Viver com a Incerteza

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Viver com a Incerteza é, grosso modo, a tradução do título do livro de uma antropóloga portuguesa – Inês Hasselberg.

Este livro, fruto da sua tese de dissertação doutoral na Universidade de Sussex, aborda o impacto dos processos de deportação nos indivíduos e famílias que nele se encontram enredados. Numa linguagem clara e comovente, este livro expõe-nos aos receios, angústias, desesperos em que vive gente como nós num contexto de marginalização que os prende num presente sem futuro.

Publicado em Inglaterra pela Berghahn Books, foi este livro que angariou à editora o PROSE Awards de 2017 em Antropologia. Este prémio internacional é atribuído à editora que publicou o melhor trabalho dentro de cada disciplina (the most outstanding work among each year’s entries).É o prémio de maior prestígio internacional, concedido apenas aos melhores no seu campo. Isto significa que Inês Hasselberg é a voz que se deve ouvir em Portugal sobre esta questão tão actual da (e)migração. A nível da Europa assim é considerada, esperemos que “em casa” também o seja.

Este livro, além da sua importância científica, consegue cativar qualquer público, mesmo aquele não familiarizado com o lingo académico. Que seja esta a lição para a academia portuguesa que dele usa e abusa, excluindo com chavões o público em geral. Depois de Sussex e Oxford, Inês Hasselberg está agora em Lisboa, onde as obrigações familiares a retêm, para estudar estas mesmas questões no contexto nacional.

E agora perguntam-me vocês: mazoquéqueste postal tem de relevante? Ah… é que eu deixei o melhor para o fim: a Inês Hasselberg, É MINHA FILHA!

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O aniversário

 

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Sento-me à mesa, casa de aniversário alheio, amiga congregando dezenas dos seus familiares e amigos, tantos meus desconhecidos. A conversa flui, desordenada, pois grupo heterogéneo. Ali ao canto elaboro, esparvoando à medida do bom tinto que corre, alimentando o caldo verde e o caril de galinha (frango, como lhe chamam aqui em Portugal). Passo a passo chego-me, porque os outros à mesa o estão a fazer, ao agora PM que está no poder. Aldrabão, sei-o desde aquele 1983 quando o vi aldrabar votações de braço no ar, ele com aquele José Apolinário na Faculdade de Direito.

Mal lhe toco, ao cabrão que foi o presidente da câmara do arquitecto Salgado, ao nº 2 do José Sócrates das putas a soldo, jornalistas e não só, levanta-se o (ex)comunista, depois bloquista naquele pós-Gorbatchov ou Gorbatchev, da mesa, aos gritos, dizendo-me adepto de Trump, fascista, mais do que tudo “estúpido”, e “sem a razão da história”. Comunista até 1991, o filhodaputa, sem qualquer olhar para as desgraças que apoiou. Sabedor dos massacres, da desgraça, de tudo aquilo. Grita-me numa sala de gente que eu não conheço, convidados da aniversariante. “Sem a razão da história” berra, assente no poder que tem agora, desta puta de geringonça, dos herdeiros do Miguel Portas que são ele, do Pina Moura que são ele, do PCP que foi ele. Berra depois, nos tons catedráticos que são os deles, para a aniversariante, que “não está para vir a jantares com tipos de direita”, nós, presumo, eu e qualquer outro à mesa, não temos lugar à mesa, deveremos mitigar algures.

Eu tenho 50 anos, ele 60, foi meu professor e ficou meu querido. Mas estou para lhe bater. Filhodaputa, comunadocaralho. E penso isso enquanto rebolo o copo de vinho, olho em volta à procura da aniversariante, busco a  minha menina, que ambas me acalmem, e não estão, decerto lá na cozinha, à volta dos comeres e beberes, tantos são os convivas, gélidos agora diante do despautério do comunista, do gajo do massacre, do adepto do holocausto. Toquei-lhe na geringonça, ao filhodaputa, e já acha, como dirá nos corredores da casa, na cozinha, no quintal, que não tenho lugar no jantar ao qual ele vem. No país que é, agora, o dele.

Espero 48 horas, enquanto amigos me telefonam a matizar a coisa, a remeter para os psicologismos de pacotilha aquele tamanho despautério. Depois comunico-lhe “48 horas para me pedires desculpa, e nada.”. Digo-lhe, na mesma mensagem, e na sequência disto, que ele, ex-PC, ex-BE, hoje geringoncista, se vá foder. Sei que agora, no poder, para ele, não tenho lugar no jantar a que ele vai, no país em que quer mandar. Sei, intelectual renomado que é, que se pudesse me faria o que os seus sempre fizeram: fuzilar. Sei como ele se chama, sei os seus livros e textos, continuarei a lê-lo, a recomendá-lo, a referi-lo, a elogiá-lo. Sou um gajo do caraças. Ele foi meu professor. É um filhodaputa. Um comunista. Hoje geringoncista.

