Queixismo

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Um tipo lê o noticiário desportivo português e percebe que a nova ideologia dominante no país é o queixismo. Não há paciência …

A culpa é do Palhinha

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(Também) Mea maxima culpa: a gente, arrogante, ri-se de Jesus, o treinador da bola que fala mal, que “amanda” coisas como “bocejados pela sorte”. Somos urbanos, formados, educados, fomos “bafejados pela sorte”. Neste caso pior ainda vou eu, sempre a resmungar contra os “indignismos”, os bafejos de intelecto cheios de certezas denunciatórias.

Pois no sábado o Sporting perdeu, Jesus (um tipo conhecido por dar estritas instruções tácticas aos seus jogadores) veio à entrevista e disse “(o jogador) Palhinha levou o guião errado para o jogo ….”. Caí-lhe eu em cima (“inadmissível”, “imoral”, “a culpar o miúdo”), e tantos outros também. Ora, de facto, o homem falou muito bem, com ponderada metáfora, o autor do guião não é o actor (jogador) é mesmo o dramaturgo/argumentista (treinador). Ou seja, o homem foi elegante, na forma como se expressou e como assumiu o erro próprio, a responsabilidade da derrota. E eu culto, “dono da língua” (ainda que não vá sozinho nesta cagança), não o entendi. E como tal logo me botei a bramir os meus bocejos denunciatórios, os meus bafejos moralistas.

Verdade, verdadinha, mais vale que Jesus vá atropelando a língua de vez em quando. É que eu (e, repito, não vou sozinho nisto) não entendo(emos) quando se fala bem. O problema – bem para além da bola, pois em tantos outros assuntos – é mesmo esse.

Benfica-Sporting de ontem: o trinco vai nu!

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Benfica-Sporting de ontem: aqui entre nós, e prontos paciência, aqueles jogadores Nelson Semedo e Pizzi, vê-se bem nos filmes, fizeram o que se chama penalti. Mas de facto perde-se devido à diferença entre a competência daquele Fejsa ou lá como se chama e a “elegância” pachola do William – perdi definitivamente a paciência, enterrou o Sporting em Alvalade nos dois golos do Dortmund, ontem de novo a perder a bola para golo no primeiro e miserável na cobertura no segundo. É um ídolo insuficiente, e falta uma criança para gritar “o trinco vai nu!”. Depois ainda temos o bónus Marvin (patético no pontapé no ar no segundo golo). Vamos deixar de falar em penaltis?

25 de Novembro – outra memória

Muito se fala do 25 de Novembro de 1975, dia fundamental da ainda jovem democracia portuguesa em que um punhado de bravos impediu a albanização de Portugal. É inegável a importância da data mas o 25 de Novembro de 1999 merece igualmente referência. Assim, aqui fica um resumo para que nunca se esqueça a gloriosa jornada em que uma pequeno clube da Galiza, na verdade um colosso do futebol mundial, vergou, humilhando, o maior clube do Mundo em jogo a contar para a extinta Taça UEFA.

Celta de Vigo – 7 / Sl Benfica –0

Celta 7-0 Benfica, 1ª mão da 3ª eliminatória da Taça UEFA 1999/00

Ficha técnica:

Celta de Vigo:

Dutruel; Velasco, Cáceres, Djorovic e Juanfrán (Coira 66′); Makelele e Giovanella; Karpin, Mostovoi (Tomás 75′) e Gustavo López; Mario Turdó (McCarthy 57′).
Treinador: Victor Fernández. Suplentes Não Utilizados: Pinto; Sergio, Celades e Kaviedes.

Benfica:

Enke; Andrade, Paulo Madeira, Ronaldo e Rojas (Bruno Basto 54′); Maniche, Calado (Chano 63′), Kandaurov (Tahar 45′) e Poborsky; João Pinto e Nuno Gomes.
Treinador: Jupp Heynckes. Suplentes Não Utilizados: Nuno Santos; Okunowo, Luís Carlos e Tote.

