Há mais vida para além do défice

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Alguém, muito provavelmente de modo metafórico, referiu que o défice público português de 2016 “até certo ponto foi um milagre”. O Presidente da República responde-lhe de modo escandaloso, que a redução “saiu do pêlo dos portugueses” e que “milagre só o de Fátima”, o cujo centenário, aproveita para anunciar, se apresta para comemorar. Não quero, nem quero, discutir défices, sms, offshores, luvas a condecorados, livros de memórias, todas estas trapalhadas “fim de regime” a que isto chegou. Nem mesmo o paupérrimo plebeísmo da tirada de Rebelo de Sousa, já amputado de qualquer réstia de gravitas que lhe tenha cabido em sortes. O inaceitável, o abjecto, é este superficialismo “reality show” do presidente, esta sua adesão ilimitada à propaganda católica. Ninguém o obrigou a ser presidente, muito menos neste quinquénio, o do tal “centenário”. Quis sê-lo. Na recente tradição política portuguesa sendo-o “de todos os portugueses”. Isso significa, tanto pela laicidade da república como pelo respeito à globalidade dos compatriotas, que não deve colocar o seu posto político ao serviço de uma confissão religiosa. Quer rezar? Reze. Quer comungar? Comungue. Mas o presidente não faz propaganda por confissões religiosas. Nem pelas suas teatralizações, mais ou menos histriónicas. Sejam elas maioritárias ou minoritárias.

Depois, e até mais, há a questão da dignidade pessoal. Fátima foi uma patranha, uma estratégia comunicacional, arregimentadora, utilizada num momento politicamente difícil para a igreja católica. Até compreensível naquele momento histórico. Mas é uma mentira. Mesmo que milhares de vezes repetida, por um século repetida, não deixa de ser uma patranha. “Fake news” nos termos de hoje. Que indivíduos católicos continuem a manipular essa manobra potenciadora das superstições populares é-lhes uma indignidade. Pessoal. Que o presidente da república aproveite o seu posto para as potenciar é uma vergonha. É este o verdadeiro défice que temos. De presidente. E, pelos vistos, só mesmo com um “milagre” é que o ultrapassaremos.

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