As condecorações e o elitismo reaccionário

condecorações

Várias e sonantes vitórias desportivas chamaram a atenção para as condecorações a atribuir. Leio muitos a resmungar com isso, até a debochar, e com o tipo de gente que é condecorada. A coisa é simples, elas servem para simbolizar o reconhecimento da sociedade , através do seu estado, do mérito dos seus cidadãos. E como tal são hierarquizadas – significando uma cadeia entre o excepcional e o ordinário -, e departamentalizadas – logo à partida entre civis e militares. A sua atribuição segue segundo critérios relativamente objectivos que, como é normal nas coisas dos homens, funcionam de modo algo subjectivo.

O menosprezo que tantos lhes dão assenta na visão de que elas são atribuídas em demasia e a “qualquer um”. Enraizada numa ideia, a de que o mérito entre os cidadãos é algo verdadeiramente excepcional. E que assim só deve ser reconhecido àqueles  que “da lei da morte se vão libertando”, obviamente os dos actos muito públicos (os militares, até por ritual corporativo; agora aos desportistas, que aos militares se substituíram na afirmação externa do país; e aos “notáveis”, gente de grande estatuto social).

Na prática este desprezo pela profusão das condecorações, esta ideia que estas devem ser escassas (bombardeada na imprensa, nas redes sociais e agora publicitada na presidência), como se que para as “salvaguardar”, é um impensamento, pois surgindo como se sua desvalorização é, acima de tudo, uma sacralização das ordens honoríficas. Mas mais do que tudo é um abjecto reaccionarismo, um elitismo, um fruto da podre ideia de que só aos “grandes” se deve conceder o reconhecimento público, um eco da velha sociedade de “ordens”. É aos seguidores dessa ideia que tanto irrita que a plebe, os desconhecidos do grande público, os ascendentes sociais (como agora os desportistas), o vulgar cidadão nada herói, receba o singelo reconhecimento (às vezes sorrido como “merdaille”) pela sua actividade em prol do todo, mesmo que através de um pequeno nicho.

É por isso que uma república, seja em crise seja em “velocidade de cruzeiro”, dá muitas medalhas, reconhece o diversificado mas imenso mérito circundante, inscrito na radical igualdade estatutária dos cidadãos. Depois, claro, há estes proto-fascistas, à esquerda e à direita, a acharem que só os “seus” “grandes” é que são “alguém”. Nenhum destes tem mérito. Nenhum destes merecerá alguma condecoração. Nem o nosso respeito.

 

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