O império colonial e os da Câmara de Lisboa

Lisboa Olivais 30Jun2011 (44)

Um dos locais mais relevantes de Lisboa, com importância paisagística, cultural, simbólica, chama-se Praça do Império. Foi nela, no interior do Mosteiro dos Jerónimos ao qual ela foi aposta, que o Portugal democrático simbolizou o seu passo político mais importante, a assinatura do tratado de adesão à União Europeia (então Comissão Económica Europeia). Foi nela que o Portugal democrático estabeleceu a sua primeira grande “obra de regime”, a construção do, então tão polémico mas agora pacífico, Centro Cultural de Belém.

cimeira cplp

Depois foi nesta Praça do Império, nas instalações do recente Centro Cultural de Belém, que em 1996 decorreu a cimeira constitutiva da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa. Em nenhuma dessas ocasiões, estruturantes da concepção política e da perspectiva histórica dominantes na sociedade portuguesa, se levantaram questões sobre a adequação daquele simbólico na toponímia e na iconografia lisboeta. Nem sobre a pertinência de a associar a tão relevantes momentos da vida política de um país que se quer, e imagina, distante do passado de explorador colonial.  Nem nesses momentos extraordinários nem no nosso quotidiano de cidadãos, na forma como vivemos o país, os nossos marcos patrimoniais e como assim nos impregnamos, até inconscientemente, das construções mais ou menos oficiais da história nacional.

Há muito para fazer no ensino e na reflexão sobre a história portuguesa, na transmissão de uma consciência das dimensões brutalmente exploratórias da expansão e do posterior colonialismo – algo que deveria ter impedido a socialista/lusófona decisão de extinguir a iluminista Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses. Essas foram, ao contrário do que vigora no nosso senso comum, dimensões nada articuláveis com “os brandos costumes” “civilizatórios”. Há muito para saber e disseminar, como o carácter estruturante do tráfico escravista na industrialização e desenvolvimento da monarquia constitucional de XIX. Como o belicismo colonialista da I República, que nos arrastou para I Guerra Mundial (algo vilmente sufragado em recente discurso pelo nº 2 do estado, o presidente da assembleia da república, o socialista Ferro Rodrigues) e para as crises político-económicas que desembocaram na ditadura. Ou como a base colonialista da industrialização da metrópole no Estado Novo (e no imediato pós-25 de Abril), assente na exploração dos povos africanos através da corveia generalizada. Esta necessidade da consciência da história não precisa de ser auto-culpabilizadora. Precisa apenas de ser consciente, da história, das nossas constituintes estruturais, económicas e culturais, para melhor analisarmos o presente e projectarmos o futuro, tanto do país como de nós próprios, portugueses. Longe dos mitos da versão que o Estado Novo pós-II Guerra Mundial construiu do “lusotropicalismo” e que o republicanismo (renascido sob o nome de Partido Socialista) actualizou com o nome de “lusofonia”.

Diante disto, da necessidade de tomar consciência da história, muito para além do patrioteirismo ou de um pateta auto-revanchismo, podemos olhar as formulações do que consideramos património. O monumental e o intelectual. O património, as classificações dos monumentos, das configurações urbanas, a toponímia, a iconografia, nada disso é eterno ou sagrado, intocável. Pode ser mudado, claro. Mas não é apagando-o que se refaz a história ou se constrói uma visão do presente virada para o futuro. A história não se purifica, interpreta-se, compreende-se. E essa transformação do que se considera património tem que ser consciente, racionalmente sistémica, não por decisões avulsas de gente impreparada. E apenas eleita.

Na Praça do Império, uma das zonas “orgulháveis” da capital, foram estabelecidos arranjos florais em formas de “brasões” municipais das localidades das então “províncias ultramarinas”, uma acção integrante do esforço ideológico do Estado Novo tardio em promover a crença no carácter imorredoiro do império colonial, estando já em curso as guerras de independência e terminados os outros impérios coloniais europeus. Isto é significante, historicamente significante.

Agora o gosto estético dos vereadores socialistas da câmara municipal ofende-se com os tais brasões. E o frenesim demagógico da “obra feita” (olhe-se como está Lisboa …) reforça a necessidade de os arrasar definitivamente, arruinados por abandono que já estão, sob a ideologia da “intervenção”. Descobre-se que há um vice-presidente, um Duarte Cordeiro. Que nos diz que “os símbolos são datados e podem ser ofensivos“. Isto é significativo de uma monumental ignorância, rasteira. Como se houvesse património não datado. E como se um país que se simboliza e se comemora numa “Praça do Império” devesse arrancar umas flores em forma de símbolos municipais das antigas … possessões imperiais. Como se fossem esses, secundários ainda que significantes, símbolos que pudessem ofender. Este tipo de discursos é patético, e até desesperante se o percebermos como denotativo da incultura daqueles que são eleitos para administrar o nosso presente, gizar o nosso futuro.

E lendo este “vice”, que ecoa decerto o “presidente” (por ora em férias), percebemos o quão avulsas, ignaras, são estas medidas. Exactamente na mesma época da construção dos arranjos florais em causa, o Estado Novo construiu o lisboeta bairro dos Olivais, junto ao aeroporto, muito significante da visão urbanística e sociológica então ascendente no país. Hoje central na capital, entre o aeroporto, as Avenidas Novas (a concepção urbanística predominante no período anterior do Estado Novo), e a Expo-98 (a concepção urbanística glorificada no período democrático imediatamente posterior). Integra uma freguesia com 32 mil eleitores, muito maior do que imensas câmaras no país. É um bairro colonial. O mais pequeno Olivais-Norte teve a sua toponímia dedicada aos militares portugueses mortos na guerra colonial. O maior Olivais-Sul tem a sua toponímia dedicada ao império colonial, os seus arruamentos foram nomeados com localidades (cidades, vilas) do império africano e asiático, e com alguns lideres locais aliados dos portugueses.

Ao longo de décadas de autarquia socialista em Lisboa nenhum projecto surgiu sobre esta característica, nem mesmo se aludiu à hipótese de uma reforma toponómica nos Olivais-Sul. Apenas agora uma rasteira, ignorante, demagógica alusão à putativa ofensa que uns brasões em flores, lá na zona ribeirinha, poderiam causar alhures. O que também demonstra uma visão “turística” da cidade, um centramento do olhar no “centro  histórico”, ou seja, do que se considera “histórico” e do que se considera “centro”.

Deixem-se lá ficar os brasões municipais. E as avenidas Lourenço Marques, as ruas Vila Pery, João Belo, Vila Cabral, António Enes, Cidade de Salazar, etc, aqui nos Olivais. E explique-se, enquadre-se (até com informação actualizada, como juntando-lhes, mas sem os substituir, os novos nomes, mapas, histórias locais, etc) essas realidades. Saiba-se a história. Não apenas a gesta dos “egrégios avós”. Mas também a destas reformulações feitas pelos nossos “tios” embrenhados em manter algo que, de tão serôdio, não tinha já razão de ser. Saibamos como foi.

E para isso, se for possível, e tão necessário o é, mudemos esta gente aboletada no poder.

 

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