O racismo e o futebol

moutinho

Há demasiado futebol na sociedade portuguesa, na imprensa, nas conversas, nas mentes. É um placebo, a gente fala e escuta como se algo se passasse e esquece que, de facto, com o futebol “não passa nada”. É porreiro, eu gosto da “bola” e de sobre ela linguajar, mas nesta demasia estupidifica (ainda mais). Creio, nisto marxista radical, que este esbanjo futebolístico funciona como um “aparelho ideológico” tendente à alienação. E é eficaz. Consegue-a. A pantomina patrioteira em torno da selecção (nós todos em concurso a ver quem é mais emplastro, sonhando aparecer na tv nessas vestes histriónicas ) é apenas o cíclico cume da quotidiana estuporização clubística, tanta que se consegue transfigurar em algo como se “natural”, assim indiscutível. O patrioteirismo de sarjeta que isto traz passa incólume, por mais rasteiro ou ridículo que se apresente – alguém barafustou com um locutor da rtp a recitar, em espasmos de comoção, “Pátria” de Sophia Mello Breyner após um dos jogos da selecção? Claro que não, pareceria anti-patriótico, quem quer parecer isso, apartando-se deste banho de muco futeboleiro, ostracizando-se de um colectivo que se deixa acreditar, sob este êxtase induzido, que a pátria está em jogo no jogo da bola?

Nessa futebolização da vida mergulha-se na clubite (e, agora, na nacionalite), empobrece-se a reflexão (“nós” vs “outros”), embrutece-se o discurso (“NÓS” vs “outrinhos”), tritura-se a semântica (o malfadado “futebolês”). Repito-me, “placeba-se” o pensar. Tudo isto sem rebuço, basta ver à nossa volta quantos (alguns até com galões de formação intelectual e de exercício profissional) para quem a “identidade” clubística é realmente importante, como actuam ou reagem numa aparente “ética de convicção” (afinal uma pura tontice mas isso nem percebem) nas intermináveis discussões sobre o “ser” de cada um (as meras agremiações desportivas).

Tudo isto se alimenta das constantes patacoadas dos agentes do futebol: a imprensa (que usará este material como estrume para ir sobrevivendo mas que está também preenchida de tipos que estão impregnados desta visão-do-mundo), os franco-atiradores (muitos catapultando-se na política ou nos seus negócios) e os dirigentes da bola. É uma ladainha polifónica, encantatória mas nada encantadora. Disso exemplo-mor foi o “debate” Benfica-Sporting deste último ano, um pujante omnidisparate acicatado pelas vozes públicas e potenciado por nós-povo, um nojo supra-reaccionário. Um desses cânticos teve agora mais uma sequela: o “povo” sportinguista (e outros “povos”) viera beliscar o “povo” benfiquista, gritando-lhe que Renato Sanches era menos miúdo do que se dizia. Agora o Diário de Notícias publica, sem qualquer pudor, um documento provando  a idade do jogador.

A gente sabe que esta “boca” (desestabilizadora, afirmou-se) fundou-se na realidade de jogadores negros, oriundos da África sub-sahariana, surgirem com idades oficiais inferiores às reais, o que remete para as fragilidades administrativas dos seus estados de origem e, muito mais abrangente, para a realidade da pauperização dos subdesenvolvidos, tudo esquecido em nome do pontapé da bola e do triunfo “nosso”identitário. Até se sabe que Portugal foi campeão mundial em 1991 utilizando jogadores mais velhos, e não terá sido caso único intra-muros, quanto mais no estrangeiro, de onde volta e meia se noticiam casos semelhantes. Mas Renato nasceu em Portugal, pelo que a imputação da falsidade de idade (a “boca” desestabilizadora) advém apenas de ser ele negro.

Alguns a isto clamam “Racismo!”. E é aqui que discordo. Trata-se de uma mera generalização, avulsa, trazida para esta pacóvia confrontação clubística. Certo, é antipática, uma generalização assente na cor do jogador (aproveito para informar pessoas menos lidas que isso de “raça” não existe, é uma obtusa mania dos imbecis e uma mera ignorância dos ignorantes). A “boca” dos sportinguistas (e não só) é uma “boca” parva no seio de um discurso global parvo de básico, o do “futebolismo”. Mas se assenta nessa generalização não é racista. Não só porque não se aplica a William Carvalho, Carlos Mané ou outros jogadores negros do Sporting. Ou seja, não é racista pois não é nem quer ser excludente de um colectivo, é apenas chateante. E nem sequer apela a vitupérios ontológicos (“os negros têm idades falsas”) mas apenas a uma pragmática (“os jogadores negros têm muitas vezes idades falsas”).

