João Braga e os “Óscares”: o orgasmo do politicamente correcto.

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Foi a segunda vez na vida que vi a cerimónia dos “Óscares”, pois demasiado insone e demasiado cansado para ler. E algo curioso sobre o que se iria passar, neste abrasivo já-trumpismo. Os “óscares” são o que são, o que sempre foram, nada mais. Mesmo assim, e talvez como efeito da minha idade, ou da minha disposição, mas talvez não apenas isso, achei aquilo escabrosamente para-além do kitsch. Não foram só as repetidas quedas de doces entre o público, houve “criancinhas amorosas”, uma inenarrável sessão de “apanhados”, os discursitos dos premiados (os agradecimentos em sprint, a tonta actriz premiada a dizer que é deles, os actores?, os do cinema?, a única profissão  que celebra a vida …), a querela piadística entre o apresentador (“quem?”) e um dos actores. E depois os próprios presentes, caramba, num festival de mau-gosto tétrico: o central Denzel Washington num ridículo preto azeviche capilar; tipos de smoking branco; o apresentador “Rock”, num casaco azul berrante ainda por cima; o óscar de carreira ao indizível Jackie Chan; e as actrizes não só são muito mais feias do que eram – nem os ícones Jessica Lange, Susan Sarandon ou Angela Basset, nem as beldades Julia Roberts ou Anne Hathaway, todas ali ausentes, têm substitutas -, como vestidas numa piroseira risível, até incrível. Quanto aos filmes, sendo estes o menos relevante da coisa (os filmes dos Óscares não são, na sua esmagadora maioria, dignos de mais do que um entre-zappings), pouco sabia e decerto que pouco virei a saber: vi o filme do Mel Gibson, muito fraquinho (e seguindo o novo paradigma do realismo de guerra, o estralhaçar dos corpos nas batalhas, o equivalente aos dildos na pornografia). E vi o “Silêncio” de Scorsese – se Meryl Streep é nomeada em cada filme que faz não percebo porque não acontece o mesmo com Scorsese -, do qual não gostei muito, pois por mais que se explicite o “paradiso” apropriado pelos crentes japoneses e se aluda ao “pântano” cultural que seria o Japão de então, o filme não carrega a densidade do questionamento da traduzibilidade cultural (religiosa) que o livro de Endo tem.

E houve a política. Algumas piadas a Trump, ele merece-as, e algumas bem conseguidas. Dois bons apontamentos de premiados: um italiano, um iraniano. Um outro, digno, de um apresentador, mexicano. Nada exacerbado. A política real foi a racial, naquele país até esquizofrenicamente racializado. O ano passado houvera uma grande polémica porque os “óscares” foram ditos “brancos”. Este ano a organização deu o braço a torcer e alcandorou a “comunidade” (é assim que o discurso público americano conjuga a sua sociedade) que mais protestou em 2016, “a” dos “afro-americanos”. Os prémios foram salomónicos e os membros dessa “comunidade” receberam importantes distinções. Dois deles dedicaram-nas aos jovens “negros” e “mulatos” (“blacks” e “browns”) dos seus subúrbios. O que não é totalmente original, lembro, por exemplo, que Russel Crowe ganhou um “óscar” em 2001 e dedicou-o (também) aos jovens dos subúrbios de … Sidney ou Auckland ou … Newcastle ou … de qualquer subúrbio. Há alguma diferença? Há, enorme. Mas nos tempos que correm não convêm … universalismos. Pois para se “estar bem” é preciso pensar dentro da “caixa”, do paradigma “comunidades”.

Ao filme que ganhou, no meio daquela logo-célebre patacoada do anúncio errado, ainda não o vi. Mas, como todos já sabemos, aborda três “comunidades” defensáveis: “jovens”, “homossexuais”, “afro-americanos”. Como tal … ainda bem que ganhou. Este é o raciocínio explícito ou implícito de imensa gente, tendo ou não visto a oscarizável fita. Mais um episódio na longa tradição da subalternização da avaliação/fruição estética às causas e princípios defendidos nas obras (como exemplo nada único lembro aquilo do “realismo socialista”, por cá conhecido como “neo-realismo”). Em termos artísticos (mesmo se no âmbito desta “indústria cinematográfica”) é coisa que vale nada, para além de algumas boas consciências e algum (ou muito) dinheiro.

