois a vida foi-lhe piorando, baldou-se para o estrangeiro constava que em curas, e um dia morreu em Itália de um tiro na cabeça. É certo que muitos anos depois, eu já trintão no café do Pinto, e ele entra-me, igual a sempre, todo atilado a pedir uma bica. E por ali ficou, sorte dele. Outros morreram assim, também ao Pérsio lho aconteceu lá pelas vindimas estrangeiras, último refúgio de uns quantos, e estou eu a almoçar numa tasca com o coronel e o gajo a entrar a dizer que afinal não está nada morto, e se pode almoçar connosco. Mas não estava muito bem, e sempre se morreu passados uns tempos. E ao Zombie, aquele de verdadeira série B, um tipo altíssimo e magérrimo, todo baço do cinzento que era, que ganhara o cognome ao morrer de Od e a arrepender-se logo a seguir, decidindo-se, quem o diria, a acordar na morgue onde, contavam, causou um grande impressão, e até susto, mas do feio que já era, para além do que se havia tornado. Depois, disse-se, reincidiu nisso do morrer.

Nos xutos perdeu-se muita gente, alguns resistiram anos a fio e depois limparam-se, até se veio a tornar engraçado a gente nas imperiais da esplanada e eles, sumol de ananás, limpinhos, a contarem das dores das curas, alguns a misturarem essas histórias das dores com os cristos que lhes tinham impingido naqueles entretantos, coisas dos calvários de cada um. Outros foram morrendo, de amigos amigos assim só perdi o Zé M. que está aí na epígrafe, um Senhor que me faz saudades, Átila da retórica, que a erva não nascia sob as suas palavras. Outros perdi de outra maneira, ficaram vivos mas o seu desatino separou-nos, que se aprende a não ter paciência para os agarrados, alapam-se mesmo, só tantos anos depois percebi que quais matacanhas, que é bicho que nem conhecia à altura.

Quem cresceu nos Olivais sabe bem o que era a mistura de gentes, que era o que tinha a piada, foi o que retirámos do Salazar, que foi quem inventou o bairro, uma sopa de classes queria ele, a ver se melhorava o tempero, o dele claro está. Aos 9 anos saía-se da carrinha do Valsassina para a pedrada com os “ciganos” e havia quem logo fizesse alianças de classe com o Chica e o Pimenta, que penso perdurarem até hoje, caso seja necessário. Quando chegados a crescidos isso dá-nos um grande treino na vida, apesar das surpresas! E aprendemos que as drogas são como o futebol e a caça, os índios vêm de todas os estratos.

Lá pelos finais do liceu, quando tocou a rebate por causa das médias, os pais a quererem-nos sô doutores e nós sem saber como não o ser, havia imensa gente junta, nem se sabia bem como, que aquilo éramos aos magotes, saímos de todos os recantos. E também, claro que por isso mesmo, havia muito produto, coisa plural de opção, as mercearias não faltavam, lá no Gordo, nos Candeeiros, no Brisa, nos Viveiros, no Ferrador. As mais pesadas diziam que era no Cambodja e, talvez, no Modesto mas aí só ia quem conhecia e os tinha no sítio. E já nem falo do Comboio Parado e do Vietname, ambas lá para a Cidade da Beira, mas a estas últimas nunca me cheguei, que essa era zona nada segura para nós, nunca percebi bem porquê, falta dos contactos certos, penso eu mas só hoje, que isto mesmo nestas andanças havia os territórios certos de cada malta.

Da geração mais velha alguns já andavam aflitos com a heroína, o cavalo como dizia a xunga dos dealers, e que já acima gemi. O ácido é que era coisa de filme, sabia-se que existia mas não era usual, e o que aparecia era só estricnina. E tanta era que mais tarde tivemos que ir ao Burroughs e afins saber como aquilo funcionava mesmo. Vendo bem éramos e fomos uma geração pós-acido e pré-pastilhas, essas que lá para os 90s, nós já senhoritos, puseram Lisboa aos pulos de madrugada com músicas que me tornavam avô, que aquilo era só barulho, e ainda para mais usada por gentes que só bebiam água, que desperdício de noites.