Disciplina:
Amarelos: Juanfrán, Cáceres, Tomás, Andrade e Ronaldo.

Marcha do Marcador:

1-0 Karpin 19′ G. P.; 2-0 Makelele 30′; 3-0 Mario Turdó 40′; 4-0 Juanfrán 42′; 5-0 Mario Turdó 50′; 6-0 Karpin 53′; 7-0 Mostovoi 62′.

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Para a partida da 2ª mão o russo Mostovoi disse ao treinador dos galegos que aproveitava para matar saudades de Portugal e fez-lhe um pedido pouco habitual: gostava de jogar sózinho contra o adversário. O treinador Victor Fernandez, homem compreensivo e dado à ternura, pediu ao russo que trouxesse à boleia o Benny McCarthy que andava entristecido por só ter jogado um bocadinho no Municipal dos Balaídos (Vigo) e que, por motivos de economia, não tinha feito o gosto ao pé e uma, mais uma, desfeita aos de Carnide. Enfim, lá vieram os dois por aí abaixo e o resultado acabou em 1 e 1 (golo do sul-africano para o Celta). Rezam ainda as crónicas que Mostovoi estava desgastado da noite anterior em que teria feito uma visita de estudo profundo ao zoológico alfacinha. Alguns frequentadores da noite da capital afirmam que dedicou especial atenção ao Elefante, à Pantera e ao Hipopótamo e que por um triz não fez uma festa à Onça por se ter ficado nas covas. As mesma fontes, fidedignas, acrescentaram à boca pequena que o seu amor aos animais não lhe permitiria fazer uma joga de encher o olho à águia.

Lost in translation

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A ONU – Organização das Nações Unidas – traçou um perfil desejado para o sucessor de Ban Ki-moon no cargo de Secretário Geral: uma mulher oriunda do leste europeu. A julgar pelo resultado não parece poder dizer-se por melhor boa vontade que se tenha, que o escolhido António Guterres preencha qualquer dos requisitos.

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Acrescente-se que na perspectiva portuguesa, habitualmente paroquiana nos apoios, paradoxalmente invejosa nos sucessos, mas sempre na brecha para as mais elevadas posições internacionais desde o saudoso Pedro Hispano, que ficou conhecido por  João XXI ao sentar-se na cadeira de São Pedro no algo distante séc. XIII, a Durão Barroso, um antigo criado de mesa na Esplanada das Lages, ex- presidente da Comissão Europeia e actual bancário, passando por um esquecido Freitas do Amaral que também foi administrativo na ONU, havia gente  AINDA com mais qualificações do que António Guterres a quem aproveitamos para saudar pelo feito. Não sendo facto isolado ou surpreendente dada a natureza da ditosa Pátria que tais filhos tem , lembremos que o papa J.N. Pinto da Costa no auge do seu pontificado e do alto da sua infalibilidade, afirmou in illo tempore ser Fernando Santos o melhor homem do Mundo. Ora acumulando essa faceta ímpar com o título de campeão europeu de futebol e uma capacidade canora formidável (foto obtida enquanto Santos entoava “A Portuguesa” com fervor patriótico equivalente ao de Nuno Álvares Pereira, Afonso de Albuquerque ou mesmo o filho de Ledegunda Soares Taínha de Baião, o bom e velho Gonçalo “Lidador” Mendes da Maia), trata-se de uma tremenda perda não se ter atirado ao prestigiante lugar, mesmo descontado que tem mais com que entreter do que maçar-se com a paz mundial entre homens de má vontade e interesses obscuros. Fica para a próxima.

