Um amigo e o Knopfli

basta viver

Um amigo, de muito longe, lá no muito longe, mandou-me isto, num “li e lembrei-me de ti”. Respondo-lhe “vai-te foder, deste cabo de mim … Um beijo para ti”. Defendo-me aqui, através da imagem, pobre muralha …

O Livro Fechado

Quebrada a vara, fechei o livro 
e não será por incúria ou descuido 
que algumas páginas se reabram 
e os mesmos fantasmas me visitem. 
Fechei o livro, Senhor, fechei-o, 

mas os mortos e a sua memória, 
os vivos e sua presença podem mais 
que o álcool de todos os esquecimentos. 
Abjurado, recusei-o e cumpro, 
na gangrena do corpo que me coube, 

em lugar que lhe não compete, 
o dia a dia de um destino tolerado. 
Na raça de estranhos em que mudei, 
é entre estranhos da mesma raça 
que, dissimulado e obediente, o sofro. 

Aventureiro, ou não, servidor apenas 
de qualquer missão remota ao sol poente, 
em amanuense me tornei do horizonte 
severo e restrito que me não pertence, 
lavrador vergado sobre solo alheio 

onde não cai, nem vinga, desmobilizada, 
a sombra elíptica do guerreiro. 
Fechei o livro, calei todas as vozes, 
contas de longe cobradas em nada. 
Fale, somente, o silêncio que lhes sucede. 

Rui Knopfli, in “O Corpo de Atena”

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