3. (no 4 de Julho: Clint)

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Se na actualidade há algum bardo por aí é este e há muito que o encontrei, a fazer-me a vida. De todos os vivos é o meu cineasta preferido e, também, o meu pensador preferido. E compreendo que nos filmes dele, até nos falhados, fico feliz, suspendo todo o juízo crítico. Ora, não é isso o amor? Segue ele pensando o mundo com uma intensidade e uma densidade ímpares, incompreensíveis para os “bem-pensantes” das ideologias lites e muito para além dos pobres boçais que dele retiram o culto de colts, magnums ou drones. Julgo que a paupérrima apreensão da obra de Clint é mesmo o espelho do superficialismo militante do hoje em dia.

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Talvez ele nunca se tenha tão condensado como aqui. Em “Unforgiven” – naquele seu final avassalador – Clint, malvado, álcoolico, desesperançado, esmagado pela culpa, destino e responsabilidade, ali postado por mero interesse interesseiro, em busca de uma quantia prometida por um assassinato vingativo, e por tudo isso o único capaz de restaurar uma qualquer justiça e alguma moral, grita “é melhor que enterrem Ned [Morgan Freeman] decentemente … que não mutilem as putas“, e volta-se para trás – para a mole, a “demos”, escondida na noite chuvosa, tal como vive escondida na timorata cumplicidade com o mal dominante, e à qual acabara de ameaçar de matar as famílias e queimar as propriedades. E culmina “ou eu regresso e mato-vos a todos, seus filhos da puta“, e é aí que a bandeira americana, semi-obscurecida pela intempérie noctívaga, qual dantesca, surge, ela sempre ícone do eastwoodianismo, e não só dele – signo ali para a desinterpretação dos militantes profissionais.

Clint está a abandonar a cidade, acabou de matar seis homens, um desarmado a sangue-frio (o dono do bar), outros cinco em duelo. No rescaldo matou Gene Hackmann a total sangue-frio, em tiro queima-roupa de sem-misericórdia  – e mesmo que em filme já de 1992 isto de uma estrela como Eastwood abater deste modo uma outra estrela cinéfila magna como Hackmann é uma ruptura com o cânone, que um filme de Eastwood não é uma inútil pantomina tarantiniana, tem a grandeza de moldar, é produção de mundivisões.

É um momento único, uma síntese antropológica crucial: não só o trivial (aqui na gasta pátria desconhecido e desensinado) de que o real não é bi-cromático, pobre. Mas sim da complexa ética fundamental, de que o mal é constitutivo, essencial, um valor, plástico, melhor, úbere. Bem. E isso confunde. Não  a esta gente, a assertiva, vã. Mas o mundo, lá fora.

Em “Grand Torino” destrói o politicamente correcto, afirmando o quão o verdadeiramente importante está para além da verbalização, o como nada lisa é a realidade. Um filme que é uma lição, reflexão, sobre o que somos mudamos, sobre o rugoso do que expressamos.

Mas acima de tudo é uma espantosa lição sobre o que é o contexto, o como este não só é significante mas como torna significante o tudo. Numa breve  cena, prodigiosa, 3 minutos e 20 segundos apenas, “vais aprender como os homens falam“, condensa e potencia milhares de páginas de nós-gente das ciências sociais. E rasga esmaga os dísticos:

Recentemente, em “Atirador americano”, o tão mais-velho vem majestoso. É o grande filme sobre a guerra desde que Kubrick se debruçara em “Full Metal Jacket”, refutando-a. Há aquela coisa da fantasia realista, que sobre o assunto Spielberg mimetizara nos frenéticos e abissais primeiros minutos do “Soldado Ryan” – mas que destroçara logo de seguida no patrioteirismo de rebuçado do resto do filme. Mas agora Clint, o maior de todos nós, humanos, ultrapassa os discursos alheios. Sim, a realização de cume, de um realismo ríspido, cruel, coloca-nos no palco da guerra, como se seus agentes e não meras vítimas. Mas muito, muitíssimo, mais do que isso, e muito mais ainda do que os filmes de mensagem, ali está uma reconstrução cultural fantástica, um etnógrafo assombroso, o cinema antropológico levado ao inultrapassável, um filme sobre “maiorias indígenas” exagero eu.

