Olivais, Lisboa: a má prática camarária

Em Março de 2013 meti no Delito de Opinião (onde então escrevia) e no ma-schamba este texto sobre um caso denotando a estrutural má-gestão autárquica dos Olivais. O texto, escrito de Maputo onde então vivia, está algo datado, e denotará a minha distância, então há 17 anos emigrado. Mas como ainda há pouco tempo respondi a um inquérito local sobre a questão que abordei no texto (a rotunda do centro comercial) aqui o recoloco. Até porque acredito que ainda possa contribuir para a compreensão (para além da questão que aborda directamente) da superficialidade com que as instâncias autárquicas lisboetas vão indo, ao longo dos tempos.

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Cresci no bairro dos Olivais, em Lisboa. Uma urbanização dos anos 1960s, uma mescla sociológica (“melting pot” a la Portugal de então) a acolher a alvorada da macrocefalia urbana no país, o crescimento da cidade “capital do Império” de então – estatuto bem marcado na toponímia do bairro, os Olivais-Sul com as ruas nomeadas segundo as localidades ultramarinas (eu sou “da Bolama”) e as dos Olivais-Norte dedicadas a evocar os mortos na guerra colonial (a minha irmã viveu na “Alferes Barrilaro Ruas”).

[O Presidente da República, Almirante Américo Thomaz, descerrando a lápide onde se perpetua o nascimento da nova urbanização ]

Obra de regime, do Estado Novo tardio. Na ideologia, no simbólico, na visão sociológica. E no urbanismo projectado. Um ideal “civilizador” baseado num irenismo sociológico, fazendo vizinhar diversos estratos sociais, crente nas “boas influências”, nos mecanismos de integração cultural e, até, na possibilidade de assim induzir alguma mobilidade social e cultural. Desde uma classe média mais abonada, o pessoal “das vivendas”, ali à “rotunda do relógio”, passando pelo funcionalismo público de alto estatuto (os tempos eram diferentes …) agregado nos “prédios dos juízes” ou dos “militares” (oficiais superiores), e ainda às pequenas vivendas para quadros técnicos com prole avantajada (que ainda os havia) ou aos prédios para “professores”. E, no outro extremo da pirâmide, mas contíguos nas residências, outro tipo de habitação social para reinstalados de zonas pobres, até refugiados das cheias que avassalaram Lisboa em finais dos 1960s, alguns conjugados em zonas que adquiriram nomes pitorescos como “Aldeia dos Macacos” ou “Vietname”, que o célebre “Cambodja” era além-fronteiras, apesar destas porosas, já no início de Chelas.

Locais esses, e outros, temidos em criança, de onde vinham as vagas de perigosos “ciganos” (que não o eram), primeiro para nos roubar as bolas e outros “gadgets” (que não se chamavam assim e eram bem poucos), depois para nos entre-aliarmos, aprendendo a viver no mundo como ele é, e, finalmente já como criança-mor, os invadirmos para comprar as diversas drogas com que esfuziámos a chegada da idade. Caldeirões destas mezinhas eram as “escolas” de então, o célebre D. Dinis (também lá em Chelas mas frequentado por gente do “nosso” lado), a “Piscina”, os “Viveiros” que fundei e onde andei durante anos,. Escolas de peculiar funcionamento, cuja memória sempre me faz sorrir diante dos tontos queixumes d’agora, esses de que “a escola dantes é que era boa”. A  memória social, como se sabe, é bem curta.

Enfim, nisso resultou uma enorme freguesia, então com uma população jovem e descabelada. Com uma cultura “regional”, “tribalista” se se quiser. Calão, percursos, ícones, referências próprias. E mecanismos de solidariedade, que foram ficando, mesmo que algo esgarçados pelas décadas passadas – ainda hoje em Maputo descubro, de quando em vez, um tipo dos Olivais. “Do norte ou do sul?” logo é a questão, “do Modesto, do Tó ou Tosta, do Brisa?”, logo segue o inquérito, a ver das raízes e percursos traduzidos pelos cafés, fortins de então, exactamente como outros perguntam colégios ou duplas consoantes ou falsos tios. E fico de olho no “tipo dos olivais”, a ver se precisa de algo (e, confesso, se justifica a atenção). Tudo isso porque a gente gostou de lá crescer. Há alguns anos os que fizeram o bairro, projectistas e alguns arquitectos que vieram ser célebres, fizeram o rescaldo e lamentaram o rumo do bairro e até deixaram entender que reconheciam erros. Talvez. Mas os utilizadores gostaram.

Bem, vem esta memória a propósito do que vai acontecendo no velho bairro. E também para justificar esta minha atenção. Pois um tipo dos Olivais, mesmo que vivendo do outro lado do mundo, fica atento ao que lá se passa.

[Foto Bill]

No centro dos Olivais um baldio ficou “esquecido” durante décadas. Originalmente pensado para “centro social”, comercial e cultural, mas as convulsões da sociedade nos 70s e 80s estancaram o processo. O baldio foi mato até à democracia. Então aconteceu a reforma agrária. No Alentejo e não só. Pois também ali o terreno foi tomado pela população, as franjas mais “populares” circundantes foram-se a ele e retalharam-no em courelas, dedicadas ao auto-consumo, lembro que em particular de viçosas couves. Cresci nestes prédios, literalmente com machambas diante do nariz.

