Mozambique e Dylan e vice-versa

desire

Continua o affaire-Dylan, os adeptos e os adversos. O debate segue entre os grão-leitores (por exemplo  aqui vs aqui). Mas também entre nós, os algo-leitores, e entre os quase-nada-leitores. Pois opinar sobre prémios literários é reclamar uma condição “lectural” (aqui  falta-nos mesmo o termo, que “leitora” não me chega, apesar da tradição universitária). E opinar sobre o Nobel literário é também um culto, distraído, como se o prémio Nobel fosse mesmo o barómetro do cânone, pudesse ungir, e como tal surja universal, “nosso”.

Continue reading “Mozambique e Dylan e vice-versa”

Táxi

taxi

De repente o tempo passou. Sem perceber como fiquei cinquentão. A minha mana, sempre um miúda e com o olhar disso, está sexagenária. Tal como o mano-velho, claro, este quase nos setenta. Aos quais chegou, agora, o meu cunhado, que é mano também e não só por em breve cumprirmos as nossas bodas d’ouro, e onde estaria a aportar o nosso mais-velho se não tivesse morrido com a idade com que eu vou agora. Nisso a nossa mãe [eu insisto, quando me ouvirem dizer, arrastando, “a mãe” interditem-me e internem-me] está nonagenária. Quando aqueles que a conhecem me perguntam como está ela digo sempre, sabedor do que as pessoas esperam dos resultados da idade, “de cabeça está melhor do que eu”, o que de per si não será grande coisa, eu sei, mas que serve para assinalar que não perdeu as faculdades intelectuais, como a tantos acontece. Mas perdeu alguma mobilidade. Por isso quando sai de casa usa uma cadeira de rodas, caminhando depois as distâncias mais curtas.

Para seu conforto, e também nosso, nessas saídas usa um táxi, destes preparados para as cadeiras. De há anos a esta parte o taxista é quase sempre o mesmo. Competentíssimo, pontualíssimo, atenciosíssimo. Simpaticíssimo. Sem ponta de servilismo. O Paulo L. – a quem eu trato pelo primeiro nome e apelido, como os homens se tratam (algo que os juízes portugueses passaram a desconhecer) mas aqui não lhe desvendo a identidade – transporta a minha mãe quando ela sai para convívio familiar ou outro, para um museu ou concerto, para o médico, etc.

Continue reading “Táxi”

Banco CTT

fachada_loja-ctt

Dantes os CTT eram os “correios”, a gente ia lá para enviar cartas (que eram papéis dedicados às gentes amadas ou conhecidas, escritos à mão quando isso ainda ainda se fazia), postais ilustrados (que eram os antepassados dos “posts” de FB, escritos quando se ia de férias) e, de vez em quando, encomendas. Ia-se lá para comprar os selos, e colá-los, e para isso usavam-se uns pesados frascos de cola pastosa e seus pincéis. E também para telefonar, nos telefones públicos, quando se estava no “país real” (na província, como se dizia então) ou nas estâncias balneares. E, cúmulo da tecnologia, telegramas, que eram os SMS daqueles tempos, quando a urgência apertava. Entretanto o mundo mudou, primeiro veio o “Correio Azul”, pagava-se mais para enviar a correspondência de forma mais expedita e depois o resto todo. Depois os telemóveis, que haviam sido um sonho de ficção científica. E depois o antes inimaginável email, que tanto prejudicou os taxistas do correio, então ditos carteiros. E tantas outras coisas.

Os CTT mudaram. A empresa diversificou os seus serviços, a sua oferta ao público. E foi privatizada, adquirida por investidores do melhor que há. E associou ao velho serviço postal um banco, decerto que captando a simpatia que nós, povo, sempre tivemos com a empresa, transportadora das notícias queridas. Ou nada amadas, mas necessárias. Mas mantém o seu serviço postal, a trave mestra da relação do grupo  com o povo.

