Graça Silva

graça silva a maquina(Em “A Máquina Extraviada”, fotografia de Yassmin Santos Forte)

De repente, totalmente inesperada, chega a notícia da morte de Graça Silva, uma das grandes actrizes moçambicanas, mulher belíssima, carismática no palco, encantadora no estrado da vida, na sua radiante simpatia e total simplicidade. Uma figura central do Mutumbela Gogo, o grupo bandeira do teatro nacional  …

motu

(Fotografia de João Costa [Funcho])

Um  grupo peculiar, que há décadas cruza o teatro popular – que em Moçambique irradia pelos contextos rurais em modalidades muito desconhecidas pelo seu próprio público urbano – com a dramaturgia contemporânea e os textos clássicos canónicos.

graça silva hamlet

[com Adelino Branquinho em “Hamlet”, fotografia de Yassmin Santos Forte]

Às vezes deixando a ideia de que a existência do grupo, os seus grandes feitos, orlam o verdadeiro milagre, em contexto tão difícil para a exigência que os seus membros sempre se impõem.

Sabe-se desta morte e um homem fica descoroçoado. Deixo aqui o pouco que encontro de filmes com a sua presença …


(Graça Silva surge aos 5 minutos e 30 segundos]

e uma apresentação da actividade do grupo, ombreando (como sempre) com o Branquinho.

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A Universidade na Ilha de Moçambique

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(Fotografia de Teresa Moreira de Carvalho)

A instalação de um pólo universitário na Ilha de Moçambique era um anseio muito antigo. Tanto para a formação da população daquela área como para que possa contribuir para a sustentabilidade da reabilitação da cidade Património Mundial. A minha primeira vez na Ilha foi há exactamente 20 anos, na comitiva de Federico Mayor, então nº 1 da UNESCO,e já se falava nisso. Nas décadas seguintes ouvi muitas intenções, externas e não só, de avançar essa realidade. Sempre esbarrando nas dificuldades, organizacionais, orçamentais, de recursos humanos disponíveis.

Hoje, 31.3.17, a UniLúrio inaugurou o seu pólo na Ilha, uma faculdade de ciências sociais e humanas. Continuando a sua política de descentralização sustentada do ensino superior no norte de Moçambique. Está a UniLúrio imensamente de parabéns. E os amantes da Ilha (mesmo este cá tão longe) rejubilam.

O trajar académico?

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Facto social total: é desse velho conceito, aprendido logo no início dos estudos de ciências sociais, que me lembro enquanto leio em vários murais do Facebook comentários sobre um comunicado de uma universidade moçambicana, proibindo inúmeras peças e modos de vestuário. Há quem critique o moralismo exacerbado que habita nesses propósitos, há quem apoie criticando os costumes desbragados da comunidade estudantil. E houve quem, com siso, notasse a escandalosa mediocridade formal do texto, inadmissível numa direcção universitária, denotativa de um “estado da arte”, esse sim algo degenerado. Disso tudo retiro três pontos, bem diversos: sobre a normatividade no ensino; sobre a diversidade; sobre a “cooperação”.

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Gilles Cistac

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Muito respeitado e muito querido professor da Universidade Eduardo Mondlane, prestigiado jurista, trabalhador incansável, assim autor de vasta obra, Gilles Cistac foi assassinado nas ruas de Maputo há exactamente dois anos, no 3.3.2015. Muito provavelmente apenas porque trabalhou com a extrema competência que o caracterizava: publicamente expressou a sua ponderada e fundamentada interpretação do que está na Constituição do país.

Que doloroso desperdício.

A propósito do tseke

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O Moçambique para Todos é um conhecido e muito lido blog, uma plataforma de reprodução de textos históricos e actuais sobre o país,animado por Fernando Gil. Tem o seu viés, mas isso é um direito. Devido ao debate sobre a disseminação da produção e consumo da planta alimentar “tseke” (amaranto, talvez a caruru no Brasil) no país – seja sob a sua viabilidade seja sobre a sua denominação nas diferentes línguas do país, e seu efectivo reconhecimento pela população (o que seria um tema interessantíssimo para discutir a “lusofonia” e a almejada ortodoxia linguístico-ortográfica) – hoje googlei a tal “tseke”.

Fui à primeira referência surgida, no referido blog. Um texto muito crítico da proposta do governo. Da autoria de um dos assassinos do jornalista Carlos Cardoso. Um crime de delito comum do qual o tenebroso indivíduo foi provado culpado. E agora surge como “colunista”, crítico referenciável e citável. O afã crítico do “Moçambique para Todos” face ao poder na ex-Lourenço Marques é tal que a este nojo desce.

Madoda, de Messias Maricoa

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Percebo agora que o moçambicano Messias Maricoa (jovem cantor de Nampula) é um extraordinário sucesso no youtube (10 milhões de visitas numa das canções, milhões nas outras). Não é bem o meu estilo mas não deixo de sorrir. Pelo delicioso sotaque (eu gosto, pronto) mas também nesta “Madoda”. Pois, um bocado brejeiro (adequando-me ao estilo musical), imagino-a hino da candidatura presidencial de Macron, o francês casado com mulher muito mais velha e por isso alvo de ataques políticos – o dinheiro que este rapaz ganharia agora com uma versão francófona, uma “Madode” …

Soares e as independências africanas (aliás, descolonização) [2]

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[Santos, Machel, Soares em Moçambique. Fotografia de Rui Ochôa]

Um precioso texto no Observador, “O papel de Mário Soares na Descolonização”, assente numa “biografia autorizada” do político, “Mário Soares – Uma Vida” de Joaquim Vieira. Serve não só para melhor esclarecer o papel e as posições de Soares no processo das independências africanas como para vislumbrar a trapalhada que era então o poder português, o papel de Carvalho (caótico e imbecil, como sempre foi, antes e depois) naquilo, e a mitomania (prussiana, já agora) spinolista. Os detalhes de Lusaca, basto referidos neste artigo, foram-me assim, tal e qual, contados, ene vezes, em Maputo por pessoas muito próximas do poder – que referiam algo que não surge no artigo (nem no livro citado): Soares avançou em abraço para Machel tratando-o por “camarada” (termo em voga na altura) algo que o líder moçambicano, homem sagaz, cerceou, em forte abraço sem “camarada”. Mantendo assim a necessária distância negocial. Mas abordando com “camaradagem” Carvalho, este sentido-se “moçambicano” (pois nascido na colónia) e legítimo representante dos revoltosos.

Mas, e repito-me, o fundamental é o vislumbre sobre a situação de então, a desagregação de um poder colonial serôdio, anacrónico, e a impossibilidade pragmática de Lisboa determinar regras. O estupor colonial acabara, tarde e a más horas. Carvalho, na sua imbecilidade militante, só expressava o desarranjo que o anacronismo histórico implicava.