Georges Duby

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Defender uma tese de doutoramento consiste em apresentarmo-nos cerimoniosamente perante cinco ou seis mandarins empoleirados num estrado, em pousar na pequena mesa a que nos apoiamos, duas, três, mesmo quatro volumosas brochuras, em resumir brevemente o seu conteúdo, ansiosos, temendo a questão que nos encostará à parede, em andar febrilmente às voltas com as eventuais respostas que desejaríamos elegantes e sagazes, e depois, em ouvir um por um cada membro do júri que, saboreando nesse dia a desforra da sua juventude perdida, se esmera por brilhar perante a assistência à custa do candidato, procurando as falhas de um texto que em geral leu, é preciso dizê-lo, atentamente, e, se as não encontra, fazendo incidir as suas críticas para a “forma” ou para as lacunas da bibliografia, enfim, no final de uma tarde interminável, em ouvir-se, no meio de um nevoeiro de fadiga, ser declarado doutor e em oferecer, então, um bebida aos seus camaradas. Trata-se de um rito iniciático bastante cruel no final do qual, o “aprendiz”, tendo apresentado a sua “obra-prima”, é recebido entre os mestres. Emprego deliberadamente o vocabulário das corporações medievais, já que, nos nossos dias, os seus usos se conservaram melhor nesse meio eminentemente conservador e rotineiro que é a universidade do que em qualquer outro lado.” (57)

Com a idade, docemente empurrados pelos mais jovens – é a vida -, entramos sem nos apercebermos nesses espaços frios, solenes, onde estão encerrados os antigos, ordenados, embalsamados em honras, onde, sobrecarregados de penachos, de gládios, de rosetas se comportam como distintos figurantes nas liturgias do poder intelectual. A sua função principal já não é agir. Aquilo a que polidamente chamamos sabedoria será algo mais do que um definhamento da actividade criadora? Tudo o que lhes é ainda consentido é aconselhar aqueles que agem.

Directores de tese, por seu turno, concentrando o seu ressentimento no outro lado da barreira durante as longas e enfadonhas horas de defesas de tese, fazendo também parte de outros júris onde são distribuídos prémios, recompensas; membros, depois presidentes de conselho de todas as espécies, benévolos, porém profusamente recompensados pela ilusão de serem poderosos, já não executam encomendas, eles próprios as distribuem para colecções de que um editor os encarregou. Gostam de ganhar dedicações, decidem lugares, defendem os seus apaniguados, patronos, sobretudo padrinhos. Se, como mostrou Marc Bloch, a feudalidade repousa numa trama de laços pessoais, a pequena sociedade emproada que os universitários formam em França, pode ser dita, a justo título, feudal. É um tecido de clientelas. Vassalos durante muito tempo, forçados a venerar e a servir um mestre, estes veteranos tornados senhores defendem avidamente os seus feudatários. Por meio de um contrato tácito, e quase sempre respeitado, as graças que receberam obrigam estes últimos a não se oporem àquele que os ajudou.”  (115-116)

(Georges Duby, A História Continua)

 

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