Clamar “racismo” diante disto  é desadequado. Isto não é o racismo, é apenas uma utilitária generalização a la carte de alguns estereótipos.É apenas uma micro-generalização, um cutucar contextual, no seio de um discurso que tem muito de ritual e, acima de tudo, de oco. Resumi-lo a “racismo” é uma banalização do mal.

Clamar “racismo” diante disto transporta também a exigência implícita de nos expurgarmos de todos estereótipos. Mas, de facto, e ainda que não devamos deles ser prisioneiros, não podemos pensar sem generalizações e, mesmo, sem estereótipos. O que há a fazer é utilizá-los de modo consciente dos seus limites e da sua produtividade apenas contextual. E por isso há que acalmar esta vertigem de purga nocional. Por norma não são as generalizações grande arma de reflexão mas servem para a esta construirmos, e muitas vezes sem dolo. Explico-me:

No final do Portugal-Polónia surgiu o desempate por grandes penalidades. Ao ver Renato Sanches avançar para a marcação desesperei, “este vai falhar” não só porque o rapaz aparentava estar exausto, desaparecera em campo há já uma boa meia-hora. Mas, fundamentalmente, porque “é um miúdo, não vai aguentar a pressão“.  Como se sabe, marcou e bem. Este meu primado da maturidade, esta generalização da fragilidade emocional dos mais-novos, é um preconceito? Este estereótipo é eco da minha adesão à gerontocracia – esses modelos de poder que não estão confinados a reduzidas sociedades estudadas por exóticos antropólogos mas que vivem entre milhares de milhões de pessoas em sociedades de controlo das formas de casamento e herança e, mais nas nossas, nas formas corporativas de controlo sistémico do mercado de trabalho? Será?, terei que me penitenciar por essa generalização, desvalorizadora dos mais-novos, inseri-la nas cosmologias que tanto lhes prejudicam os direitos mundo afora? Terei que gritar “etarismo” ou qualquer coisa assim? Por pensar aquilo serei vítima de uma futura “guerra aos porcos”, já anunciada por Bioy Casares?

Mas antes disso (e pior ainda para os meus pecados?), antes do desempate por grandes penalidades com a Polónia, desesperei também porque percebi que, sob aquela tensão, o nosso pendor emocional, latino, nos prejudicaria diante da proverbial frieza, contenção racional eslava, ainda que esta versão menos apurada da antiga gelidez soviética, do consagrado calculismo teutónico, da imperial fleuma britânica, enfim da frieza racional nórdica. Qualquer acompanhante da bola reconhece esta realidade, constantemente repetida ao longo de décadas. Na prática tratam-se de versões euro-austrais do dito e, mais que tudo, da concepção de Senghor, quando o velho líder senegalês postulou que “a emoção é negra, a razão é helénica”. Estaria eu, tremendo diante da possibilidade do falhanço dos nossos jogadores, a afirmar uma hierarquia racial intra-europeia, a consagrar uma maior racionalidade aos do norte, a colocá-los mais na cultura, e a afirmar uma maior prisão à natureza, às meras emoções, aos nossos, a nós, apenas latinos? Serei eu, deste peculiar e até paradoxal modo, um racista? A afirmar-nos inferiores?

Ou será que estaria apenas a usar de modo passivo generalizações, sofríveis, sem dolo, que servem para pensar e agir num contexto de acção passiva, este o do adepto. Exactamente como o tonto que bota na mesa do café “o (vosso) preto não tem aquela idade” exactamente antes de tecer loas ao William (ou ao Varela ou ao Alain ou a outro qualquer). Isto não é racismo, é muito menos gravoso, se é que é gravoso.

O que é gravoso é a gente passar a vida, ou grande parte do dia-a-dia, neste registo de passividade intelectual, o de adepto. É este estado de boçalismo que nos conduz ao … racismo, e a outros do género. E é este estado, de emplastro, a que estamos a aderir. Dele adeptos, nele adeptos.

 

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