Regateio

Após o almoço vimos os dois, eu e o meu amigo, fumar à porta do restaurante, ali à Alameda, centro de Lisboa. Nenhum de nós tem lume, nem tampouco os empregados mais próximos, coisa do agora, que nos tempos dos criados de mesa todos eles tinham um isqueiro para alumiar os clientes. Avanço meia-dúzia de passos ao quiosque ali defronte, a perguntar se “vende fósforos?”. O vendedor , que aparenta ser do Bangladesh ou Paquistão ou uma qualquer vizinhança, Nepal talvez, enfim, um dos “galegos” de hoje-em-dia, não me percebe e eu repito, mais lento, “tem fósforos?”. Sorri e estende-me um pacote de lenços de papel. Então peço-lhe em inglês, compreende-me, aponta-me umas caixas de fósforos de cozinha, não as quero, gesticulo-lhe por “uma pequena”. Tem, e dá-ma, “um euro” diz. Rio-me, engulo o palavrão e troco-o por “nada”, não lhe pego na caixa. Riposta logo “cinquenta cêntimos”, e eu, espantado por assim ser neste agora, resmungo-lhe “é caro, não quero …” e apresto-me a partir, alguém me dará lume. E ele “Senhor, Senhor”, e eu “o quê?” e ele “Quanto paga?”. Mais do que tudo estou mesmo é espantado, mas quero fumar e digo-lhe “vinte cêntimos” e ele “é pouco, trinta”. E eu insisto, “vinte, só pago vinte”. Dou a pequena moeda e ele troca-a pela caixa de fósforos.

E lá fico eu, nós, a fumar(mos). Esta nunca me acontecera, regatear o preço de uma caixa de fósforos. E à frente do Café Império. Alguma coisa mudou no comércio de rua desta capital.

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