O aniversário

 

pcp

Sento-me à mesa, casa de aniversário alheio, amiga congregando dezenas dos seus familiares e amigos, tantos meus desconhecidos. A conversa flui, desordenada, pois grupo heterogéneo. Ali ao canto elaboro, esparvoando à medida do bom tinto que corre, alimentando o caldo verde e o caril de galinha (frango, como lhe chamam aqui em Portugal). Passo a passo chego-me, porque os outros à mesa o estão a fazer, ao agora PM que está no poder. Aldrabão, sei-o desde aquele 1983 quando o vi aldrabar votações de braço no ar, ele com aquele José Apolinário na Faculdade de Direito.

Mal lhe toco, ao cabrão que foi o presidente da câmara do arquitecto Salgado, ao nº 2 do José Sócrates das putas a soldo, jornalistas e não só, levanta-se o (ex)comunista, depois bloquista naquele pós-Gorbatchov ou Gorbatchev, da mesa, aos gritos, dizendo-me adepto de Trump, fascista, mais do que tudo “estúpido”, e “sem a razão da história”. Comunista até 1991, o filhodaputa, sem qualquer olhar para as desgraças que apoiou. Sabedor dos massacres, da desgraça, de tudo aquilo. Grita-me numa sala de gente que eu não conheço, convidados da aniversariante. “Sem a razão da história” berra, assente no poder que tem agora, desta puta de geringonça, dos herdeiros do Miguel Portas que são ele, do Pina Moura que são ele, do PCP que foi ele. Berra depois, nos tons catedráticos que são os deles, para a aniversariante, que “não está para vir a jantares com tipos de direita”, nós, presumo, eu e qualquer outro à mesa, não temos lugar à mesa, deveremos mitigar algures.

Eu tenho 50 anos, ele 60, foi meu professor e ficou meu querido. Mas estou para lhe bater. Filhodaputa, comunadocaralho. E penso isso enquanto rebolo o copo de vinho, olho em volta à procura da aniversariante, busco a  minha menina, que ambas me acalmem, e não estão, decerto lá na cozinha, à volta dos comeres e beberes, tantos são os convivas, gélidos agora diante do despautério do comunista, do gajo do massacre, do adepto do holocausto. Toquei-lhe na geringonça, ao filhodaputa, e já acha, como dirá nos corredores da casa, na cozinha, no quintal, que não tenho lugar no jantar ao qual ele vem. No país que é, agora, o dele.

Espero 48 horas, enquanto amigos me telefonam a matizar a coisa, a remeter para os psicologismos de pacotilha aquele tamanho despautério. Depois comunico-lhe “48 horas para me pedires desculpa, e nada.”. Digo-lhe, na mesma mensagem, e na sequência disto, que ele, ex-PC, ex-BE, hoje geringoncista, se vá foder. Sei que agora, no poder, para ele, não tenho lugar no jantar a que ele vai, no país em que quer mandar. Sei, intelectual renomado que é, que se pudesse me faria o que os seus sempre fizeram: fuzilar. Sei como ele se chama, sei os seus livros e textos, continuarei a lê-lo, a recomendá-lo, a referi-lo, a elogiá-lo. Sou um gajo do caraças. Ele foi meu professor. É um filhodaputa. Um comunista. Hoje geringoncista.

Se a vida lhe tivessse permitido ter-me-ia morto. Eu leio-o. Recomendo-o. Sou muito mais do que ele. Muito mais do que tu, ó comuna.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s