Mamede e o resto

Fmamede

 

Tirando meia-dúzia de patacoadas dos políticos a única vez em que senti vergonha de ser português foi quando Mamede não ganhou os 10000 metros nos Olímpicos de 1984 e algum povo foi nessa noite partir-lhe a loja de artigos desportivos. Gente muito pequenina. Eu era um puto e fiquei enojado.

Em miúdo os meus ídolos nacionais tinham muito a ver com o Sporting (Agostinho, Livramento, Lopes, Jordão, Damas, etc.), homens que todos admiravam, como aos do Benfica, que então eram tempos de quase só dois clubes. Como a seguir se torceu, em uníssono, por Rosa Mota e aquelas outras corredoras que no país abriram portas às mulheres, que os tempos eram diferentes e a gente até já nem se lembra do impacto da “menina da Foz” (que não o era). Depois cresci e deixei de os ter, aos ídolos. Gosto de saber do desporto e torço, normalmente, pelos atletas portugueses.

À escala a cena que se passa, há anos, com Cristiano Ronaldo lembra-me o episódio do Mamede. O tipo já explicou, lapidar, “não gostam de mim porque sou rico e giro”. O homem é diferente de Mamede – para mim não tem aquela suprema grandeza do falhanço, esse que tanto atormentou o corredor, fazendo-o para mim épico. É um grande atleta, super-ambicioso, perfeccionista, um vencedor, nisso um belíssimo futebolista, um supremo profissional, marca que se farta, e não se nega a nada na coisa da bola. Noutro país seria uma unanimidade, desportiva pelo menos. Por cá? Os comentários, os facebuquismos? É uma mesquinhez atroz. Do mais anónimo dos desgraçados ao ilustre Professor/Doutor/Comentador Político/Homem de Boas Famílias (googlem, se quiserem) é uma raivazinha, um fel, um acinte. Patético. Amainara há uns anos quando ele se foi à Suécia marcar 3 golos e apurar a selecção para um Mundial. O tempo passou, a gente esquece, a peçonha invejosa (aquela que fazia os adeptos gritar por Messi nos treinos da selecção) voltou a brotar, como se se tivesse destapado o frasco de ketchup, para usar a imagem que o próprio Ronaldo utilizou em tempos.

Dizem que é uma questão cultural, isto da amarga ligação dos portugueses com as suas celebridades, os seus símbolos, em particular os que triunfam “lá fora”. Puxo dos meus galões de antropólogo e garanto-vos que não é, não se trata de uma questão cultural mas sim de circulação sanguínea.

Que dizer a essa gente, como os elevar? Consultem os médicos e, se puderem, tomem Cialis, Furunbao, Viagra ou similares. Relaxem. E depois vejam os jogos. Quem não tiver saúde para isso? Paciência. Diga mal do Ronaldo, sempre alivia.

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2 pensamentos sobre “Mamede e o resto

  1. Pingback: 1. – Courelas

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