Milosevic

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Em 1995 trabalhei na Bósnia-Herzegovina. Pertencia a uma missão eleitoral portuguesa integrada na OSCE, tive a sorte de não ser, como a maioria do grupo patrício o foi, acantonado junto à tropa portuguesa, colocada a sul do país, e essa relativa solidão deu-me outro mergulho ali. Um ali que foi duro, bastante: a guerra acabara há muito pouco, no dia em que cheguei morreu um colega espanhol pois o seu carro pisou uma mina anti-tanque, depois andei também a conduzir perdido em estradas minadas, atrapalhados no mapear o rumo pelo sol (digam-me cagão, mas são estas coisas vividas que me insurgem com estes bairroaltistas esquerdalhos de pacotilha), em terras batidas europeias entre-courelas que não pensava fossem motivo de guerras naquilo que julgava “Europa”. Eu vinha da África do Sul, da eleição de Mandela, do Transkei do resiliente Holomisa e do Ciskei de Gkozo, e do golpe que a este abateu, dos comícios rurais do PAC (esses históricos radicais racistas que continuavam a entoar o “one settler one bullet”, os únicos que defendiam uma nova Azânia – e tanto me lembro disso do regressar a Lisboa e ir ao ISCTE e encontrar o então o ícone intelectual dos homossexuais portugueses e ele a dizer-me em meneios ideológicos “estiveste na Azânia?”, sempre com a causa que julga correcta, e eu em desprezo imenso, ainda que antes do BE que dele foi, a pensar “branco maricas eras logo morto por aqueles filhos da puta”, e a responder-lhe, senhor, “estive na África do Sul”, mas ele a nem notar a imensa diferença na resposta entre um homem e um todo-merda que ali ele era, todo-BE avant la lettre, a pretensa causa justa, mas já pronto ao socratismo no qual veio a morrer) e era ali em Tesanj o único dos quase-20 do grupo com experiência das então iniciais “missões eleitorais” que depois grassaram: fui eu, um puto de cabelo preto, a vetar as excursões às valas comuns que se descobriam na nossa zona (pois isso não integrava os nossos “termos de referência” de supervisão eleitoral) que aquela rapaziada nórdica (suíços, dinamarqueses, canadianos, holandeses) achavam “apetecíveis”. As histórias daquela muito curta missão (cerca de um mês) foram imensas, eu ali ombreando com um patrício fantástico, um oficial da PSP “cool” como pouca gente será, um tipo que nunca mais vi ou contactei, Wringler (descendente de alemão caçador na Zambézia nos inícios de XX, um acaso espantoso), um homem (a) sério. Foi um período que me marcou para sempre, espantoso, aquilo do abissal – mesmo que vindo de 3 esplenderosos meses na África do Sul e, sei lá como defini-los, seis do mato nortenho moçambicano, um Cabo Delgado onde deixara 28 quilos, uma coisa época inenarrável. E também porque depois cheguei à Portela (com o Martim e o Martim) para descobrir que estava separado, solteiro mesmo, a maior porrada que levei na vida, também pelo estado moral em que chegava …

Longo preâmbulo para lembrar aquilo de ter estado numa área da “entidade bósnia” (bosniac) da Bósnia-Herzogovina, e sempre entrar, todos os dias, na “entidade croata” ou, de quando em vez, na “entidade sérvia”, essas que vieram a constituir a Bósnia-Herzegovina num após de um massacre generalizado. Escrevi as minhas memórias disso (http://ma-schamba.blogs.sapo.pt/tag…), muito sobre aquilo de me lembrar de estar num sítio de mulheres lindíssimas e disponíveis, ainda que não tivéssemos língua comum, pois os homens haviam sido arrasados na desesperante guerra tão recente. E, sem então o ter escrito, das imensas bebedeiras, das ofertas matinais às aquisições noctívagas, que isso me causou, naquele país de gente quente como nunca vi, de hospitalidade como nunca vi , gente de montanhas (“vocês estão aqui a arriscar a vida por nós”, diziam, e toca de beber, comer e fumar o que nos ofereciam, e não havia como dizer um singelo “não”).

Tudo isto me vem a propósito, irrompe, porque ontem vi num mural que sempre respeitei que Milosevic, o antigo líder sérvio, foi inocentado dos crimes de guerra. Fiquei estupefacto com a notícia, incrédulo, veio-me tudo à memória, as histórias ouvidas naquele balkanian broken english que nos era quotidiano entre a slivovitsa e todo o outro álcool que encontrávamos, até à inconsciência do leito. Googlei e não encontrei provas disso. Hoje voltei a googlar e nada me surge. Julgo que as pessoas nem viram nem se lembram do que foram as guerras na “former yugoslavia”. A malvadez sérvia. E também a malvadez croata. E, dou de barato, a malvadez bósnia. E, estou certo, o artificialismo destas identidades –  dizia-me a miúda intérprete, 18 anos, “na minha turma [do liceu, foda-se] éramos 33 e 30 éramos filhos de casais mistos e não o sabíamos”, e eu assim a querer beijá-la naquela ponte de Tesanj, tanto por ela, aqueles seus lábios, como por tudo aquilo que me contava e, deixemo-nos de merdas, também ela o tanto queria …

Santiago Macias, arqueólogo prestigiado, um tipo que eu vagamente conheci em Maputo quando lá foi apresentar uma bela exposição sobre a qual tinha responsabilidades executivas, um gajo porreiro pareceu-me, ainda para mais então, naqueles finais de XX, anunciado que me fora como amigo de amigos, surge agora a limpar, sem rede, a figura de Milosevic. É ele um gajo PC, tudo bem, sou filho de pai PCP, que o foi até à morte – e por isso, pelo amor ao meu pai, se disparo sem ver diante da escória BE e dos alcaponistas PS, sempre pergunto ao comunista ao que vem, e tenho abrigo, fio de azeite, côdea de pão e colchão de palha para ele usufruir. Mas ao ver um tipo, presidente de câmara do meu país como Macias o é, (re)entrar na reescrita da história, encontrá-lo em 2016 a apregoar, vindo de onde?, com que crivo?, sem documentação que o confirme, a limpeza da imagem de um homem como Milosevic foi, a remeter aquilo para o limbo da história, lembro-me do revisionismo que quer esquecer o nazismo, o horror. E sei, com maiúscula, que gente assim não pode ter papel no estado, nem mesmo que eleito. Um gajo, nesta degenerescência patética do movimento comunista, que afixa solidariedades geográficas – a associação ao sérvio, ao russo – em troca das velhas associações ideológicas, que vem defender os inenarráveis ditadores não pode ser autoridade, municipal que seja, eleito que tenha sido, no nosso país. Isto é horroroso. E eu não tenho teclas nem talento teclista para o afirmar. Só para gritar, em desespero: em 2016 um português apoiante de Milosevic não merece nada. Nada mesmo. Apenas o nosso visceral desprezo. O nosso desesperado desprezo, pois, afinal, eles mandam no nosso país.
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Um pensamento sobre “Milosevic

  1. Conheço o Santiago Macias nos tempos da Faculdade. E, estando eu de saída do Partido Comunista, por razões várias, umas boémias, outras vagamente (des)ideológicas, nunca deixei de lhe reconhecer uma verticalidade misturada com uma bonomia bem informada e ponderada que me levam a ficar aterrado com o que escreves. Esse não é, certamente, o Santiago Macias que conheci. Mas as pessoas mudam. E esse é o desgosto. Ou o equívoco da vida toda. Abraço.

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