Romanos

spartacus

Revejo agora, tantas décadas depois, este Spartacus de Kubrick. Baseado no livro de Howard Fast, um daqueles banidos (e até presos) no tardio proto-fascismo de McCarthy. Tal como o autor do argumento adaptado, Dalton Trambo, um dos 10 de Hollywood, também banido naquela histeria anti-comunista. Fast, por mais ícone da esquerda que tenha sido não foi nenhum Fitzgerald ou Hemingway e muito menos Faulkner, seus contemporâneos, mas Kubrick foi-o, ou até mais (ok, talvez não mais do que Faulkner, talvez com ele ombreando).

Kubrick tinha 32 (!, trintaedois!!) anos quando lhe passaram a direcção desta super-produção, um épico dos velhos tempos de Hollywood (o realizador era Anthony Mann e o produtor era a estrela e protagonista Kirk Douglas, desentendimentos entre ambos provocaram a ascensão do jovem). O filme é de 1960. Ou seja, é de recuperação daqueles vultos vilipendiados na década precedente, sob o patrocínio da então mega-estrela que era o mais velho dos Douglas. E é incrível, enorme, o que ali se passa. 3 horas e tal de partilha – e só penso na minha filha, que diz velhos (ou seja, estranhos) os filmes de antes de 1980 “por causa da cor e da representação“. Quais dos de hoje que conseguirão ver um filme de 3 horas e tal, treinados na atenção flash das redes sociais?

Mais do que tudo vale pelas cenas: Kirk Douglas, o Espartacus recém-livre diz à ali absolutamente maravilhosa Jean Simmons, a sua amada Varínia, também ela escrava fugitiva, “quero conhecer todas as linhas do teu corpo“, um momento cinéfilo que é manifesto da liberdade conjugal, à qual os escravos estavam proibidos, diálogo que já não afrontava a censura de Hollywodd de então mas que deveria envergonhar os miseráveis, execráveis (e puníveis) relativistas islamizadores de hoje (56 anos depois do filme!). Fabulosa, icónica, é a cena entre Lawrence Olivier, comedor de ostras mas também de caracóis, e o seu recém-adquirido (como “body servant”, coisa que a envergonhada tradução esconde) Tony Curtis, que fugirá (porque não gosta de caracóis) para vir a ser adido cultural de Spartacus, um grande momento sobre a homossexualidade no cinema. E a extraordinária conversa entre o divino Laughton e o herói (ou seja, semi-divino) Ustinov em que falam sobre mulheres, e o deles (nosso e, deixemo-nos de coisas, delas) prazer com elas.

Mais do que tudo?, Kirk Douglas, então estrela máxima na via láctea hollywoodesca, aqui protagonista e produtor-incentivador, revolta de escravos iniciada, afronta os seus congéneres, ali entretidos a fazer dois velhos nobres romanos combaterem quais gladiadores. “Em que é que nos tornámos?”, pergunta, “o que é que queremos ser?”, repete, “romanos?”. E liberta os prisioneiros, assim libertando os seus companheiros da pura revanche. Só nisso passando da jacquerie a muito mais …

E lembrando, anunciando o hoje, isto de aqueles da berraria sobre os “direitos adquiridos” ao “window shopping” que é apenas isso que são,  não passam disso, do “romanos”. Os dos que o ambicionaram e ambicionam ser, a nada mais, apenas isso, “romanos”.

O filme fica aqui, para os “romanos” mais envergonhados que se queiram rever:

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