Face a isso o cantor João Braga, conhecido conservador e basto reaccionário, mandou uma boca no FB, qualquer coisa como “agora basta ser preto ou gay para se ganhar um óscar”. Nada muito distante do que eu pensei, ainda para mais em 2017 após a polémica dos prémios transactos. E dizendo-o exactamente como eu o teria dito se em Moçambique entre os meus amigos … negros: o termo “preto” tem uma conotação muito menos desagradável em  Moçambique do que em Portugal, se dito num contexto amistoso e em registo descritivo ou jocoso. Ou seja, em Portugal eu teria sarcasmado (se estivesse acompanhado) dizendo “negro” e em Moçambique teria dito “preto”.

E por ter João Braga dito o verdadeiramente óbvio, em registo de “boca”, cai-lhe o pequeno mundo internético português em cima. Algo justificadamente, a gente bota/fala aquilo que pensa e os outros avaliam, criticam, resmungam, aplaudem (se for o caso). Muitas vezes de maneira também exagerada (“deixa-me lá dizer qualquer coisa …”). Mas é assim, as conversas face-a-face ou no “éter” são assim. O locutor ainda por cima é conhecido por fazer gala das posições mais conservadoras, dá o corpo ao manifesto, não se lhe dá a amplitude que a outros se poderia dar, nem ele a reclama. Tudo bem.

Mas leio, em notícia fervorosamente partilhada, que há uma organização que vai fazer queixa dele a uma instituição estatal. Queixa? Queixa de um dito destes, de um resmungo? Anódino? E, de facto, contextualmente muito fundamentado? Como se se tratasse de um crime, público? Isto é uma palhaçada, um sentimento generalizado apalhaçado, um orgasmo de “correcção política”. Miserável. Se como atitude. E também se como anuência.

Sei que, volta e meia, aparece um intelectual daquele amplexo socrático, perdão, costista, a dizer da inexistência do “politicamente correcto”, a anunciar que isso é um espantalho do reaccionarismo da ultra-direita. Mas ele existe, em forma de policiamento intelectual, seja no discurso público seja nos contextos profissionais, ainda que negado por esses (muito provavelmente, confirmou-se agora) avençados dos poderes político-económicos.

Sobre esse “politicamente correcto”, a perfídia do policiamento intelectual, que agora quer atacar João Braga, o cantor de facto muito “facho” [“hoje vão buscar o “cantor muito facho” e eu nada digo …. depois de amanhã virão buscar-me e ninguém dirá algo”, glosando a célebre ladainha antinazi], lembro aqui as palavras sábias de um intelectual que hoje (não ontem, mas hoje, dado o seu verdadeiro papel de proto-ideólogo do actual poder parlamentar) não poderá ser dito da direita troglodita:

Este tom autoritário, latente em múltiplas causas do “politicamente correcto”, é sempre envolto na intangibilidade dos princípios. Nos últimos anos, os defensores do “politicamente correcto” vêm-nos impondo (…) que a igualdade, a fraternidade, a justiça universal, o apagamento administrativo de qualquer manifestação ou relação de força em nome da protecção dos “fracos”, tudo isto pode ser claramente vertido em decretos-leis. Esta ideia de felicidade e do mundo perfeito por via de decretos-leis, está no âmago do “politicamente correcto”, e é no fundo uma manifestação da velha crença jacobina e iluminista de criar sociedades utópicas impostas por via da engenharia legal, social e política. 

Em muitas áreas, onde é mais ambíguo, complexo, e difícil o relacionamento humano, os defensores do “politicamente correcto” têm entrado de rompante com a luz das suas certezas inabaláveis e “correctas”. O amor, a sedução, a sexualidade, a muito complexa trama dos indivíduos, dos desejos, da “vontade individual” de poder, das relações ambíguas entre o trabalho, a afirmação individual, o uso e o abuso da autoridade, para eles são límpidos e sem dúvidas. À força de leis sobre o assédio sexual, sobre o assédio “psicológico”, sobre discriminações positivas, sobre o que se pode ou não dizer, tudo passa a ser vigiado para não incluir nada que não ofenda ninguém. Tudo asséptico, com base num ideal de construir um mundo perfeito em que não perpassa – pelo menos permitido por lei – qualquer desvio, qualquer imperfeição.

(José Pacheco Pereira, “O novo autoritarismo”, Vai Pensamento, Quetzal, 2002, 153-154).

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