Sobre o racismo no metropolitano

Metro1

Há muitos anos, décadas, talvez ainda nos 70s, porventura no início dos 1980s, li uma frase, não recordo nem autora nem local nem tampouco a sua forma exacta, que se tornou a base do meu feminismo: “a igualdade de género é o direito das mulheres à incompetência”, assim mesmo, iguaizinhas a nós-homens, tão e tantos incompetentes, sem nada mais terem a provar do que o que nós temos. Muito me lembrei disso há bem pouco, e sem nada ter a ver com os direitos das mulheres.

Tudo começou na véspera. Uma conhecida recente, rapariga da minha idade, amiga de amigo, consóror bloguista, até em tempos participáramos ambos num grão-blog, desafiara-me para “ir beber uma ginginha”. Isto é um convite que um tipo da minha idade não pode recusar, que o futuro da garrafita de oxigénio não tardará, a impedir este e outros convívios, e como tal lá fui ao Rossio a meio da tarde, a aproveitar este enquanto-posso. Avançámos para a agora zona multicultural, aquilo do Martim Moniz e por ali acima. No caminho parámos na taberna das ginginhas, provámos, enrolámos um cigarrito na soleira. Reparei que ela conhecia o taberneiro ou que assim parecia. Seguimos, até ali à zona da “Severa”, mais uma ou outra taberna, e de novo a senhora lá falava com os taberneiros como se amigos de longa data, e eu a pensar cá para comigo um rockeiro “that´s my man!”. Andámos mais, iríamos subir as vielas até perto da Graça, ela pedindo informações na rua, com todos falando, num faz-conversa, alegre, simpática. Digo-lhe, surpreendido, que ela se porta aqui em casa, na sua terra, como eu o faço quando bem longe. Pois se aqui vou sempre macambúzio, verdadeiro agreste lisboeta, ela está ali entre Martim Moniz e Mouraria como vou eu em Mutarara ou Balama ou coisa parecida, aí sim enérgico, curioso das pessoas. Gosto disso, tanto que me senta ela numa esplanada – onde também conhece a dona (vir-me-á a dizer que é a segunda vez que lá vai, mas parece que é cliente desde sempre …) – e manda vir caracóis. E eu como-os, como ali por causa daquele seu jeito mais caracóis do que nos meus 52 anos anteriores. Pois ela tem razão, é assim que temos que seguir.

No dia seguinte apanho o metro. Avisado que há “perturbações” na linha, coisa agora frequente. O comboio chega, apinhado. Vem do aeroporto, imensos turistas: chineses, muitos, espanholas, também. Demora a arrancar. E lá parte, para parar entre estações. Roufenha, a instalação sonora avisa que as luzes irão ser desligadas. Depois avança mais um pouco. Perto da porta um passageiro, um quarentão alto, alourado, com ar meio esgroviado, protesta em inglês, aquelas palavras de quatro letras. Todos nós, espalmados, vamos calados, entreolhando-nos, menos pelas avarias do que por causa do alarido daquele. O homem desloca-se, afastando pessoas, até à porta da carruagem. O metro torna a partir, para logo parar outra vez entre estações, de novo apagar e acender as luzes. Um calor do caraças lá dentro. O exaltado grita, em inglês de bom sotaque e também em rouco português, imprecações peludas e começa a esmurrar a porta. Os chineses à minha volta, uma família turista acho, estão atónitos e pálidos. As espanholas tremem. Um mais-velho, ainda por cima encostado àquela  porta, erra e diz-lhe que vai chamar a polícia. O tipo irrita-se ainda mais, grita imenso, “que chame ele a polícia … etc e tal” e mais bate na porta e tenta partir o vidro (plástico) da emergência. A passageira quase esmagada diante dele protesta, todos nós outros calados, e ele avança para ela, se é que avançar é o termo tão congregados vamos, ainda mais gritando, as miúdas que  ali vão perto encolhem-se, com medo. “Estamos tramados com o junkie”, penso, e lembro-me da minha amiga, exijo-me sair da minha concha. Macambúzia, já o disse acima.

Tiro os óculos, meto-os no bolso, não vá isto dar para o torto, e avanço para a porta, “está mal disposto?” pergunta-me, caridosa, uma das jovens vendo o movimento deste geronte. Não me derruba com isso, a pia, e nego-lho, troco com ela e amigas e ombreio com o gajo. Peço-lhe, em baixa voz e educado que tenha calma. “Porquê? vais-me bater?“. Que é isso, pá, nem pensar nisso, é só que as miúdas estão a ficar assustadas … “Assustado estou eu …” grita-me, “sou esquizofrénico“, berra ainda mais sonoro e repete-o, e acelera as batidas na porta. “Bolas” penso, qu’isto assim ficou mais complicado, e digo-lhe o que me vem à cabeça, de rajada, “eu também estou nervoso, companheiro, sou claustrofóbico“, e que preciso de ajuda ali, e que me ajude ele que também vice-versa. O gajo acalma-se, embrenha-se na reflexão sobre esta mútua ajuda que lhe estou a propor. Dez segundos depois volta ao mesmo, a passageira antes irada já trocou comigo, escapulindo-se o que pode, que também foi para isso que me cheguei à frente, o mais-velho nem diz nada, arrependido decerto de ter alvitrado o “ó da guarda!”, tal como todos os outros, que vai tudo em silêncio. Eu insisto, e peço-lhe mais ajuda, aquilo oscila, ou seja oscila ele entre o berrar e o matutar, mas vai repetindo “sou esquizofrénico“, mas isso é bom, é forma de anunciar, de se balizar. Nisto o motorista consegue chegar às Olaias, o gajo já partiu o vidro (plástico) da manivela da emergência, e balda-se no primeiro soluço do metropolitano. Alívio geral. Mais demoras e lá seguimos, o comboio trôpego em delongas. Regresso ao meu sítio. Os chineses acenam-me, em suaves sorrisos, uma das pitas espanholas também. Um puto mulato fita-me com ar pouco amigo, a pensar que tipo de gajo será este velho, quatro trolhas olham-me com ar de quem eu não sou nada de confiança: somos todos lisboetas, não há dúvida, entredesconfiamo-nos, eu é que me esqueci disso durante cinco minutos.