Anos passados, na euforia da “Europa” e da “economia de serviços”, finalmente se avançou com a urbanização. Prédios de habitação, escritórios e um centro comercial (isso que agora se chama shopping centre). E mais haveria, hotel para o Euro-2004, se calhar mesmo pensado para a EXPO-98, para apoiar o aeroporto, enfim. Claro que ainda não está pronto. A obra começou há 20 anos, em 1993, como mostra esta retrospectiva que foi apresentada no Olivesaria, um blog colectivo dedicado ao bairro que partilhei com alguns velhos amigos-vizinhos.

(Abril de 1993, foto Pampam)

A primeira parte do projecto ficou assim, uma “grande muralha”, completamente esquecida do tom original do bairro, sempre residencial. Esquecida qualquer ideia de zona verde (certo que há uns canteiros dentro do shópingue). Muitos logo protestaram, até porque o estabelecimento de serviços cívicos, culturais se se quiser, foi apagado. Pois nestes tempos “sem ideologias” o cívico é o centro comercial, que a gente ou vai às compras ou vai ver as montras. E os calhamaços, a “habitação” de venda livre, ainda hoje incompleta e de construção interrompida há já anos.

[grandemuralha.jpg]

[Década de 2010, foto Pampam]

Os protestos foram vários, com a dimensão e com o desajuste em termos urbanísticos. Eu já lá não vivia mas tinha a experiência dos meus pais, a quem, apesar de tudo, aquilo satisfazia necessidades. Um dia, no Olivesaria, comentei contra os exagerados protestos. E aqui repito, para que não se julgue que sou um adversário do “progresso”: “Eu não quero parecer chato mas na merda das hortas fedorentas o único verdadeiro tronco que existia era o das couves, Quando cheguei à Bolama, em 1971, aquilo era um baldio de ratos. Com o 25 de abril foi a terra a quem a trabalha e as porteiras amais a restante rapaziada fizeram hortas, também com ratos. Os miúdos gostaram menos porque já havia sebes, arames e plásticos e, helás, propriedade privada – ai de quem pisasse as hortaliças do sô manel e quejandos – já não se brincava ao clube dos piratas e isso ser puto foi porreiro, como o é em todas as eras. Mas é preciso um hiper-bucolismo para, a seco e sem saudosismos, lembrar com apreço o esterco deixado durante 20 anos nos Olivais dado o engasgão do 25 de abril (não é conversa reaça, é mera constatação do virar de agulhas que o bairro sofreu então) A tralha que lá está é péssima, acima de tudo exagerada. Mas, antes de tudo, é melhor que os ratos, as couves e o barracão do “Pão de Açúcar”. Por fim, a culpa é dos autarcas? Não, é de quem os deixa ser autarcas.

Depois, logo depois, avançou-se para a segunda parte do projecto. Mais prédios, nada mais do que prédios. Tudo tão apertadinho, tão utilizado, que um deles está mesmo, literalmente, em cima do passeio. Apesar do grande espaço daquela rotunda. O espantoso é que vinte anos depois do início do projecto as obras não estão concluídas. Há anos que os últimos prédios estão ainda em estrutura. A demência, a cupidez, a irracionalidade económica na república da “economia de serviços”, da “indústria da construção civil” e do sacrossanto “poder local”.

Repito: há vinte anos que começou a construção na rotunda central dos Olivais, entretanto passado de bairro arrabalde a zona central da cidade, pelo crescimento a leste, pela Expo-98. E ainda não está terminada. Nem há actividade construtora. Neste festim de betão surgiu o óbvio, já anunciado há décadas atrás. Tanto foi o espaço ocupado, inutilizado, e a falta de planificação, que o estacionamento no centro daquele bairro residencial se tornou um quebra-cabeças. A solução camarária demorou. Mas depois foi simples. (Quase literalmente) Lapidar.

Foi-se à rotunda (esta, onde está um tal de “Spacio Shopping”) e instalou o sentido único para os automóveis. Para facilitar o estacionamento em espinha, claro. Mas assim constituindo um autódromo. Dada a dimensão da área é uma total violência naquela área urbana. Sob o ponto de vista urbanístico. E também securitário, tornando uma aventura pedonal uma mera ida às compras. Ainda para mais num universo tão envelhecido (“pai, porque há tantos velhos em Portugal?” pergunta-me a minha filha, espantada, aquando nos Olivais).

A desmesurada e irreflectida medida está em “experiência” durante este semestre. Alguns olivalenses, de rija têmpera, lançaram agora uma petição. Para refutar esta insensatez. Urbanística. E também securitária. A petição está aqui [2016: entrentanto desactualizada]: contra as alterações no trânsito e na mobilidade nos Olivais Sul.

Não será apenas um assunto para “olivalenses”. Será, com toda a certeza, assunto para qualquer habitante do país com sensibilidade . Para qualquer peão. Para qualquer cidadão. Nem que seja apenas para ensinar algo aos autarcas. Educá-los, que a crítica dos cidadãos não é poluente, é a chamada participação. Ou seja, civilizá-los, aos autarcas.  Exactamente, o tal propósito que alimentou o projecto “Olivais” …

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Um pensamento sobre “Olivais, Lisboa: a má prática camarária

  1. excelente artigo. Revi-me completamente, nas hortas, no carreiro da igreja que tantas e tantas vezes percorri. Hoje já não estou nos Olivais, mas passo por lá várias vezes. O sentido único na enorme rotunda é uma aberração

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