A minha filha vive em Bruxelas, a Brasília da Europa. Passou aqui as férias de Verão. No início do ano lectivo voltou. Partiu, levando-me o único bocado cá de dentro significante. Mas esquecendo um pacote de fotocópias, as pautas que utiliza para aprender piano. Depois pediu-me que as enviasse. Assim fiz, dirigindo-me à estação CTT. O envelope das pautas fotocopiadas era algo bojudo.

Em correio normal, aquele correio que estabeleceu as relações de confiança deste povo com os “Correios”, custa o envio 6,5 euros, 1300 escudos em moeda de gente. Em correio registado (ou “azul”, se é que isso ainda existe) seria muito mais. A entrega seria um pouco mais rápida, mas em normal demoraria entre 5 a 8 dias. Eu sou um velho, ainda dos “tempos” dos “Correios”, confiáveis. E falta-me o dinheiro, tenho que o poupar. E a urgência não era dramática. Enviei as pautas fotocopiadas no sempre confiável correio normal, paguei os tais 1300 escudos, uma boa quantia para mandar umas folhas.

Passado um mês o envelope não chegou. Fui à “estação dos CTT”, narrei o acontecido ao funcionário, simpático. “Extraviou-se”, disse-me. “Não há nada a fazer”, o “correio normal não deixa rasto”. “Pode fazer uma reclamação”, e foi-me buscar os impressos, “mas só receberá um pedido de desculpas”. Ou seja, a opção da empresa é enviar correio normal, como o fez desde que foi fundada, sem ter possibilidade de saber o que acontece com isso. Se alguém quer ter segurança tem que pagar mais.

Ao lado, mesmo ao lado do simpático funcionário, está o balcão do “Banco CTT”. Mesmo ao lado. Nunca na vida colocarei a hipótese de o usar. Às pessoas que venham ler este blog (ainda as há) só posso perguntar: “Quer(es) um conselho?”. E se o quiserem, se o aceitarem, boto-o: nunca utilizem o Banco CTT. Pois se a empresa é tão incompetente, e malvada, no negócio que lhe foi génese, como confiar neste novo  negócio em que se meteu, como confiar-lhe as nossas poupanças?

É o mundo do aldrabismo. Miserável.

 

Sobre o racismo no metropolitano

Metro1

Há muitos anos, décadas, talvez ainda nos 70s, porventura no início dos 1980s, li uma frase, não recordo nem autora nem local nem tampouco a sua forma exacta, que se tornou a base do meu feminismo: “a igualdade de género é o direito das mulheres à incompetência”, assim mesmo, iguaizinhas a nós-homens, tão e tantos incompetentes, sem nada mais terem a provar do que o que nós temos. Muito me lembrei disso há bem pouco, e sem nada ter a ver com os direitos das mulheres.

Continue reading “Sobre o racismo no metropolitano”

Aposta

praia

Fiz uma aposta assimétrica com uma amiga. Quanto daqui a algum tempo (indeterminado) num qualquer local europeu aconteça incidente ou movimento tendente ao impedimento, constante ou momentâneo, de que as mulheres frequentem as praias nos trajes de veraneio em uso habitual no continente, devido ao argumento de aquele local é (será, então) maioritariamente frequentado por residentes a quem lhes desagrada a relativa exposição pública do corpo feminino, até devido à sua religião islâmica, então ela pagar-me-á uma abundante refeição constituída por peixe, vinho e uísques, múltiplos.

Mais avanço que durante essa futura refeição eu lerei trechos destes (então já antigos) artigos: de Fatiha Daoudi;  Ilya TopperLuís Aguiar-Conraria; Sofia Amaro, Yasmin Alibhai-Brown. Depois perorarei sobre este texto de Scott Shane. E alguns outros que fazem parte da “cultural geral” para quem se interessa sobre estas coisas do “ir a banhos”. Estou certo que essas leituras e perorações incrementarão a velocidade com que ela, a pagadora, mandará vir mais garrafas para a mesa, procurando entremelar-me a mui justa língua.

