Táxi

taxi

De repente o tempo passou. Sem perceber como fiquei cinquentão. A minha mana, sempre um miúda e com o olhar disso, está sexagenária. Tal como o mano-velho, claro, este quase nos setenta. Aos quais chegou, agora, o meu cunhado, que é mano também e não só por em breve cumprirmos as nossas bodas d’ouro, e onde estaria a aportar o nosso mais-velho se não tivesse morrido com a idade com que eu vou agora. Nisso a nossa mãe [eu insisto, quando me ouvirem dizer, arrastando, “a mãe” interditem-me e internem-me] está nonagenária. Quando aqueles que a conhecem me perguntam como está ela digo sempre, sabedor do que as pessoas esperam dos resultados da idade, “de cabeça está melhor do que eu”, o que de per si não será grande coisa, eu sei, mas que serve para assinalar que não perdeu as faculdades intelectuais, como a tantos acontece. Mas perdeu alguma mobilidade. Por isso quando sai de casa usa uma cadeira de rodas, caminhando depois as distâncias mais curtas.

Para seu conforto, e também nosso, nessas saídas usa um táxi, destes preparados para as cadeiras. De há anos a esta parte o taxista é quase sempre o mesmo. Competentíssimo, pontualíssimo, atenciosíssimo. Simpaticíssimo. Sem ponta de servilismo. O Paulo L. – a quem eu trato pelo primeiro nome e apelido, como os homens se tratam (algo que os juízes portugueses passaram a desconhecer) mas aqui não lhe desvendo a identidade – transporta a minha mãe quando ela sai para convívio familiar ou outro, para um museu ou concerto, para o médico, etc.

Para reservar o serviço telefona-se-lhe, sem ser preciso qualquer aplicação específica para o assunto. Quando está ocupado reenvia a marcação para um colega, que trabalhe na mesma linha, no mesmo nicho de mercado, clientes de cadeiras de roda, normalmente anciãos (agora diz-se seniores).  Paga-se-lhe por transferência bancária, se essa for a opção do cliente. É o dono do carro, algo a que chegou por reconversão profissional há coisa de uma década. Tal como outros seus colegas o são, outros sendo empregados. A viatura está impecável. A condução excelente. A conversa com os clientes mais do que adequada, calorosa sem exageros. Sem aquela espécie de paternalismo menorizador que tantos dedicam aos idosos, como se estes diminuídos. Quem conhece a minha mãe sabe que ela não é exactamente uma populista. E gosta imenso dele, sente segurança, respeito e até afecto.

Já andei sozinho com ele, em torna-viagens após deixar a minha mãe em casa. Solta-se um pouco, passamos ao registo de dois homens da mesma geração, eu um pouquito mais velho e encanecido. Falamos de gastronomia, da sociologia urbana da capital, e do estado dos seus transportes, por minha curiosidade também do universo do seu trabalho, que aborda com respeito e, é óbvio, carinho, pois tem a noção que está a prestar verdadeiramente um serviço público. E um pouco da situação geral do país. Temáticas que aborda com acuidade e ponderação, muito maiores do que a maioria esmagadora dos meus parceiros de FB ou de esplanadas. Sem humores parvos nem brejeirices mas com aquilo a que os burgueses de antanho chamavam “joie de vivre” e a classe média de agora entende como “curtindo”.

O Paulo L. é um tipo  porreiro. E um profissional sério. É taxista em Lisboa, e a vida corre-lhe relativamente bem, e eu gosto disso. Especializado num nicho de mercado, por isso particularmente particular. Mas, nessa especificidade, é um taxista. Se queremos entender a classe profissional mais do que fazer generalizações a partir dele, algo que será tão legítimo como fazendo-o a partir de outro qualquer, será antes de entender as condições institucionais em que a sua actividade decorre. E a de todos os outros. Mas antes de tudo isso convirá dizer, quero dizer, repetir, que o Paulo L. é um profissional sério. Um taxista competente. E um gajo porreiro.

 

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