Biltong de Carapau

cara

Turista na própria terra, avanço com a filha, baixa abaixo, ido do Martim Moniz. Vejo que a rua dos Correeiros é só restaurantes. Vejo que os restaurantes da baixa são todos de “culinária portuguesa” e têm fotos dos pratos [alguém pode traduzir a dizer que restaurante com fotos dos pratos NÃO É de culinária portuguesa? E tornar isso viral?]. Mais abaixo experimentamos o célebre pastel de bacalhau com queijo da serra: é um absurdo. Não que seja mau, é apenas um absurdo.

Mais à frente, quase defronte a outro absurdo, a neo-praia dos Cais das Colinas, encontramos uma feirinha do vinho de Lisboa, coisa simpática. Lá no meio está isto, um quiosque de gente muitíssimo simpática [um tipo encontrar comerciantes genuinamente simpáticos em Lisboa é trabalho de garimpeiro], Maria da Nazaré (peixo seco “desde 1928”, anunciam). Provo um pastel de carapau sofrível (porque com risotto, uma pasta que caiu na moda nesta terra, saberá nosso senhor porquê). Um gaspacho fino, em cálice, uma simpatia para o passante. Coisas de um “chef” com o qual colaboram, explicam, como se fosse uma vantagem. Talvez não seja, talvez seja concessão ao que julgam ser o gosto burguesote d’agora, aqui do alfacinha fino.

E uma delícia, que vale tudo: peixe seco. Biltong de carapau (e eu, em plena Rua Augusta, de volta a Montepuez, onde o peixe seco fede e é de rio, tal como em tantos outros “distritos”). Falo, pergunto, oferecem-mo, carnudo. Como, gosto, a filha torce o nariz, claro, experimenta (cresceu em África), come e gosta. “Áfenal?!“, não resisto ao plebeísmo tão daquele agora “láááá”. A senhora do quiosque conversa, explica, outros clientes (tugas, claro) conversam, gabam. Saio, Terreiro do Paço afora a mascar o carapau seco, o biltong. Viajo.

Fiquem lá com o vosso pastel de Belém, ou com o “nata” como dizem as flausinas agora, ou com o bacalhau/queijo da serra pós-moderno. Pois há Biltong de Carapau, seco na maresia, como me afiança a dona do quiosque: há futuro para este país.

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Um pensamento sobre “Biltong de Carapau

  1. “Afenal” ainda se escreve prosa saborosa, ao ritmo da nossa memoria africana! Com laivos lusos, onde tambem mergulham as nossas raizes.

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