Guerra Junqueiro para hoje

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Um tipo chega aos 50 e tal sem ter lido Guerra Junqueiro (1850-1923) e decide avançar pelas estantes dos avós e começa por isto (“Prosas Dispersas”, 1921), uma colecção de prosa propagandística, alguma com intuitos quase-ensaísticos, sobre Camões, Raul Brandão, Antero de Quental, outra de raiz mais perene, como a celebração da união luso-brasileira, coisas outras mesmo de época. Surpreende-me o tom, aquela grandiloquência, pomposa, hoje ridícula, tanto que me ocorre “mas afinal quem era este tipo?”, forma mais suave de resmungar “que raio é (foi) isto?”, tanto mesmo que até vou à “História da Literatura Portuguesa”, a célebre de Saraiva e Lopes (10ª edição, corrigida e actualizada), exemplar que marquei “Março de 1980”, no meu 10º ano portanto, porventura fechado desde Junho de 1981, como quase de certeza deve ter ocorrido, alheia que sempre foi a temática à minha vida. E nela já está aquilo do Nas poesias da fase estudantil já se revelam uma extrema facilidade improvisadora, a tendência as antíteses e encarecimentos oratórios, sobre temas da actualidade …, e o gosto da grandiloquência pretensamente visionária(1029). Coisas que pelos vistos carregou até à morte, enquanto foi sendo burocrata, político, até deputado. Dele dizem os autores “Junqueiro não pensa com finura” (1031) enquanto lembram que foi considerado em vida como o maior poeta português e até ibérico e vão avançando que foi bastante criticado após meados de XX, e decerto que também por isso apeada a sua leitura, isto julgo já eu.

Mas o interessante disto não é a leitura, que ainda que célere chega a ser penosa. É com ela alimentar as habilidades para se reconhecer o “junqueirismo” de hoje. Por um lado o quanto dos aclamados actuais não serão daqui a uns tempos (não)lidos como esta sumidade d’então passou a ser: “quem achas que é o Guerra Junqueiro d’hoje?”, um quizz para o FB ou para as revistas semanárias. Por outro lado, e bem mais interessante ainda que menos passatempo, é ver como o tonitruante assertivo e irreflexivo se manteve na tradição da palavra pública, ainda que com alguma actualização estilística. Nota-se isso (reconhece-se isso) ao ler textos que são verdadeiras pérolas, afinal não tão anacrónicas assim, dado que o seu sumo, ainda que não a forma, até parece de hoje. E como exemplo máximo disso os artiguitos de propaganda para a participação na I Guerra Mundial (“O monstro alemão”, “Edith Cavell”), esse projecto central do republicanismo, ao qual o poeta havia aderido. E cito, que é para comparar a “profundidade” com o tanto que se vai lendo hoje:

O misticismo militarista da Prussia é o imperativo categórico do orgulho barbaro e sem lei. O prussiano é o vandalo feroz, automatizado e arregimentado. O ciclone educou-se e converteu-se em maquina. … Arraza uma nação, ordenadamente, implacavelmente, com a certeza algebrica. Conquistar e devorar, eis o movel eterno, o instinto directo da brutalidade organica da Prussia. Devora, mas não assimila. A França conquistou a Alsacia e tornou-a francesa. Depois de a abater, guardou-a no coração. A Inglaterra conquistou o Transvaal iniquamente, mas, dando-lhe a liberdade, seduziu-o, cativou-lhe a alma (…) A Prussia, odiosa, invejosa e rancorosa, só domina, esmagando. Ou faz vitimas ou faz escravos.” (151-152)

Os guerreiros de Atila invenciveis, transpondo a Belgica livremente, em duas semanas esmagariam a França, conquistando Paris. Depois, em dois meses desbaratavam a Russia. Depois, o triunfo completo e vertiginoso, a humanidade nas garras da Alemanha, o mundo escravo de Berlim, o kaiser Imperador supremo do universo! (…) 

A avalanche teutonica, furiosa, inundou a Belgica. (…) As hordas barbaras, torrentes de ferro e fogo, avidas d’oiro e de conquista, assaltaram a França. O monstro da noite ia devorá-la, a doce França, a clara França gerada na luz, rainha da Ideia e da Beleza, senhora da Graça e da Harmonia. (…) Atila esquartejando a França, dominaria o mundo. Civilização, Justiça, Direito, palavras mortas. A Besta feroz omnipotente, e o genero humano escravo e desonrado. A noite da historia. O Anticristo venceria Jesus. (…) O genio latino ia apagar-se“. (165-166)

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