Pois quando começaram os 80s chegou a era dos drunfos, afinal o ácido dos pobres. Noites quentes pelos cafés com dezenas de tipos meio aos gritos meio aos grunhidos, um bazar de comprimidos onde o rei era o Espanhol, um celta sem dentes, histriónico. Aí o pessoal graduava-se, o máximo era quem arranjava as panteras cor-de-rosa, o grande sómio, coisa de tráfico, mas quantas das vezes restavam as idas às farmácias das mãezinhas, as cujas iam esquecendo os maridos ausentes ou arredios à pala dos roips ou mandraxs, uma pôrra porque davam ganza – e aquele borbulhar quando caídos nas imperiais prometia mesmo isso – mas tornavam-os amnésicos. E era assim, erravam grupos anestesiados, nada para lembrar no dia seguinte, excepto pelo sóbrio que ia para tomar conta, quando o havia disponível. Acho que isso decaiu quando o Chico dos Drunfos se deixou morrer atropelado em plena Av. de Roma, ter-se-á esquecido de a atravessar, um drama. No meio disto tudo usavam-se speeds, mais legítimos porque até vendidos nas farmácias. Ainda assim os mais velhos falavam, saudosos, do lipoperdur, uma verdadeira lenda ainda hoje lembrada com frémitos, que lhes tinha permitido terminar o liceu no meio da festa, pois era coisa de animar o “duques” e ainda estudar noites sem parar. Mas tinha sido retirado do mercado, fascistas, pelo que rapaziada estudava e curtia à base de comprimidos para emagrecer, uma cena um bocado envergonhada, sem grande onda, e que cobrava o acelerar com ressacas que não havia modo de enganar, e que, afinal, não deixavam estudar …

Mas o que reinava era o haxe, o compromisso moral daquilo tudo, o cimento da sociedade. Barato era, mas raro havia dinheiro para comprar as barras de gramas, pelo que ele chegava aos pintores, o vulgo de então para cem escudos cujas notas já nem existem – nem as notas nem os escudos. Era coisa de consumo constante, logo de manhãzinha um assobio lá em baixo na rua, às vezes ainda na cama e lá estava o aviso para o sair a correr, duche rápido nem fossem ficar agarrados ao filtro, o apelo à vaquinha que aquilo era coisa para fazer de preferência em grupo, se bem que a prática da marroquina, a bem democrática passa única inchada até rebentar, nunca fosse cumprida, para desespero de quem ficava para o fim, ali a remoer-se com as cinzas alheias. É certo que o brunhol era quase sempre muito misturado, em especial com aquelas cenas do shampoo, mas ia dando para não nos ficarmos atravessados. Pela diferença ficou célebre uma carga que deu à Costa, largada por qualquer traficante em apuros e prontamente recuperada ao circuito, tão bom era que anos depois ainda se dizia que o produto em causa “é da costa”, como selo da qualidade – um mito urbano, dir-se-ia anos depois se fosse dito, matéria de filme se houvesse filmes.

Já bem rara era a erva, coisa de retornado, mítica mesmo, uns tipos mais estranhos esses gajos de África, quase todos ali pela Portela, vá lá que faziam imensas festas, curtiam um bocado diferente do que nós, que nos chegávamos a eles e a elas, sempre na cola. Mas quando “a passa” (eles falavam assim) aparecia era altura de festa, levada aos sacos de plástico até de supermercado para os grandes momentos, esses quase sempre lá pelo velho Dramático em Cascais. Ou mesmo quando o Woodstock fez dez anos, a malta à meia-noite no Quarteto e gajos que até as mantas traziam, e vá lá que ninguém se despia na sala.

