O estado dos cientistas

nif

Janto com um amigo, académico. Diz-me que prepara um projecto de investigação, que para a sua realização irá candidatar-se a um programa de financiamentos públicos chamado Horizonte 2020. Diz-me também que as questões burocráticas, de preenchimento da candidatura, são um pouco difíceis. As quais se tratam em portal electrónico próprio, no qual ele já se inscreveu.

Diz-me também que o acesso individual a este portal de financiamento de projectos de investigação científica se faz pelo Número de Identificação Fiscal de cada cientista candidato. Entenda-se, o acesso à actividade de cada um neste portal de financiamento à ciência faz-se pela apresentação do respectivo NIF.

Fico estupefacto. A individualidade do cientista (candidato a financiamento) não é expressa electronicamente pelo seu nome. Ou simbolizada por uma senha que tenha escolhido, num livre-arbítrio expressando o seu imaginário ou realidade (eu lembro, entre outras, as minhas nropa, balama, bolama, inhaca, já abandonadas). Ou, vá lá, o seu número de bilhete de identidade/cartão de cidadão, expressando a sua cidadania, afirmando o indivíduo cidadão com direitos e deveres desta república.

Já não é assim. A individualidade do cientista (candidato a financiamento) é mostrada à instituição financiadora da ciência através do seu número de pagador de impostos!

Muitos textos de muitos autores li referindo esta evolução do sistema capitalista/economia de mercado (há quem lhe chame pós-moderna, pós-industrial, pós-colonial, pós-etc.) que transforma (avilta, dizem) os cidadãos em meros consumidores, como factor de transmutação cultural/existencial necessário ou favorável à estabilidade e potenciação do modus vivendi. Mas neste caso o que vejo, porque o Estado (financiador da ciência) mo grita, é a redução do cidadão (cientista), e assim até a da ciência (dos cidadãos), a utente, pagador de impostos. E diante disto não há um “indignista”, um de prosápia de subversivo, um cientista social analítico, crítico, seja lá o que for, que se arrepie.

Vão felizes, assim utentes. Submersos neste véu ideológico. Dizia-se antes cúmplices. Ou mesmo colaboracionistas. E dançam, os cúmplices. Inscrevem-se, candidatam-se. Apresentando o NIF … Colaboram. E vão saracotear-se alhures.

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