Lost in translation

onu

A ONU – Organização das Nações Unidas – traçou um perfil desejado para o sucessor de Ban Ki-moon no cargo de Secretário Geral: uma mulher oriunda do leste europeu. A julgar pelo resultado não parece poder dizer-se por melhor boa vontade que se tenha, que o escolhido António Guterres preencha qualquer dos requisitos.

guterres

Acrescente-se que na perspectiva portuguesa, habitualmente paroquiana nos apoios, paradoxalmente invejosa nos sucessos, mas sempre na brecha para as mais elevadas posições internacionais desde o saudoso Pedro Hispano, que ficou conhecido por  João XXI ao sentar-se na cadeira de São Pedro no algo distante séc. XIII, a Durão Barroso, um antigo criado de mesa na Esplanada das Lages, ex- presidente da Comissão Europeia e actual bancário, passando por um esquecido Freitas do Amaral que também foi administrativo na ONU, havia gente  AINDA com mais qualificações do que António Guterres a quem aproveitamos para saudar pelo feito. Não sendo facto isolado ou surpreendente dada a natureza da ditosa Pátria que tais filhos tem , lembremos que o papa J.N. Pinto da Costa no auge do seu pontificado e do alto da sua infalibilidade, afirmou in illo tempore ser Fernando Santos o melhor homem do Mundo. Ora acumulando essa faceta ímpar com o título de campeão europeu de futebol e uma capacidade canora formidável (foto obtida enquanto Santos entoava “A Portuguesa” com fervor patriótico equivalente ao de Nuno Álvares Pereira, Afonso de Albuquerque ou mesmo o filho de Ledegunda Soares Taínha de Baião, o bom e velho Gonçalo “Lidador” Mendes da Maia), trata-se de uma tremenda perda não se ter atirado ao prestigiante lugar, mesmo descontado que tem mais com que entreter do que maçar-se com a paz mundial entre homens de má vontade e interesses obscuros. Fica para a próxima.

dsc_9787

 

 

Payet?

Aaron+Ramsey+Russia+v+Wales+Group+B+UEFA+Euro+JBH5P_ZZriol

Parece que a escolha do melhor jogador do torneio Euro-2016 foi realizado através de um algoritmo. É uma forma de nomear o MVP (jogador mais útil), algo que o basquetebol americano pratica há muito tempo, e que descarta os debates patetas sobre quem é o melhor jogador – as questiúnculas entre messianos e ronaldianos são um exemplo do ridículo e, fundamentalmente, uma mostra de como não se gosta de futebol. Como é que alguém que gosta do jogo pode apoucar o genial Messi? Ou o fabuloso CR7? Mas esta opção também sublinha um aspecto quantitativo, estatístico, tacticista se se quiser, ao jogo, descurando o que o povo da bola gosta, a “arte”, o talento puro. Depois queixem-se do estilo de jogo actual …

Vi poucos jogos (nem os de Portugal vi todos) e não posso falar com grande conhecimento. Ainda assim opino: do que vi de Payet, jogador que não conhecia, gostei – menos daquilo da final, a tradicional porrada inicial na estrela (ou avançado perigoso) adversário, essa que pode (como ele diz) não ter sido para arrumar mas que foi decerto para “por em sentido” o CR7. Como tal não acho escandalosa a escolha, embora vá ficar sempre maculada pela dita arrochada na estrela adversária em plena final.

Mas, para mim, o melhor jogador do Euro, aquele que trouxe a magia, o futebol que anima as bancadas (ainda que talvez não os actuais bancos de técnicos) foi … Aaron Ramsey, o 10 galês.

O Euro acabou e …

euro

O facebook é um instrumento de comunicação muito mais limitado do que isto dos blogs – os textos são muito menos manuseáveis e legíveis e o formato exige-os mais curtos, quase meros cabeçalhos. E quem tem um blog ecoado no fb sabe perfeitamente que há  muitos leitores que “gostam”, assim assinalam a simpatia, sem terem lido os textos, o que é algo muito carinhoso mas um pouco descoroçoante. Mas tem uma vantagem tecnológica, a do imediatismo, pois exige muito menos clics para botar algo, e ainda menos para ler o que outros botam, e para além de ter os comentários abertos, o que convoca debates que já inexistem no comum dos blogs.

Digo isto para enquadrar este textito. Depois de ter inalado o verdadeiro speed-cristal produzido no laboratório do Engenheiro Fernando Santos, essa mescla alquímica de Lelito, Patrício (a quem cognominei “A Muralha de Lisboa”), CR7, Pepe, João Mário e etc, para além da cola Eder, logo naqueles minutos pós-vitória deixei de rajada no meu mural de FB esta jaculatória ateia, modo de abraçar os meus lá longe em Moçambique. Como hoje já é “outro dia” aqui a replico, para minha memória:

***

Postal saudoso para os meus muitos amigos moçambicanos e muitos mais conhecidos moçambicanos: a gente aqui, na minha terra, na minha cidade, está eufórica, ganhámos o caneco da bola! Chora-se à minha volta. Vale o que vale. Ou seja, imenso. E, (como qualquer tuga dirá), é “do caralho”! Deixemo-nos de merdas, pelo menos hoje, a história foi o que foi, mas a gente pode comemorar hoje, a história é “só” o resto. Gostava de estar estar aí, a comemorar (decerto a apitar como um louco à porta do Franco-Moçambicano, que até dirigi). E a abraçar quem quisesse ser abraçado. E abrir milhares de 2Ms (ou Manicas, que não sou regionalista). E amanhã, como disseram no cinema, “é outro dia”.

 

Uma era histórica para o português

eder

A vitória da selecção nacional de futebol no Euro-2016, neste ambiente mediático sobreaquecido pela concorrência dos inúmeros órgãos de comunicação social, potenciado pelo meios de expressão privada (aliás “redes sociais”), indiciam que vivemos uma era histórica do português. É certo que qualquer observador mais interessado podia ter constatado isso anteriormente mas agora temos a expressão pública, a modos que oficial (oficializada pelos mass-media): o calão mais peludo, mais profundo, está sufragado.

Se antes consignado às classes mais populares e aos ambientes da rude construção e reprodução de ideais de masculinidade, e por isso surgindo nas representações literários/artísticos desses contextos, ele tem-se vindo a espalhar. Devido ao ideal da igualdade de género, que implicou a reclamação feminina de praguejar alto e bom senso. Pelo relativo esbatimento das hierarquias sociais, com a popularização da burguesia, a “classemedianização” urbana, que a todos faz partilhar um léxico e uma semântica, e que elide a contextualização do praguejar, tornando-o comum, corrente e sem limites contextuais. Agora, depois da explosão mediatizada deste Euro, não haverá volta a dar, o calão está adoptado para uso corrente a céu aberto.

Há quem goste, deste império da “caralhada”. Eu não. Angustia-me. Pois teremos que criar um novo léxico para nos escaparmos deste “senso comum”, para firmarmos áreas e modos discursivos marginais, vulcânicos, agressivos, até “desviantes”. Precisamos deles. Não precisamos, mesmo, do esvaziamento, da neutralização social, destes riquíssimos instrumentos.