Pinto da Costa e o “estado da arte” disto tudo

pinto da costa

De Jorge Nuno Pinto da Costa há quem goste, e muito, há quem não goste, e muito. Eu não gosto, por coisas da bola e não só, que aquelas nem são as mais importantes, que velho que sou bem me lembro das coisas da regionalização, do Fernando Gomes (não o bibota) descido a Lisboa com prosápias de futuro primeiro-ministro, da “mão no ombro” àquele Menezes e tantas mais, tudo suportado na popularidade dos títulos, a querer estender a trama pelo país afora. Não gosto, pronto.

Dos humoristas nacionais que vão indo em voga há quem goste, e gargalhe. Eu não, nem acompanho, coisa de há mais de duas décadas, desde o execrável “Noite da Má-Língua”, essa senda de humor apenas atrevidote, de bobos da república aos restos dos manjares – evito mesmo, tanto que só agora estou a ler “Hotel Lusitano”, o primeiro livro de Rui Zink, daquilo participante, um livro de há já trinta anos, e apenas porque vários amigos me recomendaram ler o escritor, tamanha e tão duradoura a abjecção qu’aquilo e seus sucedâneos me provocaram.

Digo isto a propósito desta imundície que a televisão estatal portuguesa acaba de produzir. Um cómico contratado a gozar com a vida privada de Pinto da Costa. Sobre esta pouco sei, apenas o que vai brotando na “imprensa da especialidade” e se vai impondo nos escaparates. O que sei é que é um homem oriundo de família portuense de estatuto social elevado (isso existe, é o real, não é uma afirmação ética), um meio sociocultural conservador, em particular na sua geração. E que é um homem livre, assim optou, porventura com alguns custos privados. Que nisso tem vivido livremente a sua afectividade, a sua conjugalidade e, isso faz presumi-lo, a sua sexualidade. De modo livre e legítimo (entenda-se, de acordo com a lei).

A televisão estatal goza com isso, imita-o (com voz, com dístico identificador com fotografia e nome aposto), simulando-o a dizer uma série de impropérios, e a afirmar que “casei com uma adolescente [15 ou 16 anos]“, alguém “básica … com a quarta classe“. Depois a instituição e o locutor tartamudearam desculpas – uma pouca coisa que, ainda assim, intelectuais e académicos, sob este impensamento que grassa no país, esta submissãozita às agendas da moda que lhes garantem as peanhas  para o exercício da mediocridade, se atrevem a contestar, considerando que é uma auto-censura.

Tudo isto é totalmente inaceitável, pior numa instituição estatal ou numa qualquer que tenha alvará passado pelo estado. Pois não se trata apenas da imundície, de uma caricatura falsária integrando uma jocosa invocação de delito (é ilegal casar aos 15 anos) e uma (óbvia e nada sub-reptícia) imputação de imoralidade (muito potenciada pela associação imediata no vulgo à questão pedófila que se impôs na última década e meia na sociedade portuguesa).

Mas é mais do que isso, é um sinal máximo disto que é o humor reinante, o tal de bobo ordeiro face à moral dos que dominam, na demanda dos restos que lhe atiram com desprezo. Pois o que este “piadismo” transporta é o pior conservadorismo “moralista”, a condenação alvar, reaccionária, do casamento heterogâmico (entre cônjuges de diferentes características: sociais, económicas, etárias, culturais, etc.). Entenda-se, a transcrição do ditame casem-se com os parceiros que “nós” consideramos “legítimos”, apropriados, senão achincalhamo-vos em público.

E a submissão deste humor mercenário, e de quem o contrata, ao espectro da moral daqueles que agora dominam nota-se também na subserviência às “agendas da era”. Pois nenhum destes “peões cómicos”, como agora se diz, se atreverá a gozar com, a cutucar que seja, a conjugalidade, afectividade e sexualidade de alguma figura pública homo ou bissexual. Abandalhe-se então o heterossexual que sai (?) dos cânones da “moral e bons costumes”.

Esquecido fica para estes todos trastes que a liberdade não é a súmula dos urros da televisão estatal e as inintelectuais sentenças consagradoras dos intelectuais pagos pelo estado. A liberdade é o respeito pelos actos legais provenientes dos nossos livre-arbítrios. Independentemente daqueles com quem nós casemos, amemos, forniquemos. E que a liberdade do humor, aquela com que se deve ombrear nas dificuldades que enfrenta, é a de tomar riscos ao afrontar os preconceitos e as “agendas” dos que dominam. Não esta subserviência. Desprezível.

Que os tribunais obriguem a RTP a pagar uma pesadíssima indemnização a Jorge Nuno Pinto da Costa é o meu desejo. Mesmo que saibamos que os seus responsáveis são irresponsabilizáveis. Pois será simbólico, talvez até sonante. E será a todos nós, à nossa liberdade, que a empresa, que a nós  pertence, estará a pagar. Por todos nós assim multada, admoestada. E pode ser que alguém, um que seja, assim aprenda o fundamental : “vive e deixa viver”.

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