A sexta-feira santa do ateu

passion-of-the-christ

(Imagem do calvário filmado por Mel Gibson)

Hoje é a sexta-feira dos cristãos, nesta sua quadra de comemoração da vida. Que lhes seja santa, e a todos aprazível. Com eles comemoro.

Aproveito para um aparte: encanitei-me ontem, mais uma vez, ao ler a expressão “ateu confesso”. Resmunguei-a, respondeu-me o seu locutor que estava eu a ser vulgar. A expressão tem uma história, nisso um conteúdo: o da perseguição ao ateísmo, exsudando a memória dos constrangimentos impostos para o seu reconhecimento, a demanda da sua confissão (que implicaram tortura, morte ou obrigação à reconversão, e cessação de direitos). Algo que não é apenas uma memória histórica, convém lembrar que há vários países (com os quais Portugal mantém amistosas relações diplomáticas) que penalizam – alguns com a pena de morte – o ateísmo; e o da negação da possibilidade do ateísmo, pois ao ser apelidado de “confesso” é-lhe atribuída a pertença a uma particular crença e a uma particular comunidade de crentes, um artifício dos crentes de facto, assim a quererem preservar as suas mundividências, assentes na omnipresença de uma qualquer fé, como se esta fosse da ontologia humana.

Ser ateu é exactamente o contrário de “confesso“: não confesso qualquer erro (neste âmbito), não sou merecedor de qualquer acusação (neste âmbito), não me converti a nada, não pertenço a nenhuma congregação. Ser ateu é descrer, não ter fé ou crença (no sentido vulgar de crença). Em última análise, logicamente ser ateu é ser “des-confesso”. E, politica e historicamente, ser ateu é ser “pós-confesso”, refutar as perseguições encerradas na velha expressão, refutar a possibilidade do seu regresso.

Enfim, celebrem a páscoa. Confessem. “Estamos juntos”. Mas não me insultem nem desrespeitem a memória dos que antes de mim descreram, apagando por esta vulgar e até risonha expressão o sofrimento que os vossos ancestrais lhes causaram. E aquele que os vossos amigos causam a tantos dos des-confessos actuais.

Ainda por cima nesta vossa santa quadra.

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5 pensamentos sobre “A sexta-feira santa do ateu

  1. Agnóstico não é exactamente isso, como sabes. Quanto ao resto, a omniperseguição inter-humana é uma triste realidade histórica. O que não implica que tenhamos que calar os seus fluxos particulares. Que fique claro, como julgo que está implícito e explícito no texto, não sou anti-religioso nem mesmo anti-clerical (sou furibundo anti-proselitismo, mas isso é outra coisa). Não estou aqui a demonizar os crentes, o que refiro é que aquela expressão transporta uma realidade histórica que refracta duas coisas: uma perseguição, uma desvalorização. As perseguições de sentido inverso (até porque, na Europa, mais modernas) são inaceitáveis (ainda que eu, em determinados dias, estou disponível para perseguir os prosélitos da IURD ou mormons, mas, repito, isso é outra coisa). Quanto ao ateísmo. De facto ele é múltiplo, na história e na actualidade (Também há os prosélitos, também chatos, diga-se). Mas na sua essência ele é a des-crença (e não um qualquer estado qualquer de fé), até etimologicamente. Foi, na história, objecto de congregações, tanto de inspiração pedagógica (racionalista, anti-religiosa), como de defesa. Mas isso são algumas formulações histórico-políticas que nem o esgotam nem são o mais significante. Aliás nos nossos contextos (grosso modo, europeus) ele não implica a congregação dos incréus (partidos, associações, etc). Nem mesmo uma identidade peculiar. Não tem “deuses” sem aspas, muitas vezes tem “mitos” com as tais aspas, mas mesmo a “Razão”, desde Freud e Heisenberg levou um grande abalo: a gente já não está no XVIII iluminado e não está, mesmo, sob o empirismo. E levantar essa s lebres é retomar uma velha argumentação mui católica. Deixemo-nos de coisa, ateu é o gajo que não acredita (incréu), que não tem fé. Terá (sim ou não) perspectivas, concepções. Se for culto saberá da falibilidade dessas, da incompletude dessas, da humanidade dessas. Não tem fé nisso, no sentido literal do termo. Terá, quanto muito, fezadas. E não se junta, identitariamente, com outros tipos porque são ateus (ainda que fuja, como o Diabo da Cruz, dos proselitismos alheios).

    Uma Santa Páscoa para ti e para os teus

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    1. Estás a usar o conceito de fé limitado à sua vertente teológica, portanto Fé, eu estou mais etimológico ao usá-lo como sinónimo de tomar como verdadeiro algo que não posso provar. Heisenberg, Schrodinger e, maxime, Plank realmente obrigaram a mudar algum discurso absolutista ateu do virar do século XIX, que continua no entanto a ter alguns descendentes hoje. E é natural que a minha argumentação seja católica, não escapo à minha Fé. Não é por isso que é mais ou menos válida.
      Ter ateu como identidade é ainda hoje condição necessária, não suficiente, para ser sócio de algumas agremiações, é factor agregador.
      Desarmas-me com os votos de Santa Páscoa, que não posso senão retribuir com especial ênfase para ti e para todos os que te são queridos, e também como bom cristão para todos!

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  2. Parece-me haver aqui uma confusão entre ateu e agnóstico. Ateu é também um estado de fé, a fé na não existência de Deus. O que ajuda a explicar (não a legitimar) a perseguição em determinados contextos históricos.

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    1. Não há qualquer confusão: ateísmo é um “estado” (se se quiser usar o termo) de inexistência de “fé”. E o mais perverso da típica argumentação dos religiosos (ainda que muitas vezes o façam de modo inintencional, por mera irreflexão) é esse arremeter de uma fé (ateia) a quem a não tem, modo (como refiro no texto) de afirmar a inevitabilidade de ter fé. Como se ateísmo fosse uma outra fé, apenas diferente. É uma confusão conceptual e é, também, uma estratégia discursiva, política, perversora e perversa.

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      1. Ao contrário do agnóstico que simplesmente não crê, ateísmo é um “estado” de negação da existência de qualquer Deus, e por impossível de provar (ainda mais que a existência, pois esta a ser verdadeira em qualquer momento pode acontecer a prova) é também uma fé. E que também tem um corpus filosófico e de “deuses” (normalmente a Ciência ou o empirismo). Não há nenhuma inevitabilidade de ter fé. Assim como de não ter. Reconhecendo que com muitos outros motivos (mas isso também aconteceu nas perseguições religiosas) também os ateus perseguiram os crentes. Até em tempos muito mais recentes.

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