O Acordo Ortográfico (também) como denotativo

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Saco isto da página-FB Tradutores Contra o Acordo Ortográfico. Pois é um caso exemplar, denotativo do ambiente intelectual e ideológico que grassa no país. Uma deputada do Bloco de Esquerda, Sandra Cunha, invectiva de “velho e empoeirado reacionarismo” a fidelidade à anterior ortografia. Os autores da página, até cruéis, percorreram os textos da deputada e encontram-lhe evidentes erros, frutos da confusão entre as duas ortografias.

Isto é relevante por duas razões. A primeira é a ortográfica. Vários adversários do AO90 têm demonstrado a confusão – e mesmo erros ortográficos provenientes da imperfeita apreensão da nova grafia – que imensos documentos oficiais apresentam. Exactamente como os textos, privados, desta deputada. E também entre  muitos de nós, tanto os que aderiram ao AO90 como os que se recusam. Noto isso na minha escrita. Sempre fiz erros ortográficos, não muitos mas alguns. E eles têm vindo a aumentar. Pois mesmo sendo um “velho e empoeirado reaccionário”, adverso ao AO90, o convívio com as duas ortografias aumenta-me a confusão. Estou constantemente à procura da correcta hifenização pré-AO90, por exemplo. Certo, há regras e um tipo medianamente culto deve estar com elas familiarizado, mas o convívio empírico com a língua (leitura e escrita) confunde a sua prática e, tantas vezes, substitui-as. Ou seja, o que acontece com Sandra Cunha também me acontece – bastante menos pois ela, pelos vistos, é verdadeiramente descuidada na escrita -, tal como acontece com imensa gente. E, o que é grave, surge sistematicamente na documentação oficial, estatal e privada.

O segundo tipo de razões para atentar nisto é ideológico. É evidente que uma política, deputada ainda para mais, que escreve tão mal deveria ter mais cuidado em atacar politicamente alguém por razões … ortográficas. Mas a questão radica muito longe deste tipo de remoques. A deputada do Bloco de Esquerda é socióloga e professora universitária (fui ver). E entende que a concepção sobre a ortografia do português se divide em “reaccionário, velho e empoeirado” e, decerto, “progressista, novo e desempoeirado”. É socióloga e professora universitária, repito. E não tem o capital cultural – o que é dramático, e também denotativo do funcionalismo público no ensino – para reflectir sobre a questão, entender o quão reaccionário, velho e empoeirado colonialista foi e é o processo de harmonização ortográfica, esse sonho de construir uma área homográfica que alimentasse e ancorasse uma área política de interesses comuns e também (porque isso é referido sistematicamente na literatura ensaística daquela via) de sentimentos comuns. Em suma, o sonho-projecto de uma homografia que fosse húmus de uma lusofonia  política, substituta do velho império, seu aggiornamento. Como se tudo isto seja natural, evidente. Assim um dado político indiscutível e indiscutido.

O importante não é que Sandra Cunha escreva mal. O importante é que Sandra Cunha pensa mal. O relevante é como esta sua “boca” denota a superficialidade do seu pensamento “progressista”, “novo”, “desempoeirado”, tal como o da auto-denominada “esquerda” portuguesa. Uma superficialidade que ancora nas suas raízes intelectuais mais reaccionárias, na irreflexão sobre os mitos, alguns dos “velhos” e “empoeirados” revolucionarismos, alguns outros, como neste caso, que são os nacionalistas (e agora radicalmente soberanistas) apesar dos embrulhos. E do seu apego aos cabeçalhos, a este tipo  de “bocas”, uma necessidade que advém, sempre, da efectiva superficialidade, do vácuo intelectual, da aceitação dos aparentes óbvios. E, também, de modo ainda mais profundo, à ligação aos edifícios ideológicos assentes na intolerância, adeptos dos totalitarismos ditatoriais. É muito fácil ser superficial, reaccionário, quando todos os outros que de nós discordam são reaccionários (ou “reacionários”). Sandra Cunha, com os seus disparates ortográficos e a sua arrogância irreflectida, anti-política e anti-académica, é o Bloco de Esquerda. E o circundante.

E o resto do mundo pouco importa, pois o importante são as aparências, as boas causas e a retórica com que se apresentam (mesmo que sob muito má ortografia).

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