A velha ignorância

jpp

Interessante texto, com muita coisa correcta mas que está imensamente errado, o “Ascensão da nova ignorância” hoje publicado no jornal Público. Para José Pacheco Pereira (tal como para outros tantos que o têm vindo a afirmar nos últimos dias, muito por causa da globalização da questão das “fake news”) o problema é que nós-povo “achamos” imenso, usamos as “redes sociais” para botar opiniões, e estas não são nem abalizadas nem avalizadas. Não são ponderadas nem iluminadas, não têm autoridade. Segundo ele(s) essa mediocridade (melhor dizendo, maldade) vem da quebra da influência da comunicação social, o “meio” que é filtro, que eleva o magma do real a factos relevantes e a opiniões consistentes.

Estamos em 2016. O problema desta visão (de jpp e de tantos, principalmente dos ligados à indústria da comunicação social) é que apagam que a mediocrização da opinião pública, a “nova ignorância”, a “guetização da opinião”, o empobrecimento do debate público veio (também) da imprensa, e bem antes das “redes sociais”.

Eu tinha 28 anos quando a internet apareceu (e nós nem sabíamos). 38 anos quando se divulgaram os blogs. 45 quando o FB se expandiu. E jpp é bem mais velho … E bem antes destas tecnologias, que segundo ele pauperizam o conhecimento, um tipo quando lia ou ouvia a imprensa sobre algo do qual realmente tinha conhecimento confrontava-se com um enorme desconhecimento. Para além da partidarização (e mercenarização) da imprensa, dos jornalistas/colunistas, mais conhecidos ou mais proletários. Foi essa degenerescência que provocou este “achismo” generalizado, a falta de respeito e de atenção pelos dizeres dos encartados. Assim sendo não chega resmungar com as “novas tecnologias” e connosco, míseros peões desrespeitadores da sabedoria dos lentes e do primado dos homens bons.

Exemplifico: comecei a trabalhar sobre Moçambique em 1992, lá vivi em 1994-5. Depois emigrei em 1997, até 2014. Durante todos esses anos quando via na imprensa portuguesa referências ao país (nas estações onde jpp trabalha, nos jornais e revistas de referência onde jpp escreve) era constante a absurda mediocridade das abordagens, o desconhecimento factual, a superficialidade analítica, os preconceitos mais básicos. Isto sobre um país historicamente tão próximo. E não apenas por parte destes jovens sub-remunerados d’agora, estagiários ou isso. Isto não tem nada a ver com tecnologias ou redes sociais. Tem a ver com mediocridade da imprensa, dos anos 90 (pelo menos) em diante. Exemplifico com Moçambique mas quantas vezes falando com amigos todos o referem, cada um para o seu campo de conhecimento, tanto a fragilidade das abordagens como a guetização (partidarização) das opiniões mediáticas, como, e é tantas vezes evidente, a subordinação a agendas implícitas.

As redes sociais produzem e ecoam muita tralha? Sim, óbvio. Mas são a forma de nos libertarmos da ditadura da mediocridade daquele que foi o 4º poder. Essa tralha é o custo da democracia, da liberdade. “Acho” eu …

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