Chegamos ao entroncamento Alameda, já em horário atrasadíssimo. Sai imensa gente mas a plataforma está apinhada e as carruagens logo ficam ainda mais cheias. O comboio não arranca. Passado um bocado o maquinista anuncia qualquer coisa que ninguém ouve. Mas torna-se óbvio que temos de sair, abandonar a nave, que aquilo avariou. Não há mais informações. Percebe-se, ele vai avançar vazio e virá outro comboio, anunciado para dez minutos depois. Mas tudo continua imóvel. Saio e percorro a plataforma, esgueiro-me lá para trás pois nestas coisas é óbvio que as carruagens traseiras enchem  menos. A meio do caminho percebo a razão daquela demora. Quatro passageiros recusam-se a sair do comboio avariado, três mulheres e um homem. Uma delas, uma “popular” como se anuncia na tv, grita desaustinada, histérica, repete-se, brame que não sai dali, que não tem férias, que quer férias, que não tem férias, que tem a família em casa à espera, que esteve a trabalhar, que está cansada (mas não parece, tamanha o chavascal que produz), que eles não querem trabalhar (os tipos do metro), que querem fazer greve, e que ela não tem férias, e sobre este último item muito insiste, nota-se que lhe é questão premente. Os quatro renitentes albergam-se na carruagem, entrincheirados na defesa do que julgam serem os seus direitos de utente, uma das mulheres calada, os outros dois, um casal mulato, resmungando que não arredam dali. O condutor, desamparado, sem qualquer colega por perto, está ali à porta e fala com o seu intercomunicador (walkie-talkie, dizia-se no XX), recebe instruções para os tirar dali e recusa-se pois “já quase fui agredido e não estou para isso...”. A quarentona continua aos gritos, gesticulando esganiçada, entre as centenas de passageiros ninguém diz nada, alguns homens cruzam-me o olhar partilhando este espanto feito de vergonha pelo alheio, disfarçando-a com a aparência do sarcasmo, alguns turistas nórdicos e gringos, poucos estes, olham como se antevissem uma cena de antropofagia exótica. Os minutos passam, a mulher continua a gritar que não tem férias e que os tipos do metro querem fazer greve, ali quase-ombreada pelo casal. Passa-me pela cabeça o quão execráveis são aqueles quatro cidadãos, hesito entre propalar a necessária bala na nuca ou o punitivo amarrá-los aos carris do metro.

Mas o meu problema é que meti a aplicação “cidadania”, e esta é bem nova, “gadget” mesmo, estou a estreá-la, e, tão farto daquilo, avanço para a mulher mulata, que ainda assim me parece a mais calma daquela pequena tropa, e após um até gentil “boa tarde” rogo-lhe se podem sair, se ela e o marido nos quererão fazer esse favor, que é para aquilo poder avançar, o outro comboio chegar, e todos nós irmos à nossa vida. Ela diz que não, que o motorista falou mal com eles, “porque nós somos negros“, e que “é racismo …”. Que não terá sido isso, que o homem está nervoso, adianto-me eu (que tenho muito pouca paciência para a conversa da raça – e aqueles filhos da mãe ali a trancarem o trânsito e a queixaram-se, raios os partam). Ela enfrenta-me, até alçando o peitoral, rosnando guturais onomatopeias, como se a sublinhar as suas razões, mas ainda assim não recuo, torno, gentil e humilde, a pedir-lhe para sair. Entretanto o marido, talvez já constrangido, e assim mo parece, deixa a carruagem, ainda que ela continue a dizer que foram mal-falados por causa da cor, o raio da outra continua a gritar a sua aversão ao sindicalismo e o seu anseio de férias, estridente como uma louca mas já na plataforma, e o maquinista aproveita, voa para o seu lugar e arranca aos solavancos, ou assim parece. Baldo-me lá para  fundo da estação e apanharei, dez minutos depois, uma carruagem semi-vazia, contrastando com a mole compacta lá da frente.

Sigo para o Saldanha para encontrar a minha filha, vamos ver o “Amanhã”. E ainda no metro lembro-me da velha frase, aquilo do direito à incompetência como sinal de igualdade. E é exactamente isso: um casal de imbecis. Negros (de facto, para o racialismo português são mulatos), porventura imigrantes, ou talvez segunda geração aqui, pois trintões, e se assim já patrícios. A exercerem a sua imbecilidade, radical. Estou certo que há algumas décadas um outro casal daqueles evitaria fazer-se-ia sobressair num contexto público semelhante, recearia ser apontado, até represálias, achincalhamentos, a própria polícia. Agora, ali, e por mais “race card” que invoquem, estão à vontade para imbecilizarem. É uma evolução. Bonita de ver. A sinalizar o bom caminho, o da equidade: a comunhão do direito a ser imbecil. Independentemente da “raça” (esse mito), da cor da pele.

No dia seguinte deli (“deletei”) a aplicação “cidadania”. Chegou-me. Chega.

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