Sobre a (já) velha lusofonia.

lusofonia

Moisés Lemos Martins, um dos intelectuais mais estimulantes do país (ainda que não seja daqueles “anunciado na TV”, como se publicitavam os maus-produtos nos anos 1980s) acaba de publicar um texto sobre a Lusofonia no jornal “Correio do Minho”. E fez o favor, honroso, de, ao partilhá-lo no facebook, me afixar nesse seu postal, forma de convocar ao debate sobre os seus argumentos. Trata-se deste artigo de opinião: “Lusofonia – Herança e Troféu de Guerra“.

A lusofonia foi coisa sobre a qual bastante bloguei, entre meus bramidos, urros e resmungos. Não contra isto de se falar português, que me dá imenso jeito, domino-o relativamente bem (nunca o suficiente, claro). Mas contra a ideologia lusófona, empobrecedora da compreensão do real e trampolim da mediocridade de feixes da sociedade portuguesa. Assim comentei o texto em causa, dele discordando. Acabou por ficar um comentário longo, por isso o trago para um postal de blog:

“Pano para mangas (breve expressão que já em si tem tudo sobre o quão ambivalente me surge a sua tese) neste seu texto. Mas para aludir às referências acima colocadas [respeitantes ao que disseram os líderes africanos ] sobre o legado linguístico reproduzo o que me disseram que Chissano disse: “em português nos desentendemos”. Que a língua “comum” (e desejavelmente grafada de um modo homogéneo …) seja matéria-prima e artefacto de uma comunidade de sentimentos (moral) e de objectivos (políticos, morais, económicos) foi o desejo do tardo-republicanismo de mundivisão colonial portuguesa do último quartel de XX, de facto o sonho da extensão pós-colonial do “mundo que o português criou”. Alimentado por intelectuais, na maioria portugueses, à direita e à esquerda, assente numa aversão radical à análise sociológica, local e transversal, contemporânea e histórica; vivenciado sob modos anacrónicos pela nossa “sociedade civil” (e muito em particular, de modo histriónico até, pelos quadros da enorme administração pública, poderosa neste nosso país estatista, e ramificado na docência massificada). E talvez por isso passem as décadas, a gente envelheça, e continuem a surgir discursos “éticos” (a “lusofonia deve ser …”) como este seu – com o qual tanto discordo e não me coíbo de o dizer dado que entendo a sua colocação aqui como um amável convite ao debate.

A questão não me parece que possa ser colocada (pró-utopicamente) em termos de uma simetria, de um multipolar espaço político-social, de um seu descentramento abandonando o lusopilar ou refutando o brasoimperialismo tendencial (que foi emergente em XXI). Muito mais deverá ser vista na prática social (há quem necessite de lhe chamar praxis), nas categorias culturais/políticas motrizes que afirmam e reproduzem a perenidade de uma mundivisão assimétrica, hierarquizadora e, mais do que tudo, higienizadora da história. Obscurecer esse real e sempre-actuante legado em prol de uma visão de uma língua “comum” (de facto “descomum” e em muito sítio incomum), alisando ou esmaecendo que a “lusofonia” político-administrativa é um espaço de conflitualidade passada e actual, que assim dever ser vivido, compreendendo que assenta numa língua “descomum”, apropriada sob diversidades linguísticas, religiosas, culturais, políticas, políticas, políticas, económicas, económicas, económicas, ene vezes económicas, geoestratégicas, com anseios e objectivos, necessidades e horizontes muito diferentes, e com pólos nacionais e internacionais (ímanes) diversos, é continuarmos uma ladainha (como tal encantatória).

A Lusofonia? É um espaço internacional entre outros, de conflitualidade(s), de assimetrias, de centros (mais-ou-menos) poderosos e de interesses divergentes, de perspectivas diferenciadas. A Lusofonia? É uma lusofonia. Um contexto internacional onde as elites falam a mesma língua e onde há feixes de entendimentos culturais possíveis e algum conhecimento/desconhecimento histórico mais enraizado. Se a vivermos assim é porreiro, frui-se e utiliza-se. Se lhe dermos a grandiloquência habitual (como o meu caro bota aqui [no texto neste postal acima ligado], sonhando um espaço privilegiado de alterglobalização, ou seja, apondo uma qualquer homogeneidade intrínseca ao conteúdo)? Faremos (como vimos fazendo nestas décadas) cimeiras ou colóquios ou workshops, consoante o nosso lugar nas tais elites, e o nosso ofício.”

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