Mozambique e Dylan e vice-versa

desire

Continua o affaire-Dylan, os adeptos e os adversos. O debate segue entre os grão-leitores (por exemplo  aqui vs aqui). Mas também entre nós, os algo-leitores, e entre os quase-nada-leitores. Pois opinar sobre prémios literários é reclamar uma condição “lectural” (aqui  falta-nos mesmo o termo, que “leitora” não me chega, apesar da tradição universitária). E opinar sobre o Nobel literário é também um culto, distraído, como se o prémio Nobel fosse mesmo o barómetro do cânone, pudesse ungir, e como tal surja universal, “nosso”.

A pobre ideia, que é a minha, de que o Prémio Nobel é só um prémio não parece vingar muito. De facto, os prémios são o que são, a gente deles sabe e pode gostar, porque premeiam, honram, aqueles de que verdadeiramente gostamos (como me aconteceu quando Naipaul ou Coetzee receberam o Nobel), ou porque chamam a atenção para alguns autores que desconhecemos (como me aconteceu quando Szymborska, Mahfouz ou Xingjian ganharam o Nobel).

Ou podemos resmungar com as escolhas – este ano caí da cadeira quando soube que da lista de finalistas do Man Booker tinha sido amputado o grande Nassar e tinha ficado Agualusa, que é um escritor menor, apesar de ir receber o Camões em breve, apesar de se saber que depois disso passará a ser indicado para o Nobel, pois é africano, pois Angola é uma cleptocracia, pois ele opõe-se ao poder angolano. E depois?, que tenho a ver com os critérios dos jurados do Man Booker? Ou dos outros? Tenho a ver com os critérios dos prémios literários oriundos do Estado português, pois sou cidadão. Quanto a todos os outros uso-os como chamadas de atenção sobre autores, nada mais do que isso. É o campo literário analisável, é esta actividade de premiação, de canonização e institucionalização analisável? Com toda a certeza, como o mostra o recente livro “Prémios Literários. O Poder das Narrativas, as Narrativas do Poder“, co-organizado pela minha amiga Elena Brugioni (publicado pela Afrontamento). Mas esse é outro tipo de registo analítico, não tem a ver com este bate-boca assente no “achismo”, no auto-posicionamento na escadaria “cultural”.

No meio do rame-rame opinativo até a “Mozambique” (do álbum Desire de 1975) vem ser criticada, porque é fútil. E até escritores renomados o/a vêm criticar por isso, implícita ou explicitamente. A canção é menor, até esquecida – veja-se a dificuldade em encontrar uma versão disponível na internet – muito provavelmente escrita em colaboração com Jacques Levy. O álbum é muito bom mas não lhe perdoam não ter feito um hino à independência de Moçambique e a Mozambique ter cruzado com “cheek to cheek”, “speak”, “peek”, numa “soft song” que termina, em 75, “Among the lovely people living free / Upon the beach of sunny  Mozambique”.

Para os matrecos (para glosar um epíteto metido ao Dylan que vejo muito repetido nos murais do FB, até no meu) isto não chega. Precisam neste 2016 da “poesia de combate”, da literatura e do cançonetismo empenhado, militante, e exigem-no para o passado. Em Portugal esta mediocridade não me surpreende, isto não avança mesmo. Já em Moçambique, 30 e tal anos depois da “Charrua”, trinta anos depois da poesia do Eduardo White, na pátria de Craveirinha, esta mediocridade malevolente, traumatizada, choca. Não me interessa o Nobel do Dylan, acho-lhe piada pois sou fan, pois (também) ele me fez a vida, e até acho mais piada a isto do homem nem responder à Academia Sueca, deixando antever que nem vai aceitar. O que me choca é mesmo esta raivazinha, este matrequismo, este em bico de pés dos sábios que não o são. Só mesmo gente de causas, e normalmente más, pois mal-entendidas.

O velho ma-schamba foi colonizado por um portal desportivo vietnamita, e não está acessível (e é pena porque por lá fui colocando ao longo dos anos esta “Mozambique”, pela  sua piada ternurenta). Assim replico aqui um postal meu de Junho de 2014 sobre o Dylan. Explica bem muito o que esta gente, os escritores magoados, os grão-leitores, nós algo-leitores, os quase-nada-leitores, são e pensam. 50 anos depois do mundo americano (nova-iorquino) a que Dylan se refere, por aqui(s) vai na mesma:

dylan-chronicles1.jpg

“The events of the day, all the cultural mumbo jumbo were imprisoning my soul – nauseating me – civil rights and political leaders being gunned down, the mounting of the  barricades, the government crackdowns, the student radicals and demonstrators versus the cops and the unions – the streets exploding, fire of anger boiling – the contra communes – the lying, noisy voices – the free love, the anti-money system movement – the whole shebang.

I was determined to put myself beyond the reach of it all. I was a family man now, didn’t want to be in that group portrait.”

(Bob Dylan, Chronicles, vol. I, Pocket Books, p. 109)

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