Nassar e o Camões. E agora, que fazer com o Prémio?

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O grande Raduan Nassar ganhou o prémio Camões, um prémio literário atribuído pelos governos português e brasileiro. Discursou contra o actual poder de Brasília (transcrição do discurso aqui).

Depois falou o embaixador de Portugal no Brasil, Jorge Cabral. E depois o ministro da Cultura brasileiro. Imagens abaixo:

O ministro brasileiro teve a peculiar reacção (muito a la Alcazar/Tapioca) de discursar de seguida, contestando o premiado e os seus argumentos e invectivando as forças políticas apoiadas pelo premiado. Não é exactamente o costume destas cerimónias, os representantes do poder outorgam as medalhas e afins em tom protocolar. Pois nestes dias a palavra é dos premiados, goste-se ou não do que eles dizem, do que fazem, é essa a simbólica prerrogativa dos prémios em democracia. Mas este é apenas mais um pitoresco episódio a demonstrar os estranhos “usos e costumes” da política brasileira, como estrangeiro que sou abstenho-me de grandes comentários, para além deste e do esgar de desprezo.

Mas há uma outra dimensão, que tem a ver connosco, portugueses. O Prémio Camões é um prémio político. Não só porque é patrocinado pelos dois estados, Brasil e Portugal, que o instituíram no seio de uma política de engrandecimento da língua comum, destinado às literaturas em português. Mas fundamentalmente porque é gerido segundo critérios políticos (e administrativos, se se quiser). Há a tradição instituída de ser atribuído alternadamente a um escritor português e a um brasileiro, e de quando em vez, quando considerado necessário à sua sedimentação, a um escritor africano. Ou seja, o critério de mérito literário está subalternizado aos pressupostos políticos que o comandam, a consagração da zona comum moral e linguística, a dita “lusofonia”.

Sendo assim um prémio literário subordinado a questões políticas, e sendo um prémio bilateral (português e brasileiro), como entender e aceitar o aproveitamento político do governante brasileiro (concorde-se ou não com ele?) daquela ocasião? Que faz a nossa república ali a seu lado (simbolizada, como tal presente, no nosso embaixador)? Mas mais ainda, como vai a nossa república, o nosso governo, reagir ao total desaforo do ministro da cultura brasileiro, que explicitamente, em discurso oficial, reclama para o seu governo, para o seu país, a atribuição do prémio? Está dito, basta ouvir. Um total desprezo pela contraparte portuguesa, uma arrogância inaceitável.

Não se trata de fazer uma tempestade no copo de água. Trata-se, pura e simplesmente, de perceber que com parceiros deste quilate não há condições para conjugações. Ou seja, trata-se de suspender o prémio político-literário Camões. De ter um mínimo de auto-respeito.

 

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