O comendador (uma memória longa)

Ordem_do_Merito_-_Oficial[Anda tudo a protestar contra a atribuição de condecorações – até parece que há poucos assuntos no mundo sobre os quais escrever – e então boto eu a propósito da matéria.]

É uma história familiar, em que refiro a senhora minha mãe. Mas, felizmente, ela, que já  é nonagenária e continua a ler e a escrever, não cedeu a estas modismos bloguísticos (e fboquísticos), não a lerá aqui, e assim não se incomodará que eu a ecoe em público. Sempre a contei aos meus amigos (a parentela espiritual, claro), mas boto-a agora pois vem a propósito desta apatetada vaga anti-condecorações, acima de tudo denotativa de um pérfido elitismo anti-democratizador, e quanto precisa Portugal da democratização das gentes …

Em 1997 fui trabalhar para a embaixada portuguesa em Moçambique. Apenas dois meses depois o então presidente Jorge Sampaio visitou o país.  Foi uma tarefa extrema para quem lá trabalhava, e ainda mais para mim, ali assustado neófito. Pois as relações políticas eram então complexíssimas, algo que é sempre elidido pelo discurso cplpista (organização que começara então, o que só complicava as coisas)/lusófono. E porque as questões logísticas eram extraordinárias para as disponibilidades de então do país, 150 pessoas em comitiva, múltiplos programas e, ainda por cima, com deslocações a várias províncias. Aquela organização foi, para quem dela participou, um momento épico.

A visita não era apenas uma deriva protocolar, queria-se mesmo um momento de uma (re)constituição de relações políticas entre estados e sociedades. E foi um notório sucesso – que cada um poderá interpretar à sua maneira mas que não poderá negar. Um sucesso político. E um sucesso logístico [ainda hoje, duas décadas passadas, me alivio ao escrever isto, tamanha a angústia em que estava(mos)], pois nada faltou, nada falhou. Foi esse sucesso porque o Estado moçambicano muito fez por isso, em vontades e competências. Mas também porque o “pessoal de Belém” (onde pontificava o Fernando Marques da Costa, um tipo que eu conhecera vagamente no ISCTE, e que era de uma argúcia espantosa, um “antropólogo competente” elogiava-o eu, sendo que ele não é antropólogo) era muito capaz – não é um elogio vácuo, no ano seguinte houve a visita de Guterres, com 170 pessoas, e de uma ambição extrema, e deu para ver como o “pessoal de São Bento” era tão menos competente porque tão mais inculto.

Mas, e duas décadas depois posso-o escrever sem rodeios, aquilo também foi um sucesso porque “nós”, o pessoal da embaixada, nos estripámos para que tudo funcionasse – logística e, acima de tudo, politicamente. A casa era dirigida por um embaixador peculiar, Ruy Brito e Cunha, um Senhor da “velha guarda”, um homem de uma extraordinária intuição, genuinamente capaz de estabelecer relacionamentos positivos, um verdadeiro diplomata, encantatório pois encantador, e que era, ainda que aparentemente nonchalant, verdadeiramente incansável. E tinha uma “coluna central” constituída por gente “de lá”, veterana e avisada, que, subtilmente, não nos deixava entrar “mato dentro”, a Maria Elisa Ribeiro, a Vanda Calheiros, o meu (para sempre) camarada Manecas (Manuel Silva), entre outros. Para me tutorar haviam chamado o José Soares Martins, meu antecessor durante vinte anos, quarenta anos de Moçambique, e que me havia indicado para o lugar, um homem espantoso (“sô doutor, acha que está bem?”, “ó Zé Teixeira, faça como entende que está bem de certeza…”). E havia um pacote de jovens senhoras diplomatas, Fátima Gonzalez, Helena Paiva, Isabel Pedrosa, super-trabalhadoras – e que têm vindo a fazer carreiras de grande gabarito – que a tudo acorriam. A eminência parda era um homem discreto e profundo, António Almeida Lima, um dos maiores patriotas (eu sei, o termo está desvalorizado, mas é totalmente elogioso) que conheci na vida, um trabalhador imparável, um garante da república (ainda que o recorde monárquico, aparente contradição que tanto, mas tanto, o engrandecia). Perspicaz. E dono de uma qualidade rara: ouvia os outros.