Se a vida lhe tivessse permitido ter-me-ia morto. Eu leio-o. Recomendo-o. Sou muito mais do que ele. Muito mais do que tu, ó comuna.

Vigilância epistemológica

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(Ashanti Exhibition at the Retiro Parc, Madrid, 1897 (Photografh: A. S. Xatart). Museo Nacional de Antropología, Madrid. )

No meu correio electrónico recebo uma mensagem circular, emanada de um centro de investigação a que me associei ao regressar a Portugal. Trata-se de um convite para participar numa passeata – um “passeio científico” – pelos arrabaldes lisboetas, num bairro habitado por significativa percentagem de oriundos – em primeira geração ou seus descendentes – de África, realizada sob o intuito de conhecer as expressões (e organizações, presumo) de índole cultural dos residentes oriundos. O propósito desta actividade é desde logo explicitado no seu anúncio, o de permitir que essa iniciativa produza a conclusão entre os participantes de que esses habitantes – vizinhos, por assim dizer – têm “cultura”, pelo que são “pessoas” e têm e são “património”.

Ao ler a tal mensagem fico estupefacto diante do ecrã. Mesmo estuporado. Pois é mau demais isto de em pleno 2016 a academia portuguesa surgir – e nada distraidamente – a promover um “passeio científico” destinado à observação no seu habitat de gentes de outros países/continentes. E para que dessa “observação” in loco brote uma tão iluminada conclusão, a da “humanidade” desses afinal exóticos, assim até dubitativos congéneres dado que a necessitarem de uma (urgente) confirmação desse estatuto homólogo.

E pior ainda segue que dislate seja divulgado – e como tal acarinhado – pela confraria profissional dos antropólogos, e através do seu oficial centro de investigação. Pois desta corporação profissional até qualquer incauto esperaria um mínimo de competência intelectual para perceber que isto se trata de uma amadora, até infantilizada, recuperação da mundivisão constitutiva das velhas “exposições coloniais”. E que ressurge agora ao serviço de um “activismo” social, assim (ainda mais) bacoco.

A coberto das tradicionais e sempre infernais boas intenções, da chamar a atenção sobre vivências e direitos de imigrados desapossados – e alguns refugiados -, deste modo se regressa, sob subsídio estatal, ao despudorado grau zero da reflexão, numa total inexistência de vigilância epistemológica. Entretanto, as instituições subsidiadoras, estatais – e não só – agradecem esta automutilação intelectual, alienante. Pois sob este molde de impensamento a verve dos “intelectuais” até pode ser crítica mas, como é óbvio, quem vai assim não conta nem fere. Apenas perora, sobre agendas que lhes encomendam, entoando os trinados em voga.

Enfim, resta este funcionalismo público, escorado na ideologia da autonomia dos “ofícios” e suas guildas, apoiado (e apoiando) os seus sempre-amigos subsidiados, um lúmpen pois de facto dependentes. E vai esta mole sossegada consigo mesmo: a dos que gostam de “pretinhos” (ou de estranhos de outras cores e feitios) e de os visitar em seus sítios, vê-los tal e qual eles “são”, escorados e até adaptados no seu meio ambiente, tão interessantes, tão culturais, tão humanos mesmo…

E não há mais nada para além desta gente… e das suas tão atrapalhadas certezas. E “activismos”.

Georges Duby

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Defender uma tese de doutoramento consiste em apresentarmo-nos cerimoniosamente perante cinco ou seis mandarins empoleirados num estrado, em pousar na pequena mesa a que nos apoiamos, duas, três, mesmo quatro volumosas brochuras, em resumir brevemente o seu conteúdo, ansiosos, temendo a questão que nos encostará à parede, em andar febrilmente às voltas com as eventuais respostas que desejaríamos elegantes e sagazes, e depois, em ouvir um por um cada membro do júri que, saboreando nesse dia a desforra da sua juventude perdida, se esmera por brilhar perante a assistência à custa do candidato, procurando as falhas de um texto que em geral leu, é preciso dizê-lo, atentamente, e, se as não encontra, fazendo incidir as suas críticas para a “forma” ou para as lacunas da bibliografia, enfim, no final de uma tarde interminável, em ouvir-se, no meio de um nevoeiro de fadiga, ser declarado doutor e em oferecer, então, um bebida aos seus camaradas. Trata-se de um rito iniciático bastante cruel no final do qual, o “aprendiz”, tendo apresentado a sua “obra-prima”, é recebido entre os mestres. Emprego deliberadamente o vocabulário das corporações medievais, já que, nos nossos dias, os seus usos se conservaram melhor nesse meio eminentemente conservador e rotineiro que é a universidade do que em qualquer outro lado.” (57)

Com a idade, docemente empurrados pelos mais jovens – é a vida -, entramos sem nos apercebermos nesses espaços frios, solenes, onde estão encerrados os antigos, ordenados, embalsamados em honras, onde, sobrecarregados de penachos, de gládios, de rosetas se comportam como distintos figurantes nas liturgias do poder intelectual. A sua função principal já não é agir. Aquilo a que polidamente chamamos sabedoria será algo mais do que um definhamento da actividade criadora? Tudo o que lhes é ainda consentido é aconselhar aqueles que agem.

