A Anagrama, nos Olivais

francisco naia

25 anos depois voltei a viver no “bairro” (de facto, na freguesia) onde cresci, os Olivais. Que era zona até limítrofe de Lisboa quando foi construído nos anos 1960s mas que é agora, e desde há décadas, sociologicamente central na cidade, ladeando o aeroporto, incrustada entre Alvalade, Lumiar e a mais recente Parque das Nações, integrando esta expansão para oriente da malha urbana que extravasa os puros limites concelhios. É uma grande freguesia, mais de 30 mil habitantes, mais de 40 mil eleitores.

Neste  meu regresso tive duas impressões sobre o “bairro”, que talvez sejam mesmo só isso, impressões. O envelhecimento da população. E o empobrecimento. Por um lado porque os velhos de agora são os “novos pobres”, neste gradual apertão sobre as reformas. Mas também porque tendo sido os Olivais um projecto urbanístico de mescla sociológica as novas gerações dos segmentos de classe média aqui residentes partiram para outras áreas enquanto os descendentes dos segmentos de “classe média baixa” (agora diz-se assim) foram ficando.

Porventura isso não será toda a realidade. Talvez novos residentes, tanto os substitutos dos entretanto falecidos como os ocupando alguns escassos novos núcleos habitacionais, sejam menos visíveis. Pois os hábitos são diferentes, não só agora as pessoas têm menos filhos como os resguardam. A nossa geração cresceu à solta, esta tem “actividades”. E em assim sendo não há putos na rua. Por outro lado, e falando de adultos integrando essa mole heterogénea a que se chama “classe média” (que significa qualquer coisa como alfabetizados com consumo calórico suficiente para estarem capazes de trocar a visualização televisiva por uma qualquer outra actividade fora de casa), o que se passa é que no bairro pouco há para fazer, o que vai tornando invisíveis quaisquer novos nichos populacionais.

Pois há um enorme défice cultural, no sentido amplo da palavra. 30 e tal mil habitantes e não há um restaurante verdadeiramente apetitoso, não há um bar de referência (nem sem o ser), não há quiosques viçosos, os cafés são muito medíocres, com uma ou outra excepção. O pequeno comércio é decadente, o próprio centro comercial é pobre. Não há salas de espectáculos, nem galerias, nem livrarias. O associativismo é esparso e não só de antanho como sociologicamente muito marcado (o Sport Lisboa e Olivais é uma bandeira, a Sociedade Filarmónica União e Capricho Olivalense outra). Subsiste a antiga Bedeteca, agora uma biblioteca municipal, nitidamente castrada por falta de recursos. E há algumas actividades mais ou menos esparsas feitas pela Junta, também muito típicas de um modo de administração autárquica vinculada ao (necessário) assistencialismo e a esta moda “neo-rural”. Mais coisas existirão decerto, de que nunca ouvi falar, mas é verdade que o panorama é muito rarefeito. Certo que na vida de agora as pessoas se aglutinam nos centros comerciais, e se resguardam no espaço doméstico-electrónico.  Mas ainda assim angustia tamanha falta de diversidade no bairro.

Agora descobri que desde há algum tempo que funciona a Anagrama (com página no facebook) É, na falta de melhor termo, um “espaço”. Acolhe actividades muito diversas, oficinas (ateliers, workshops, escolham a língua) para crianças e jovens, aulas de ginásticas orientais e lavores, conferências e conversas temáticas, espectáculos musicais, poesia, apresentação de livros, teatro, e mais um punhado de alternativas, num programa cheio, enérgico. E acolhe também uma pequena livraria. É um sítio amigo, amigável, para fruição e convívio. Mas também de resistência, para que resistamos a esta nossa modorra envelhecedora. Ir, sorrir, debater, ouvir, aprender. Gostar e desgostar. Aqueles elixires, que nos vão fazendo aguentar.

A Anagrama está na Avenida de Berlim, 35c, naqueles prédios relativamente novos. Mesmo na divisória entre os Olivais Sul e os Olivais Norte. Para aí a um km e tal do centro comercial Vasco da Gama (que é ao fundo da avenida) e a outro do centro comercial dos Olivais e do metro, descendo a avenida cidade de Luanda. E ainda mais próxima da Junta de Freguesia (a qual, já agora, poderia ajudar na divulgação destas coisas).

Na sexta-feira, na sua pequena sala, haverá música. Gratuita ainda para mais. Eu irei lá. Nem que seja para escapar ao enésimo fim-de-tarde a bebericar no café em registo conversa passatempo. Ou no xópingue vasculhando em busca de promoções. Nem que seja por isso. Mas também por muito mais. Pelos tais elixires.

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