A nova praça de largada de passageiros no aeroporto da Portela

dropoff

Desde a semana passada que no aeroporto da Portela foi modificado o acesso ao sector de “partidas” do Terminal 1, instalado um sistema com cancelas associado ao pagamento da estada automóvel. Os primeiro dez minutos são grátis. Venho de lá agora mesmo. Entrei, parei, retirei a mala do porta-bagagens, despedi-me da passageira, dei a volta ao pequeno parqueamento: 11 minutos. Os condutores a apitar, em resmungo matinal. Em cada cancela, de entrada e de de saída, um funcionário, a ajudar, aquele que nos recebeu a dizer “grande engenheiro, lá na secretária, que desenhou isto“, num sarcasmo de desprezo pela ANA Aeroportos de Portugal ou qualquer outra instituição daquilo responsável. O agente da PSP que ajudava ao fluir do desesperado trânsito mandava a boca “isto é uma obra à portuguesa“, em evidente desmerecimento daquela tralha. No passeio uma passageira lamentava “eu estou no meu país? …“.

Nem tenho melhor maneira de explicar. Uma obra simples, simplérrima mesmo. Totalmente mal-feita, um todo absurdo, uma trapalhada. E a gente a perder tempo e a irritar-se. De certa forma o espelho desta Lisboa feita estaleiro. Mas pior ainda, uma vergonha, um cúmulo de incompetência e de desprezo. Pelos clientes das companhias aéreas, pelos cidadãos.

A idade

E porque vem a propósito de um postal desta semana recoloco um outro postal que meti no velho ma-schamba por coincidência há exactamente dez anos [20.8.2006], referindo outro contexto social de categorizações etárias:

 

18 de Agosto de 2006, 19 horas e alguns minutos…Começo assim, deixando data e momento exacto, que a coisa assim o exige, aos quais junto o local, a esquina da 24 de Julho com a Nyerere, no semáforo fronteiro do Nautilus, “montra dos tugas” como tantos sorriem ou resmungam, que disso não me ocupo aqui.Paro ao sinal vermelho e logo, entre o passeio e o carro, acorrem duas pedintes, mães de bebés ao colo, e são as crianças na noite fria que me distraem enquanto lhes dou as parcas moedas (um pão a cada?). Estou nisso quando, súbito, uma voz me surpreende neste meu lado, mesmo junto a mim. Volto-me para esta outra janela no enfrentar o susto – uma velha mendiga, dizendo-me pausadamente “Estou a pedir ajuda, vovô…”. Olho-a devagar, decerto arregalado, espantado, e nem reajo ao pedido. Mas, ainda que nessa quietude, logo consciente do que está a acontecer. Uma leve buzina anuncia o sinal verde, e dali saio com vagares, algo trôpego, até sem nada ter dito ou dado à mulher. Sigo assim pela avenida, neste implacável caminho sem regresso. Desde esta minha primeira vez de “vovô”.

Metropolitano

Há trinta anos, talvez um pouco mais, o meu pai, então já sexagenário, chegou a casa algo alquebrado, entre o excitado e o angustiado, “ora esta …”, narrou veemente, “entrei no  metropolitano e uma rapariga, bonita ainda por cima, levantou-se para me dar o lugar!“, e não era com sua habitual ironia que vinha, havia sido atingido, de surpresa, por aquela primeira vez. Não me lembro do que lhe disse, apenas de sorrir e de tentar embrulhar aquilo de boa disposição, enquanto ele terá ficado a resmungar em torno do habitual uísque do fim de tarde.

