O capim dos Olivais

 

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Cresci no “bairro” lisboeta dos Olivais, e fiquei sempre um bocado bairrista – tanto que até participei no blog que lhe foi dedicado na década passada, o Olivesaria. Para quem não conheça a zona lembro que foi um projecto suburbano dos anos 1960s (um breve historial está aqui), tendo-se entretanto tornado central em Lisboa, encastrado entre as Avenidas Novas, o Aeroporto e a Expo-98.

olivais lixo

Regressei agora, um quarto de século depois e após duas décadas de Maputo. O que logo notei, surpreso, mas também com alguma ironia, foi a profusão do capim. Algo que se veio agigantando no último ano. Num bairro com muitos “espaços verdes” vê-se um mato crescente, capim por todo o lado, albergando cada vez mais lixo retido pelo matagal. Fui sorrindo em privado, torna-viagem que sou, pois tudo isto me lembra os cíclicos momentos de quase-ruptura dos serviços municipais de Maputo, em particular no “caniço”.

Com o passar dos meses percebi que a questão não é um surpreendido incómodo meu. Pois é assunto regular no convívio entre os habitantes. E começou a surgir em dísticos espalhados pelo bairro – que são prontamente retirados, tanto que presumo que o são pelos serviços autárquicos, o que a ser verdade não me parece muito boa prática, pois demasiado cirúrgica numa cidade onde as autoridades são muito  complacentes com as colagens político-comerciais e, acima de tudo, com a pinchagem sobre tudo que está erigido.  E é também presença constante nos vários grupos-FB dedicados ao bairro, que são espaços (também) de debate público, actualmente quase mono-temáticos, tal a profusão de protestos com este assunto. O que evidencia o quanto a situação incomoda e preocupa os habitantes.

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Dois pontos me parecem essenciais. O primeiro, imediato, – que não quero exagerar, até porque sou leigo na matéria – é o da saúde pública. Pois presumo que mato destratado albergue uma miríade de agressores, que em muito ultrapassam a popular “ratazana urbana” ou mesmo as aqui relativamente ausentes “ratazanas aladas”, os malditos pombos que os lisboetas tanto prezam. A falta de reflexão sobre o assunto é notória, sublinhada quando a junta procede a alguns episódicos, espasmódicos cortes de vegetação, e logo faz funcionar os sistemas de regas. Entenda-se, nem sempre regarão os relvados entretanto avassalados, avivam a vegetação daninha …

O segundo é mais abrangente, político. As juntas de freguesia têm um conjunto de competências, que foram recentemente alargadas [aqui um documento que detalha essas alterações]. São matérias que não são de “primeira página” mas que são fundamentais – e principalmente numa freguesia sociologicamente heterogénea e tão envelhecida. Ora com esta situação, ainda para mais tão visível, o debate de cidadania, a avaliação do órgão autárquico, são monopolizados pela questão da vegetação. Parece uma situação a la Jorge Amado, em que a câmara serve para jardins e cemitérios. Ou seja, mesmo que esta Junta de Freguesia estivesse a funcionar bem noutras áreas da sua intervenção isso seria obscurecido pelo … capim. Em assim sendo parece-me que este mato promove um “défice democrático”.

Mas este (necessário) escrutínio sobre a junta é letal. Se é possível que as novas competências que lhe(s) foram atribuída(s) não tenham sido acompanhadas de reforço orçamental suficiente nem de enquadramentos legislativos necessários (o Estado muito  vezes funciona ad hoc) aquilo a que se assiste é até risível,  por mais habituados que estejamos à retórica política. Pois no fb encontro estas pérolas: há três anos a presidente da junta, Rute Lima, garantia uma atenção privilegiada sobre a gestão dos espaços verdes e anunciava que “sabemos o que fazer e como fazer“;

junta freguesia 1

agora, três anos depois, dada o descontrolo da situação emite um comunicado, justificando-se através de um “concurso público internacional” que terá demorado demasiado devido às delongas do Tribunal de Contas. O que me parece? Que muito provavelmente é verdade, quem trabalha ou trabalhou no Estado sabe dos empecilhos que estes vagarosos vistos provocam. Mas, e por isso mesmo, algo tem que ser feito antevendo-os. Deste modo torna-se óbvio que tudo isto é produto de um grande amadorismo na gestão autárquica.

