Os véus e a fronteira

sef

Lá para os princípios da década passada, a alvorada do XXI, em Maputo foi-se disseminando o véu islâmico e, ainda  que em menor grau, o uso das burkas. Também a norte isso se ia vendo, em particular vi-o em Lichinga entre algumas falantes de ajaua e, diziam-me, no litoral do Cabo Delgado, entre falantes de kimwani e macua. Mas lá na “Nação”, na capital, o encobrir facial das mulheres encontrava-se entre asiáticas ou asio-descendentes. E isso explicar-se-ia pelo surto imigratório, a crescente população este-índica no país.

Um dia, há cerca de uma década, voei de lá para Lisboa. No avião vinham algumas mulheres de véus extensos, sob eles esconsas. Aterrámos, avançámos para as filas de fronteira. Rápida, particularmente vazia naquele dia, a dedicada aos nacionais (e cidadãos UE). De tal modo que quando mostrei o passaporte não tinha fila atrás. Por isso perguntei ao funcionário do SEF ali de turno, um tipo simpático, “já agora, por minha curiosidade, no avião vêm umas senhoras com véu, e cada vez há mais em Maputo. Como é que vocês fazem para controlar a identidade?”.

O homem sorriu-me, coisa não só de afabilidade mas, presumi, também porque a maioria das conversas com os passantes devem ter outro tipo de teor, protestos ou inquirições. “Não costuma haver problemas. Sabe?, a maioria delas viaja acompanhada dos maridos ou de algum familiar. Nós pedimos para se destaparem, para ver se coincide com a fotografia, e eles nunca põem problemas, compreendem, e estão ali …“. Sim, ok, é lógico, terei respondido, já num obrigado, pronto para ir levantar a mala e seguir para a família. Mas ele complementou: “Também há casos em que vêm sozinhas ou só com outras mulheres. Então também não há problemas, nós chamamos uma colega e elas destapam-se diante da nossa colega. Só quando não temos nenhuma de serviço é que têm de se desvendar diante de nós, mas também aceitam.” E agradeci, sorrisos, ele botou-me umas “boas férias” e lá fui.

Fui, claro, pronto para resmungar, blogar irado, escrever ao ministério da tutela a protestar, escrever aos jornais (foi há tanto tempo que isso ainda vinha à cabeça). Depois foram as férias, depois foi o voltar ao quotidiano, deixei cair o assunto.

Mas lembro-me disso, amiúde, agora também, daquilo de em tempos tão recentes (e ainda?) os funcionários públicos portugueses da fronteira, e assim o estado português, aceitarem que uma mulher só destapa a cara diante de outra mulher ou, para o fazer diante de um homem, se acompanhada por um familiar em tutela (excepto se em caso de força maior). É simpático. É multicultural. E é deitar fora os nossos valores, esses que com todos os seus defeitos e ilusões foram construídos ao longo dos conflitos tendencialmente libertadores. É, acima de tudo, inconsciente. E, em última análise, é suicidário. Antipático por isso.

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