O tempo que passou muito mudou as coisas, o meu pai envelheceu mesmo e morreu. E nisso também mudaram os jovens lisboetas, talvez fartos dos velhos, dantes até escassos mas hoje tantos, e nisso raríssimo é ver alguém levantar-se para ceder lugar a um mais-velho e nunca a uma senhora. Ontem, e junto-lhe a data, 15 de Agosto de 2016, entrei no metro logo atrás de uma septuagenária ainda algo bem-posta, daquelas remediadas, as do empobrecimento dos reformados, disso a disfarçar-se sob um cabelo preto-avermelhado, aquela cor celebrizada pelo Vítor Constâncio. Carruagem cheia e logo um mais-novo, nos cerca dos vinte anos, gentil, que ainda os há assim, se levanta para lhe dar o lugar. À sua frente o seu amigo vira-se para mim e “também se quer sentar?” e faz menção de se levantar. Até salto, em sobressalto, e respondo-lhe veemente “ainda! … obrigado” e só depois recordo que não estou em Moçambique e, por isso, emendo-me “ainda não … obrigado“, já sem energia para a exclamação.

E sigo em pé, até ao meu destino. Volto a casa. No dia 15 de Agosto de 2016, repito. E falta-me o meu pai para eu, alquebrado, entre o excitado e o angustiado, sem a minha ironia, pois atingido de surpresa, lhe contar isto, esta minha primeira vez que me aconteceu tão mais cedo do que a ele. E o ver sorrir, embrulhar o momento de boa disposição. E assim bebermos o habitual uísque do fim de tarde.

Regateio

Após o almoço vimos os dois, eu e o meu amigo, fumar à porta do restaurante, ali à Alameda, centro de Lisboa. Nenhum de nós tem lume, nem tampouco os empregados mais próximos, coisa do agora, que nos tempos dos criados de mesa todos eles tinham um isqueiro para alumiar os clientes. Avanço meia-dúzia de passos ao quiosque ali defronte, a perguntar se “vende fósforos?”. O vendedor , que aparenta ser do Bangladesh ou Paquistão ou uma qualquer vizinhança, Nepal talvez, enfim, um dos “galegos” de hoje-em-dia, não me percebe e eu repito, mais lento, “tem fósforos?”. Sorri e estende-me um pacote de lenços de papel. Então peço-lhe em inglês, compreende-me, aponta-me umas caixas de fósforos de cozinha, não as quero, gesticulo-lhe por “uma pequena”. Tem, e dá-ma, “um euro” diz. Rio-me, engulo o palavrão e troco-o por “nada”, não lhe pego na caixa. Riposta logo “cinquenta cêntimos”, e eu, espantado por assim ser neste agora, resmungo-lhe “é caro, não quero …” e apresto-me a partir, alguém me dará lume. E ele “Senhor, Senhor”, e eu “o quê?” e ele “Quanto paga?”. Mais do que tudo estou mesmo é espantado, mas quero fumar e digo-lhe “vinte cêntimos” e ele “é pouco, trinta”. E eu insisto, “vinte, só pago vinte”. Dou a pequena moeda e ele troca-a pela caixa de fósforos.

E lá fico eu, nós, a fumar(mos). Esta nunca me acontecera, regatear o preço de uma caixa de fósforos. E à frente do Café Império. Alguma coisa mudou no comércio de rua desta capital.

A demência

cage

Vejo na tv o muito medíocre “Vingança ao Anoitecer”. Mas chama-me a atenção isto do Nicolas Cage, actor de filmes muito desiguais, estar a representar um velho já em processo de demência. Choca-me, conheci-o no filme de geração “Rumble Fish”, filme da nossa geração, vê-lo já a fazer de velho terminal espeta-me na cara que afinal todos nós, os desta geração, já estamos assim, na antecâmara da velhice putrefactora.

É agora, neste filme, que me apercebo que a nossa geração (a do “Rumble Fish”) já está assim, abarcável pela imagem da demência por degenerescência etária. E, contrariamente às anteriores, vamos viver muito tempo assim. E teremos estes FBs (as “redes sociais”, os “pokemons”) para gritarmos, botarmos diariamente a demência, o seu progresso involutivo. E, se calhar, alguns de nós já lá estamos, nessa demência pública, sem disso nos apercebermos (o que é condição dessas malditas doenças).

Sabendo isto não será já de constituir grupos de ajuda, quais filtros, para evitar que venhamos nós a demenciar em público, nesta internet? Para podermos degenerar em privado, para que nos auto-protejamos?