Com isto tudo também na nossa geração o pó se foi espalhando. Mas havia várias versões, diferentes andamentos. Quem começava nas chinesas, a fumá-lo, levava logo na cabeça, que aquilo agarrava, que da chinesa ao xuto era um sopro, e eles a dizerem que não, que se aguentavam, mas todos sabíamos que depois era difícil sair. Certo que o Lou Reed já não xutava, que o Richards e o gémeo mudavam de sangue de seis em seis meses, dizia a Rock & Folk, mas aqueles heróis todos, especialmente os da guitarra fálica tinham-se passado. E até os mais velhos, Bird e Coltrane. Era só arrogância, “Ya, eu controlo”, mas se tanto o Hendrix como o nosso vizinho do lado tinham marchado… e se havia gajos em muito mau estado ali à mão de semear! Neles era muito um puxar do cabelo para trás, um que se foda que o rock n’roll veio para ficar, rust never sleeps e uns etcs a jeito … Mas é certo que ninguém chegou lá distraído, sem o pessoal a encher-lhe a cabeça. Mesmo enquanto se enrolava um charro, que o tempo dos cachimbos da prata daqueles maços de SG todos tinha passado à história, houve conferências sobre a matéria, posto que aquilo não era saudável. Até porque a imortalidade tinha sido questionada de modo radical, o próprio Marley se tinha ido pelo pulmão, de tanto cantar pela Kaya.

Falando de mim, do que me lembro não é só do ter a minha vida para viver, futuro saudável e feliz, e trá-lá-lá. Mas também da onda má do pó cortado, cheio de venenos misturados que nem sempre eram só Royal de Morango, do medo dos badagaios que davam aos junkies, de tantas histórias más de ods ouvidas contar, até da rapaziada conhecida. E lembro-me muito bem de não ser maluco para arriscar uma cena dessas, e comigo estava muito boa gente. Depois um dia lá fui para doutor, felicidade dos pais, engano meu a querer-me intelectual, levei um ano que nem a “Bola” comprava, aquela que ainda era a do tempo bom, o do Pai Pinhão, não era como é agora, e foi um tempo em que era só ciência, um mimo, nem hoje sei o que me deu. E com isto deixei de olhar aquelas merdas todas, que me punham lúcido, a perceber os estrilhos todos que a vida é. Como era coisa honesta, decente e culta, bebia quando tinha que ser, e tinha que ser muitas vezes, que a angústia continuava. Acho que continuou até me encher de amor pela Inês, e isso ainda levou uns anos.

Mas o festival continuou, aliás está aí. Agora, quando volto ao bairro ainda encontro personagens dos velhos tempos, uma verdadeira arqueologia. Alguns regressaram, cerâmicas frágeis a colarem-se os cacos. Outros nem tanto. Partilham-se as mesas, algumas bebidas e, se afloradas as memórias, o saber de que sabiam de início. É certo que a dor só se sabe depois de sentida, mas sabiam que ia doer. Talvez não tanto. Mas quem foi, foi…

Envelheço, mas quando chego a um sítio estranho continuo a perceber a onda reinante. E em Lisboa, na parca noite que ainda me permite, e que hoje me é estranha, entram-me pelos olhos dentro as linhas de coca nos narizes alheios. Mas isso são mais os tipos da minha idade, o kitsch do cartão de crédito, a cagança enrugada de quem não quer ser velho, nem que seja à força. Mas nem sei bem que drogas os putos consomem, essas sintéticas, nem os nomes lhes conheço. E se ainda há aquilo a que nós chamávamos, tontos, de contra-cultura. Acho que mesmo só o Rui Monteiro, sempre firme de Blitz em riste, nos poderá dizer. E se houver, seja lá o que isso for, se funciona à base de produto como nos tempos dos Freak Brothers.

Para quê estas memórias, tipo streap-tease canibal e autofágico? Lá bem no fundo, apenas um parvo a fazer-se Kasdam. Apenas exorcismo, o exorcismo da enorme saudade, coisa verdadeira, saudade daquele antes.

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