A versão castelhana do sítio da Casa Branca

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As minhas ligações-FB (mz, pt) continuam absortas no trumping. E é algo normal isso, este neo-Kane tonitrua o que os (agora até) aprazíveis do Tea Party declaravam e o mumbling de tantos outros. Sobre esta atenção extrema o sagaz sociólogo Elísio Macamo (infelizmente emigrado do bloguismo) botou, e muito bem, “É a nossa “extroversão” … uma espécie de evasão emocional … a desculpa de sempre para justificar a alienação cultural.”

Desde ontem pululam duas “partilhas”, adversas ao homem: uma sobre o encerramento do apoio a ONGs estrangeiras que promovem planeamento familiar. Ora de facto essa medida é recorrente nas últimas presidências republicanas (Reagan, Bush Sr, Jr). Ou seja, isto deriva não da “maldade” de Trump mas sim dos EUA, das contrastantes visões dominantes naquele país e sua política, muitíssimo influenciada pelo radicalismo cristão.

A outra é esta, a do encerramento da versão em espanhol (de facto, castelhano) do sítio da presidência. Até o ministro dos negócios estrangeiros espanhol veio lamentar, um óbvio tique neo-colonial em Santa Cruz, propalando, qual “dono da língua”, a castelofonia. Os funcionários asseguram que é temporário [Adenda: é um passo normal nas mudanças de governo americano, o arquivamento das páginas informáticas da presidência transacta].

Talvez sim, talvez não, talvez seja mesmo eco de perspectivas diferentes sobre o multilinguismo nacional. Em última análise ideias contrastantes face a uma provável adopção do espanhol como língua oficial, daqui a umas décadas, dada a demografia e as perspectivas político-culturais que virão a dominar. Seja como for a gente (mz, pt) não tem muito a ver como o estado americano comunica informaticamente com os seus cidadãos. Mas indigna-se, porque é coisa do Trump. Anti-democrático, pois se há tantos falantes de castelhano nos EUA retirar estes instrumentos de comunicação é forma de alienar os cidadãos.

O que acho (sem)piada é que estes democratas linguísticos, agora tão indignados (partilhadores, laicadores, comentadores), em 40 anos não se lembraram de partilhar apelos ou críticas ao facto dos países “lusófonos” não terem desenvolvido instrumentos de comunicação com os seus cidadãos nas línguas nacionais que não sejam o português. Para estes democratas que hoje saracoteiam o seu indignismo vigora a beleza da “lusofonia”, principalmente os nacionais deste meu rincão. Que o ensino, fixação e desenvolvimento, e instrumentalização das línguas (só de macua há mais falantes do que de português em Portugal, já agora) dos nacionais sejam esquecidos é visto como factor benéfico, de unidade nacional, de progresso civilizacional. Que o “sítio” da “Casa Branca” não tenha (de momento) página em “espanhol” é o fascismo.

Isto é como se Homer Simpson e Fred Flinstone fossem os analistas de política internacional. Pura e simplesmente.

Já agora, num momento de cume da patacoada pós-moderna e de demagogia do poder português, o mirandês foi elevado a língua nacional (e como tal o português também o passou a ser). Não há página em mirandês nos sítios governamentais e estatais portugueses. É evidente que é um caso sociológico diferente. Mas: a) é no meu país, e é este acima de tudo que me interessa; b) demonstra bem a patetice reinante nos olhares sobre as questões políticas da(s) línguas.

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