Diz o herói – e como podem os amantes da Ilíada e da Odisseia refutar os textos actuais sobre heróis, e sua ira até semi-divina? – que luta por “Deus, Pátria e Família” E nós sabemos, até porque os diálogos logo ali o negam, que o seu “deus” quase inexiste e também que a família se lhe desvanece. Fica, apenas, mas um Apenas maiusculizado, a “pátria”, essa que, afinal também canibal, o devasta na guerra, e tão mais aos seus circundantes, desde o irmão à última e esquiva, mas determinante, personagem do filme. É por isso que Clint é não só o Cineasta mas o grande intelectual deste virar de milénio, há décadas a afirmar a ambivalência, a rugosidade e, acima de tudo, as crostas e pústulas dos valores que perseguimos e afirmamos. Sem que isso tudo implique que os abandonemos. E é essa (sua) adesão consciente à ambivalência que se chama coragem. E é isso que o cada vez mais ancião nos lega, em formato de partilha, constante, filme a filme.

Quem me dera poder bradar “Clint rules”. Mas cada vez mais me parece que não, que neste mundo facetado, tantos o tresvêem, impercebendo-o como o verdadeiro iconoclasta de XXI.

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Veio-me tudo isto agora à cabeça. Porque é o 4 de Julho. Mas também porque num tão recente ontem, em dia de grande festa, os meus mais que mais próximos se insurgiram com os meus ecos, coisas de mais de duas décadas a olhar os ademanes das gentes do meu país. Neo-colono!, culminaram-me, exasperando-me. Tanto que nem respondi com substância mas apenas com as invectivas merecidas. Dias agora regresso, assim, de longe. Apelando ao Clint, claro, o Eastwood, o tal tipo de direita, fundindo velhos postais que lhe dedicara. Mais albergando-me neste “White Hunter, Black Heart”.

O filme é uma eulogia de John Huston, a propósito do seu “Rainha Africana” (com o herói Bogart e a deusa Hepburn). Para além das peripécias da realização daquele filme em África, do retrato do idiossincrático realizador e sua relação com o mundo de Hollywood, centra-se na sua paixão pela caça: a personagem hustoniana quer matar um elefante “porque é um pecado” e ele o pode fazer, tem para isso poder, uma cena liminar, excelente. A remeter-nos para o mundo, para o além dos valores.

Mas há muito mais, numa sublime aparente contradição, o húmus do filme. O avatar de Huston é um democrata, antifascista (retratam-se os anos 1940s). Insulta uma colona inglesa anti-semita (a cena acima), provoca uma desigual luta com um colono racista inglês, por isso sendo espancado – nisso explicitando a semelhança das atitudes, as do racismo nazi e do racismo colono. É, como os meus tão mais queridos agora, um democrata, de “esquerda” (“liberal”, dir-se-ia nos tempos lá na América), certo que em tom blasé mas basto empenhado. Depois vai à caça, cria uma ligação com o seu guia. Que conduz, patrão paternalista, e por mero egoísmo descuidado, desinteresse desinteressado, à morte. É no fim do filme que Eastwood explicita o título, os tamboristas tamborilando “caçador branco, coração preto“. Apesar das boas causas, daquilo de “esquerda”, da atitude (e do álcool), da aparente generosidade e solidariedade, da composição de fraternidade, igualdade e (desejada) liberdade.

É talvez por isso que nunca Clint entra nas notas de rodapé dos “papers” sobre a “colonialidade” ou sobre o “colonialismo”. E por isso que a “esquerda” sempre tão solidária o diz de “direita”. E, também, por isso que um tipo que lhe vê os filmes tem qualquer coisa de … “colonial”. “Neo” ou outra coisa qualquer.

Mas ao negrume no coração, e à bruma nas mentes, é alhures que a encontro.

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