Trinta anos depois!

cavaco-silva

Desgrudei-me do FB. Continuo a utilizá-lo para ligar os postais do blog. Não porque “não sirva para nada” – serve para imensa coisa, é (ou pode ser) muito útil; ou porque “seja um local de engate” como diz o outro, dado que nada tenho contra o convívio. Não porque me tenha cansado das fotos das famílias felizes, das festas e férias alegres ou dos repastos pantagruélicos ou gourmets: gosto e desejo (d)a felicidade alheia, (d)o lazer alegre alheio e (d)a boa mesa alheia. Não encontro desinteresse nos dois universos facebuqueiros com os quais contacto, o português e o moçambicano. Mas encontro-os abrasivos em demasia para o meu estado de espírito. Com razões para tal, porventura, o moçambicano: crise profundíssima económica e cultural, um conflito latente, um processo político muito difícil pela frente. O debate FB moçambicano é muito interessante. Mas é também doloroso, lido de longe. Abrasivo também o português mas  muito menos sumarento. Quase uma encenação numa sociedade de abundância, de enorme homogeneidade social, cultural e ideológica, onde as grandes divisões são apenas entre as diversas concepções sobre como regular o acesso à redistribuição estatal da riqueza. O tom fervilhante da polémica no FB (como o foi no final da década passada nos blogs) dá um pouco vontade de perguntar “estão a discutir o quê?”. Aqui sim, um debate vácuo e pouco consistente sobre o país.

Disso exemplo é o que acabo de ver. Entrei agora no FB para partilhar ligações do último postal aqui. Encontro várias partilhas de uma notícia vituperando Cavaco Silva por o seu governo ter votado na ONU contra uma deliberação pela libertação de Mandela e pelo fim do apartheid. O artigo de jornal agora desenterrado e veementemente partilhado tem quatro anos, e aludia a uma votação de 1987, há trinta anos! O contexto desta até surpreendente partilha (a que propósito?, perguntaria alguém mais distraído) é simples: Cavaco Silva lançou um livro de memórias, critica sobremaneira o antigo primeiro-ministro Sócrates e alude criticamente ao actual bloco de poder parlamentar.

A questão não é de ter uma boa memória desse episódio, com ele ter concordado ou concordar hoje. Recordá-lo poderá ser interessante se explicitando o conteúdo completo daquela votação, coisa que o artigo em partilha elide propositadamente. E integrando-o seja no pendor “atlantista” (pró-americano, pró-britânico) da política externa portuguesa, seja na complexa política externa africana portuguesa naquela década, seja ainda aludindo às questões que então se levantavam sobre o hipotético devir da comunidade de portugueses emigrados na África do Sul. Mas nada disso é referido, fica apenas o ataque ad hominem a Cavaco Silva – credor de muitas críticas mas não deste jeito. Neste modo de alisar o real, simplificar (manipular) a história. Apenas, sublinhe-se, para atacar o homem que critica Sócrates e descrê na “cloud” dita “geringonça”.

E enjoa ver alguns dos nossos, impávidos, neste “piloto automático”. De alguns mesmo esperar-se-ia que fossem os “nossos melhores”. Mas recusam-se a sê-lo. É melhor deixar-lhes o FB. E, passe a evidente cagança, regressar a este Tormes, à pequena machamba que é este Courelas.

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2 pensamentos sobre “Trinta anos depois!

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