(Bem, dito isto alguns perguntar-se-ão, “este tipo gosta dos diplomatas, daquela gente?”. Conheci alguns péssimos, reconheço em vários os tiques da arrogância sociológica pateta. E, sim, é uma corporação difícil. Mas conheci vários fantásticos. E o melhor homem que conheci foi um embaixador, António Valente, um “príncipe da república” como sempre gosto de o lembrar, e também sempre com comoção.Baixem a verrina quando deles falam, sff…)

Neste quadro aquela visita presidencial correu muito bem. Ao fim de uma semana a comitiva partiu e a gente ficou, esgotada e aliviada. Avisados que seríamos recompensados, tamanha a satisfação geral e, julgo, que também por obrigações do costume protocolar. Em linguagem de funcionalismo público isso significa um “louvor”, que é de alguma importância para quem pertence aos quadros e que é, enfim, uma marca para quem ali está de passagem. Poucos dias depois “Lisboa” avisou que, afinal, tanta tido sido a competência da organização que o reconhecimento havia sido aumentado, todos tínhamos sido condecorados. A mim, e julgo que a outros, competia receber a comenda da ordem de mérito (agora celebrizada através do golo do Eder).

Entretanto vim a Lisboa e regressei a Maputo. A 1 de Julho de 1997, nos meus 32 anos, ao fim do dia o embaixador Brito e Cunha mandou-me subir ao gabinete, “a despacho”. Quando entrei no seu gabinete telefonou ao António Almeida Lima para que ele também subisse. Depois, já com este presente, e tanto isso me engrandeceu o momento, entregou-me as insígnias que haviam chegado de Lisboa, e disse-me qualquer coisa como “ninguém as mereceu mais do que tu, jpt” [foi ele que inventou o “jpt”, com o qual vim a blogar anos depois], fórmula que sabíamos ex aequo entre todos nós daquela micro-epopeia.

No dia seguinte foi o meu aniversário. De  manhã, ao chegar ao gabinete, a minha secretária disse-me que a minha mãe já havia telefonado, madrugada ainda por aqui, pois “queria ser a primeira a dar-me os parabéns” (a Inês ainda estava em Portugal), coisa típica dos tempos em que ainda não havia telemóveis em Moçambique (havíamos trabalhado com Motorolas durante a visita presidencial, já agora …). Sentei-me e telefonei para casa, à minha mãe (nunca direi “a mãe” e menosprezo quem o diz).

Bom dia mãe“, “Bom dia, meu querido filho!“, “Parabéns mãe …!” – pois é claro que são as mães que estão de parabéns nos nossos aniversários, não nós próprios. “Parabéns meu querido filho! Que tenhas um bom dia …” e vários votos de felicidades se sucederam. Interrompi-a, conhecendo-a. Sabendo-a senhora algo ciosa de pergaminhos, até demais para esta família de republicanos radicais. Mas fundamentalmente neta e sobrinha-neta de militares (aquela “geração de centuriões” de África), filha e sobrinha de militares – o meu avô materno cadete do 28 de Maio, os irmãos e cunhados, todos seus mais-velhos, sobreviventes das campanhas da Flandres (“os jantares de família pareciam a Grécia” do regime dos coronéis, sorria o meu pai, diante daqueles irmãos e cunhados parados nos anos 50 e 60 no posto de coronel porque, convém recordar aos negacionistas, haviam sido, políticas algo à parte e méritos próprios também, “anglófilos” na II Guerra). E também irmã de militar, mãe de militar e tia de militar miliciano extremo-patriota, este na sua própria maneira de grande homem que é.

E por isso tudo, por a conhecer, a interrompi, capeando com algum sarcasmo, muito superficial, o orgulho que, ainda que algo envergonhadamente, ia sentindo. O orgulho do patriota, nunca nacionalista mas todo-patriota, de me terem reconhecido o esforço pelo meu país, que amo, tudo multiplicado, e tanto, por o ser em algo que eu cria (e queria) ser também em prol das relações com um outro país que pelo qual me apaixonara. E foi nesse sarcasmo leve, qual afinal “noblesse oblige”, que interrompi a mãe querida, ainda para mais sabendo-a assim, “Mãe, tenho boas notícias!“, “O que foi filho?“, “Mãe, ontem fui condecorado ….”.

Um breve silêncio … e “Ai, meu filho!, desculpa!, ai João! e eu que pensava que estava a falar com o Zé“.

E o que eu me vim a rir com a minha mana (ela sempre, ainda hoje, mana-mais-velha como se também minha mãe) com esta história. E com o meu mano mais-velho João (esse que seria o condecorável aos olhos da nossa mãe). E com o mano ainda-mais-velho Artur, enquanto ele ainda vivo. A sabermos o quão o aparente deslize maternal era a verdadeira avaliação, o dizer-me o quão “comendador” me era possível, de facto descabido.

Enfim, deixem-nos lá, aos que fazem o que podem e conseguem, ser reconhecidos pela república. Mesmo que, pela óbvia modéstia dos nossos préstimos, nem as nossas mães, aquelas que nos conhecem melhor, nos pensem dignos disso. Porque, de quando em vez, fazemos o nosso melhor. Pelo todo. Por todos. Assim, nessa pequenez, ainda eu nessa, sendo condecoráveis ou coisas similares. Vão lá criticar outros, os outros. E há-os, tantos. E daqueles até tão maus.

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