O trajar académico?

comunicado

Facto social total: é desse velho conceito, aprendido logo no início dos estudos de ciências sociais, que me lembro enquanto leio em vários murais do Facebook comentários sobre um comunicado de uma universidade moçambicana, proibindo inúmeras peças e modos de vestuário. Há quem critique o moralismo exacerbado que habita nesses propósitos, há quem apoie criticando os costumes desbragados da comunidade estudantil. E houve quem, com siso, notasse a escandalosa mediocridade formal do texto, inadmissível numa direcção universitária, denotativa de um “estado da arte”, esse sim algo degenerado. Disso tudo retiro três pontos, bem diversos: sobre a normatividade no ensino; sobre a diversidade; sobre a “cooperação”.

1. Haverá um trajar académico, exigível nos campi ou a promover? A todos convocando? Uma tendencial unicidade desejável, a dinamizar pela Universidade? Tanto nos modos de vestir como na, mais abrangente, mundividência? Nestas coisas que se pretendem normativas a gente esquece-se do fundamental, a promoção do bom senso. Que é uma coisa indefinível por natureza, preconceituosa até certo ponto, e necessariamente tão alimentada pelo senso comum. Esse que temos sempre de respeitar. E sempre ultrapassar. Assim dito parece difícil mas de facto não o será.

2. Os núcleos universitários vestem-se de modo diverso, forma de construir a diversidade (e de a mostrar) que virão a constituir na sociedade. Tentar cercear essa multiplicidade é, bem no âmago, ansiar por uma homogeneidade social. O que é um projecto político, acima de tudo.

Ou seja, os alunos do Instituto Superior de Artes e Cultura (p. ex.) vestem-se diferentemente dos da Faculdade de Direito (p.ex.), tal como os de Antropologia se diferenciam dos de Medicina (ainda que menos). E os professores também. Lembro-me que um dia fui “dar uma aula” (expressão que detesto) vestido com um trivial fato completo, dado que seguiria dali para uma recepção oficial. Ao subir a escadaria da FLECS fui rodeado pelos alunos jocosos, um deles disparando “professor, isso não é uniforme de antropólogo”. Nas mesmas salas os meus colegas de Administração Pública leccionavam com os seus fatos, com toda a normalidade, como é óbvio. Isto não é postular o ilimite: nunca leccionei em calções nem em t-shirt (mas de ganga e com polos sim), minhas opções para estabelecer um código visual. Outros colegas fazem-no com pormenores algo diferentes, assim todos difundindo um algo difuso mas consistente modo de estar. Sempre transformável, individualizável, mas consistente … É muito mais democrático e muito mais funcional do que um mero regulamento “escolar” proibitivo.

3. Sobre a cooperação. Não é um comentário ad hominem mas é-me incontornável. Leio um vigoroso defensor desta normatividade burocratizada, assim denotando perspectivas (políticas) sobre o que é (ou deve ser) a universidade. E a sociedade. Vejo-lhe no mural que é professor universitário, formador de professores. Estudou língua e literatura portuguesa numa universidade pública portuguesa. Tem uma sintaxe muito confusa, mas isso talvez seja o ritmo-FB. Mas escreve, repetidamente, “trages” e “calsas”. Nunca pensei que erros ortográficos amesquinhem a argumentação do locutor [até porque também os cometo]. E, ainda que torça o nariz, não posso afirmar que erros ortográficos tão básicos impeçam que estejamos diante de um bom docente. Nem é essa a minha problemática. A minha angústia é a “cooperação”: como é possível que um departamento de português de uma universidade pública portuguesa gradue (e como tal promova como agente reprodutor) um docente de português que escreve “calsas”? Qual o substrato cultural e político de um corpo docente que comete esta aleivosia? Como entendem esses professores não só a sua função de docentes como a dimensão de política externa (ajuda pública ao desenvolvimento) que lhes financia a actividade (bolsas para alunos externos)?

De facto, mais do que discutir os tamanhos dos decotes das alunas ou os penteados dos alunos, temos é que discutir as modalidades de formação, endógena e exógena, dos docentes.

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