Os falhanços nas Olimpíadas

pinto-da-costa_PuroVeneno

Não há uma forma oficial de classificar países nas olimpíadas. A usual é por número de medalhas, há também o costume dos pontos por classificações finais dos atletas (em particular os classificados até aos 8º lugares) e há até a mais interessante de todas, cruzar os resultados com população e índices de desenvolvimento de cada país (neste caso a Jamaica em 1º lugar em 2012). Seja qual for a forma oficiosa (indicativa) escolhida Portugal nunca fica (nem ficará agora) muito bem na análise, mostrando um fraco grau de desenvolvimento desportivo. Por exemplo, 43º país no Índice de Desenvolvimento Humano em 2015 (não vamos assim tão bem, e declinando nos últimos anos) e ontem 78º no número de medalhas e decerto que coisa similar se por pontos na Rio2016. Alguns resultados muito meritórios não escondem a incapacidade de fazer crescer as representações olímpicas, a fragilidade dos desportos colectivos, a reduzida diversificação das modalidades, e particularmente se comparados com países com dimensões económicas e demográficas algo similares. E explicitam que o esforço de desenvolvimento desportivo, sob o paradigma “Moniz Pereira”, após meados de 1970s e 1980s não continuou em crescendo.

Há quem proteste, que não se pode dizer isto porque é apoucar o esforço e dedicação dos atletas. Erro, dizer isto é valorizar os que ainda assim se vão destacando. Alguns, idealistas, remetem esta óbvia constatação para causas morais, a falta de uma “paixão” desportiva na comunidade nacional. Outros, economicistas (e estatistas), remetem as causas para os reduzidos fundos estatais dedicados à preparação de alta competição. Outros ainda, mais sociológicos, remetem as causas para a falta de uma política educativa pública de fomento desportivo (mas sem se atreverem a questionar o monstruoso Ministério da Educação por essa sua abstenção). Ninguém estará mal nessas considerações mas eu lembro-me de outra coisa, talvez mais política.

Contrariamente ao resto do panorama o futebol (o de 11 masculino e as suas sequelas, de praia e de salão) tem tido um enorme sucesso nas últimas décadas. No topo em termos de clubes, e com regulares vitórias importantíssimas, no topo em termos de selecções de vários escalões, com grandes vitórias também. No topo em termos de jogadores, de treinadores. E até de árbitros e agentes promotores (Proença, Jorge Mendes, por exemplo). Tudo isso de uma forma consistente, desde há cerca de 30 anos.

Ou seja, a modalidade futebol, que é a mais procurada e importante no mundo, tem neste país médio e de economia pequena, um enorme sucesso internacional e extraordinárias classificações. Tudo ao contrário das restantes modalidades. Julgo que essa diferença tem que se relacionar com a excepcional capacidade dos seus dirigentes, os federativos e, fundamentalmente, os clubísticos. Que têm apoios, às vezes directos mas mais indirectos, do estado mas que acima de tudo perseguem os seus objectivos e das suas instituições de uma forma arreigadamente autónoma desse mesmo estado, usando-o mas dele libertando-se o máximo que podem.

A gente pode não gostar das suas figuras, dos seus perfis e dizeres, desde o decano e mais bem sucedido de sempre Pinto da Costa, de Vieira, de Carlos Pereira, de Júlio Mendes e Pimenta Machado, da família Loureiro, de Salvador, de Fernando Oliveira, de tantos outros e até do meu Carvalho. Mas são eles, no topo de clubes mais ou menos ecléticos mas centrados no futebol, que vêm mostrando o caminho de como se leva uma modalidade desportiva aos píncaros. E se calhar é isso que (também) falta às outras modalidades. Fundos públicos, paixão popular, infraestruturas, lei de bases desportivas, professores de educação física, treinadores, etc.. Ok. Mas, acima de tudo, grandes dirigentes desportivos. Autónomos.

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