Directores de tese, por seu turno, concentrando o seu ressentimento no outro lado da barreira durante as longas e enfadonhas horas de defesas de tese, fazendo também parte de outros júris onde são distribuídos prémios, recompensas; membros, depois presidentes de conselho de todas as espécies, benévolos, porém profusamente recompensados pela ilusão de serem poderosos, já não executam encomendas, eles próprios as distribuem para colecções de que um editor os encarregou. Gostam de ganhar dedicações, decidem lugares, defendem os seus apaniguados, patronos, sobretudo padrinhos. Se, como mostrou Marc Bloch, a feudalidade repousa numa trama de laços pessoais, a pequena sociedade emproada que os universitários formam em França, pode ser dita, a justo título, feudal. É um tecido de clientelas. Vassalos durante muito tempo, forçados a venerar e a servir um mestre, estes veteranos tornados senhores defendem avidamente os seus feudatários. Por meio de um contrato tácito, e quase sempre respeitado, as graças que receberam obrigam estes últimos a não se oporem àquele que os ajudou.”  (115-116)

(Georges Duby, A História Continua)

 

Balandier

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Morreu hoje, aos 95 anos, o antropólogo francês Georges Balandier, nome lendário dos estudos sociais em África. Enorme obra, enorme dívida que lhe temos. Deixo ligação ao texto que o Le Monde publica, da autoria de Jean Copans, outro célebre antropólogo francês: “A morte de Georges Balandier“.

E deixo uma entrevista, uma hora de Balandier, feita em 2009. A ver, a lê-lo, é a forma do nosso luto, sentido:

O obscurantismo

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Sobre o tecno-politiquês: políticos, urbanistas e antropo/sociólogos (e até jornalistas) vêm usando muito o anglicismo “gentrificação”. Como não sabia o que era fui-me informar. Percebi-a, é um biombo político. O processo a que se aplica é apenas social; já a vontade de o velar através do neologismo é tão reaccionária que até dói.

Em português diz-se exactamente (por etimologia e por semântica) “nobilitação” (enobrecimento, se se quiser). Mas se quisermos seguir a etimologia percebemos que poderemos dizer, por consciência histórica, “aburguesamento”. Os mais puristas poderão recuar até ao sânscrito e dizer “racialização”. Os menos ecuménicos poderão dizer “paganização”. Os mais poéticos poderão dizer “encantamento”, mas esta é uma deriva gaélica, zona muito dada a essas brumas, como se sabe.

E “gentrificação”? Dizem os do tecnocrês, do politiquês. Os que, com o termo, nos querem enganar. Ou, por outra, “aviltar” – exactamente o oposto da tal “nobilitação”.

Não há nada como a má disposição para se aprender a língua. E para perceber, sem ironia, que a sociedade tem que despedir os “intelectuais” que o Estado contrata para as enganar.

Giulia Cavallo, exposição no I.C.S.

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Agitado momento, o da antropologia em Portugal. Na última semana decorreu em Coimbra o congresso da respectiva associação portuguesa. Dizem-me que aconteceu de forma muito organizada, o que é de realçar e saudar, pois estas realizações são muito trabalhosas e não são – como porventura nos eventos similares de outros ramos mais “aplicados” – operadas senão com o trabalho extra e voluntário de professores e alunos. Ao que me disseram estrangeiros de lá regressados, em mera escala lisboeta, estão de parabéns os antropólogos da universidade de Coimbra. Se alguém conhecer algum faça o favor de o informar que o “Courelas” o saúda …

Logo de seguida, aqui em Lisboa, no Instituto de Ciências Sociais (entre a Biblioteca Nacional e a Av. das Forças Armadas), inaugura-se hoje mesmo uma peculiar exposição: “Quando os caminhos estão fechados”, de antropóloga italiana Giulia Cavallo por cá residente. Trata-se de uma experimentação discursiva, abordando através de “linguagem visual” (ilustrações, presumo) o universo que abordou na sua investigação de doutoramento, dedicada às igrejas Zione em Maputo, assim procurando tornear o texto académico como única forma de apresentação dos resultados científicos.

O que ali se retrata são as crenças em espíritos das mulheres dessas igrejas, num eixo de apresentação de uma “etnografia da dor” e dos articulados “processos de cura”.

 

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Julgo que será de visitar, e não só por antropólogos. A exposição inaugura hoje, lá para o fim da tarde. Não afianço a existência de chamuças, até desconfio que tamanho desiderato não será cumprido. Ainda assim, fica a proposta, seja para hoje, seja para o restante mês de Junho.