Nova Portugalidade Summit

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Em pleno 2017, no centro de Lisboa, uma conferência numa universidade pública é impedida pela direcção da associação de estudantes. Jaime Nogueira Pinto iria falar sobre “Brexit, Trump e Le Pen”. Os organizadores pertencem a uma agremiação intitulada “Nova Portugalidade”, que divulga um conjunto de argumentos hoje tão anacrónicos que deveras pitorescos. É assim a democracia, cada cabeça sua sentença, sendo que a esmagadora  maioria de nós segue as sentenças que alguns proclamam. Não particularmente iluminadas as da “Nova Portugalidade” mas … e depois?

Fico estupefacto. Durante 15 anos leccionei na Faculdade de Letras e Ciências Sociais da Universidade Eduardo Mondlane. Num contexto político (e tantas vezes militar) interno muitíssimo mais conflitual do que o da sociedade portuguesa. Onde a tradição da autonomia universitária face aos poderes políticos é menor. Onde os académicos pertencem (ou apoiam) a diversos movimentos políticos. Onde muitas vezes houve tensão – em moldes bem mais angustiantes, por vezes – devido à expressão pública de análises sobre os processos nacionais e internacionais. Mas, e apesar de todo esse contexto, nunca assisti a uma prática censória destas. Dinamizada por um órgão eleito, subscrita pela direcção, silenciada pelo corpo docente.

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Mas aqui, em 2017, um conjunto de futuros cientistas sociais e humanos, entretanto eleitos para a direcção da associação de estudantes daquela faculdade, assinam uma proibição do direito à expressão pública, sem terem qualquer substrato legal para o fazer. São, consta, jovens adultos ligados à coligação  Bloco de Esquerda, base parlamentar do nosso governo. Daqui a breves anos estarão nos postos de direcção do estado, funcionários ou políticos. Ou, alguns, serão alvo dos financiamentos públicos à investigação. Estamos, continuamos, a alimentar a(s) besta(s).

Para além das questões de princípios, da liberdade de expressão, há coisas aparentemente mais comezinhas. A direcção da faculdade acobarda-se, vilmente, mostrando ser incapaz de induzir o são ambiente académico, de debate e até conflitualidade intelectual. Numa escola de ciências sociais e humanas! Seria, se a lógica existisse, o prenúncio do pedido de demissão colectiva. Independentemente de quaisquer  outros méritos, administrativos e/ou académicos, que a direcção possa ter.

Mas outra coisa me é mais relevante. A curiosidade em saber quantos professores daquela faculdade se insurgiram contra esta decisão. Se disponibilizaram para enquadrar, naquele momento, o conferencista. Mesmo que com ele previssem discordar, coisa mais do que natural numa faculdade (ainda para mais de ciências sociais e humanas). Quantos se recusaram a subscrever, pela mera apatia que seja, tamanha violação da lei numa universidade pública, tamanho estupro da democracia? Ou por outra, quantos são cidadãos democratas ou apenas patéticos aspirantes a mandarins? Até porque, e como acabo de ler no mural de Facebook de Telmo Azevedo Fernandes, “se se chamasse Nova Portugalidade Summit” não havia problema“.

Pois, de facto, para além da monumental cobardia institucional e da anti-democraticidade congénita da intelectualidade funcionária pública portuguesa, o que esta vilania denota é uma incultura patética. Ou melhor, pateta.

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