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Taliscada

taliscaO Comité Executivo da UEFA reuniu de emergência para criar uma nova designação para golos conseguidos em períodos de desconto, ou seja, depois dos 90′ de jogo. A designação doravante adoptada foi inspirada no golo marcado por Anderson Souza Conceição conhecido no mundo futebolístico por Talisca no 1º jogo da fase de grupos da Liga dos Campeões entre o clube português SL Benfica e a agremiação turca Beşiktaş Jimnastik Kulübü. De notar que Talisca foi emprestado pelo slb aos turcos e, demonstrando grande profissionalismo a que alguns chamaram traição, mandou uma biscoitada para o fundo das redes de Ederson aos 93′ da contenda. Fontes vermelhuscas garantem estar de acordo com a designação agora adoptada, prevendo-se que sirva para outras situações excepcionais que prolonguem os horários ou calendários previamente definidos como sejam os pagamentos devidos pelo Estado ao incauto contribuinte ou a esperançosos empresários.

Os falhanços nas Olimpíadas

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Não há uma forma oficial de classificar países nas olimpíadas. A usual é por número de medalhas, há também o costume dos pontos por classificações finais dos atletas (em particular os classificados até aos 8º lugares) e há até a mais interessante de todas, cruzar os resultados com população e índices de desenvolvimento de cada país (neste caso a Jamaica em 1º lugar em 2012). Seja qual for a forma oficiosa (indicativa) escolhida Portugal nunca fica (nem ficará agora) muito bem na análise, mostrando um fraco grau de desenvolvimento desportivo. Por exemplo, 43º país no Índice de Desenvolvimento Humano em 2015 (não vamos assim tão bem, e declinando nos últimos anos) e ontem 78º no número de medalhas e decerto que coisa similar se por pontos na Rio2016. Alguns resultados muito meritórios não escondem a incapacidade de fazer crescer as representações olímpicas, a fragilidade dos desportos colectivos, a reduzida diversificação das modalidades, e particularmente se comparados com países com dimensões económicas e demográficas algo similares. E explicitam que o esforço de desenvolvimento desportivo, sob o paradigma “Moniz Pereira”, após meados de 1970s e 1980s não continuou em crescendo.

Há quem proteste, que não se pode dizer isto porque é apoucar o esforço e dedicação dos atletas. Erro, dizer isto é valorizar os que ainda assim se vão destacando. Alguns, idealistas, remetem esta óbvia constatação para causas morais, a falta de uma “paixão” desportiva na comunidade nacional. Outros, economicistas (e estatistas), remetem as causas para os reduzidos fundos estatais dedicados à preparação de alta competição. Outros ainda, mais sociológicos, remetem as causas para a falta de uma política educativa pública de fomento desportivo (mas sem se atreverem a questionar o monstruoso Ministério da Educação por essa sua abstenção). Ninguém estará mal nessas considerações mas eu lembro-me de outra coisa, talvez mais política.

Contrariamente ao resto do panorama o futebol (o de 11 masculino e as suas sequelas, de praia e de salão) tem tido um enorme sucesso nas últimas décadas. No topo em termos de clubes, e com regulares vitórias importantíssimas, no topo em termos de selecções de vários escalões, com grandes vitórias também. No topo em termos de jogadores, de treinadores. E até de árbitros e agentes promotores (Proença, Jorge Mendes, por exemplo). Tudo isso de uma forma consistente, desde há cerca de 30 anos.

Ou seja, a modalidade futebol, que é a mais procurada e importante no mundo, tem neste país médio e de economia pequena, um enorme sucesso internacional e extraordinárias classificações. Tudo ao contrário das restantes modalidades. Julgo que essa diferença tem que se relacionar com a excepcional capacidade dos seus dirigentes, os federativos e, fundamentalmente, os clubísticos. Que têm apoios, às vezes directos mas mais indirectos, do estado mas que acima de tudo perseguem os seus objectivos e das suas instituições de uma forma arreigadamente autónoma desse mesmo estado, usando-o mas dele libertando-se o máximo que podem.

A gente pode não gostar das suas figuras, dos seus perfis e dizeres, desde o decano e mais bem sucedido de sempre Pinto da Costa, de Vieira, de Carlos Pereira, de Júlio Mendes e Pimenta Machado, da família Loureiro, de Salvador, de Fernando Oliveira, de tantos outros e até do meu Carvalho. Mas são eles, no topo de clubes mais ou menos ecléticos mas centrados no futebol, que vêm mostrando o caminho de como se leva uma modalidade desportiva aos píncaros. E se calhar é isso que (também) falta às outras modalidades. Fundos públicos, paixão popular, infraestruturas, lei de bases desportivas, professores de educação física, treinadores, etc.. Ok. Mas, acima de tudo, grandes dirigentes desportivos. Autónomos.