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A questão nem é exactamente partidária, mas muito mais da capacidade dos quadros políticos lançados pelos partidos. Esta área, até por razões da sua constituição sociológica, é uma zona PS e não se devem antever grandes mudanças eleitorais. A freguesia tem 32 200 eleitores e nas últimas eleições autárquicas o PS teve 52% dos votos. Antes desta presidente esteve Rosa do Egipto o qual, se não erro, era o decano nacional dos presidentes de junta (de uma freguesia maior do que imensas câmaras, realço). O limite de mandatos implicou a sua saída, julgo que para a Câmara de Lisboa, e a ascensão de uma sua antiga colaboradora, a referida Rute Lima.

jornal olivais

Esta é uma figura típica – que me é antipática, friso, mas sem que a conheça. Basta consultar o jornal mensal da Junta para o constatar. Dele directora faz-se retratar constantemente, em todas as capas, e múltiplas vezes no seu interior, de modo até frenético. Na rua “out-doors” pagos pela Junta, surgem ilustrados com a sua foto anunciando serviços prestados, por exemplo carinhosamente sorridente abraçando idosas. Ou em total despropósito, como neste que reproduzo.

rute lima

Sem rodeios, são muitos tiques populistas, agregados a uma opção pelas actividades festivas que procuram afirmar-se como “actividades culturais” sem que o sejam, ou que sedimentem uma actividade cultural local (não vou agora aqui aumentar o texto analisando esse pendor pelas “feiras gastronómicas” e seus similares). São práticas típicas, como disse, de perfis de políticos que costumamos associar às zonas mais recônditas, os líderes algo caciques.

Acontece que estamos no centro de Lisboa, que na capital será algo inusitado este tipo de concepções de prática política. E que isto está a dar bronca, que há muita gente, muito eleitor, justificadamente desagradada. E que a essência deste problema é, pura e simplesmente, um óbvio erro de “casting”. Isto por mais que Rute Lima, ainda que vistosa e até algo carismática junto de alguns sectores mais atreitos a este tipo de mensagens – é uma mulher bonita e, dizem, de trato fácil com a população -, possa captar apoios populares. Assim sendo, e até porque tudo se passa numa freguesia que é tão tradicionalmente PS que não se perspectivará qualquer derrota eleitoral, o partido poderia acautelar o futuro (e a gestão da coisa pública) e avançar uma nova equipa para as próximas eleições. É daquelas coisas em que se poder dizer: todos ganharíamos.

 

 

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Um pensamento sobre “O capim dos Olivais

  1. Na “mouche”.
    Pessoalmente, que me relaciono directamente com a Junta por diversas razões, mas em especial por ter filhos a estudar na escola pública, onde esta Instituição tem intervenção muito abrangente, confronto-me muito regularmente com situações em que o bom princípio político (“na verdadeira acepção da palavra”), e a boa interpretação desses princípios posta em prática de forma competente por alguns colaboradores da Junta que prestam com alegria, verdadeiro serviço público, é posta em causa, tanto na aparência, como no conteúdo, por ser dada prioridade a essa forma de comunicação populista e bacôca.
    “O mato promove um défice democrático” parece-me ser a metáfora que sintetiza de forma genial o que se passa no nosso bairro e poderia até ser o slogan de um movimento cívico que contrarie a situação, não fora contrariar de forma tão óbvia todas as normas da boa prática de comunicação e marketing que conduzem ao poder as Rutes Limas, deste mundo.

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