Artur

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Morreu o Artur, o melhor lateral-direito português que conheci. Ainda me lembro da minha alegria quando ele mudou do Benfica para o Sporting (o “ruço” sempre foi benfiquista, que naquela época os jogadores tinham clube, não eram os simõesabrosas d’agora, e assim continuou mas não era por isso que menos gostávamos dele, e se calhar até mais, por respeito), e isto no tempo em que o Jordão também já o havia feito – mas via Saragoça, onde jogara uma época. Aquela era uma era gloriosa do Sporting, então presidido pelo Senhor João Rocha, um homem de grande gabarito que deveria ter servido de exemplo para as décadas posteriores mas, infelizmente, isso não aconteceu.

Lembro-me de vários jogos dele, claro. Muito mais de um Portugal-Noruega, em tempos difíceis para a selecção nacional. Vi este jogo no Estádio Nacional, o seleccionador era o Buda (Mário Wilson), lembro-me do meu desacordo de bancada com o benfiquismo dele, o que protestámos e praguejámos com aquilo – no banco estava o fabuloso Jordão, a jogar o medíocre mas benfiquista Reinaldo, uma coisa ainda hoje inacreditável. A selecção naqueles tempos (e durante muitos anos depois) era assim, e por isso tantos insucessos com tão bons jogadores. Lá para meio da primeira parte o Artur marcou um golo soberbo, vê-se nas imagens, pobres. Uns tempos depois estava eu no Dramático de Cascais, era o dia dos Ramones ou o do Mike Oldfield, não posso precisar (2 dias seguidos com coisas tão diferentes), e soube-se que o Artur tinha tido um “ataque cardíaco” (na altura não havia AVCs). Nunca mais jogou.

Há uns anos apanhei-o ali no Café Luanda, sozinho numa mesa. Levantei-me para o saudar (“oh pai …” envergonhou-se a minha filha, “lá estás tu”, terá pensado a minha mulher), contar-lhe disto, do golo à Noruega, de que ele era o maior como nº2, que tinha sido meu ídolo da bola, que já não se fazem jogadores assim. Riu-se, não se chateou com a intromissão, devia estar habituado aos adeptos veteranos.

Payet?

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Parece que a escolha do melhor jogador do torneio Euro-2016 foi realizado através de um algoritmo. É uma forma de nomear o MVP (jogador mais útil), algo que o basquetebol americano pratica há muito tempo, e que descarta os debates patetas sobre quem é o melhor jogador – as questiúnculas entre messianos e ronaldianos são um exemplo do ridículo e, fundamentalmente, uma mostra de como não se gosta de futebol. Como é que alguém que gosta do jogo pode apoucar o genial Messi? Ou o fabuloso CR7? Mas esta opção também sublinha um aspecto quantitativo, estatístico, tacticista se se quiser, ao jogo, descurando o que o povo da bola gosta, a “arte”, o talento puro. Depois queixem-se do estilo de jogo actual …

Vi poucos jogos (nem os de Portugal vi todos) e não posso falar com grande conhecimento. Ainda assim opino: do que vi de Payet, jogador que não conhecia, gostei – menos daquilo da final, a tradicional porrada inicial na estrela (ou avançado perigoso) adversário, essa que pode (como ele diz) não ter sido para arrumar mas que foi decerto para “por em sentido” o CR7. Como tal não acho escandalosa a escolha, embora vá ficar sempre maculada pela dita arrochada na estrela adversária em plena final.

Mas, para mim, o melhor jogador do Euro, aquele que trouxe a magia, o futebol que anima as bancadas (ainda que talvez não os actuais bancos de técnicos) foi … Aaron Ramsey, o 10 galês.