Atentos?

fernando-pessoa

Um amigo dá-me boleia, no carro dele seguimos a ouvir rádio, sei nas notícias que neste dia se cumprem três décadas sobre a morte de José Afonso, sei da polémica do desaparecimento das gravações originais dos seus discos, algo perfeitamente patético em termos de política patrimonial numa Europa de XXI. E ouço, naquele noticiário radiofónico, as declarações de Luís Mendes, o ministro da cultura deste nosso país. Diz ele, sossegando os compatriotas cultores da cultura, que os “serviços do ministério estão atentos” à situação, em busca deste património. Chego a casa, googlo, aporto no velho “Blitz”, jornal da nossa geração, que noticia o facto. Referindo também que esse desaparecimento foi anunciado há uma década, pois já em 2008 uma voz conhecida e respeitada como é a de Fausto o avisara.

E diante disto tem o “ministro” o atrevimento, a suprema arrogância, de dizer que tem os serviços atentos. Atentos!  E o tempo passa, são estes os atentos “ministros” que vamos tendo, impantes e impávidos, os funcionários, serviços públicos e seus dirigentes, ufanos e de si ciosos, que temos.

Já me é tarde para ver isto mudar. Vale-me o youtube. Ligo-o, para ouvir um verdadeiro poeta, adequado a tudo isto:

Cantores românticos

Há mais de 20 anos vivi no interior do Cabo Delgado. Quando, por razões logísticas, aportava em Pemba abancava no bar Viking. Naquele clima de empapar qualquer europeu recém-chegado a arte era cruzar o mata-bicho: nas alvoradas ovos, chouriços de conserva, mais batatas (quando o navio as havia trazido à cidade) fritas e várias Castles, por vezes até já Famous. Aprendi gamão com o John, algumas princesas locais sentavam-se à mesa, connosco bebericando, escandinavas e também escandinavos cooperantes (eram então ali imensos) se seguiam, um ou outro raro patrício surgia para saudar. Depois ia ao correio (então ainda não havia internet) mas nunca tinha cartas, comprava conservas, deixava correr o dia até às noites de Wimbe e no dia seguinte seguia para o “mato”, a aldeia lá bem para além de Montepuez, mochila às costas, machimbombo ou alguma boleia. Num desses mata-bichos que duravam até aquela hora do fim da tarde, ou mesmo à madrugada, decerto que já um bocado trôpego, pedi ao Bagorro que me gravasse uma k7 (sim, daquelas de fita) com esta canção. Eu nunca a ouvira, nem mesmo atentara em Roberto Carlos, o piroso. Mas ali, então, naquela era moçambicana, ele era muito ouvido. Ao balcão do bar esta tocava várias vezes ao dia. Gravou-ma. Calcorreei, naquele calor húmido, dali ao Hotel Cabo Delgado até à baixa da cidade, aquela escadaria abaixo para depois escadaria acima, aos correios e enviei a k7, só assim, com o apenas “O Portão”, àquela que havia sido minha namorada. E que, depois, voltou a sê-lo. E mulher. E mãe da minha filha. Muito tempo depois, um ano talvez, perguntei-lhe se a havia recebido. Que sim, disse-me, e que tinha achado que eu devia estar meio maluco. E bêbedo, acrescentou. Ciente.

Nunca mais resmunguei com Roberto Carlos – no que aliás sigo os canónicos grandes daquilo da MPB, sempre cultores do “Rei”. E ainda hoje, já mesmo voltado, pois “onde andei não deu para ficar“, eu próprio “amarelado pelo tempo“, trauteio este “Portão” em busca do nunca tido meu “cachorro (que) sorriu latindo“, e de uns quaisquer “braços abertos” pois “voltei para as coisas que aqui deixeiagora para ficarporque aqui é meu lugar“.

Vem-me esta memória à cabeça quando vejo espalhada uma foto do nosso ministro da cultura – mui fraca figura, é sabido – ministrando, exultante, no concerto do Tony Carreira, o nosso cançonetista romântico. E partilho-a, à historieta, para que fique claro: não é cagança elitista a minha. É mesmo desprezo por tamanha demagogia. Imenso.

Madoda, de Messias Maricoa

messias

 

Percebo agora que o moçambicano Messias Maricoa (jovem cantor de Nampula) é um extraordinário sucesso no youtube (10 milhões de visitas numa das canções, milhões nas outras). Não é bem o meu estilo mas não deixo de sorrir. Pelo delicioso sotaque (eu gosto, pronto) mas também nesta “Madoda”. Pois, um bocado brejeiro (adequando-me ao estilo musical), imagino-a hino da candidatura presidencial de Macron, o francês casado com mulher muito mais velha e por isso alvo de ataques políticos – o dinheiro que este rapaz ganharia agora com uma versão francófona, uma “Madode” …

Mozambique e Dylan e vice-versa

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Continua o affaire-Dylan, os adeptos e os adversos. O debate segue entre os grão-leitores (por exemplo  aqui vs aqui). Mas também entre nós, os algo-leitores, e entre os quase-nada-leitores. Pois opinar sobre prémios literários é reclamar uma condição “lectural” (aqui  falta-nos mesmo o termo, que “leitora” não me chega, apesar da tradição universitária). E opinar sobre o Nobel literário é também um culto, distraído, como se o prémio Nobel fosse mesmo o barómetro do cânone, pudesse ungir, e como tal surja universal, “nosso”.

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A cada um o seu Nobel

Shelter From The Storm from Andrew Lawandus on Vimeo.

Este meu dia foi de derrota, própria, coisas da vida, de a tentar ganhar, logo pela manhã. E de decisão garbosa, minha, réstia de energia, sei lá onde ainda a encontro, “às derrotas há que comemorá-las, às vitórias sofrê-las”, inventei-me. A meio da comemoração, esta mesmo que decidi, um amigo, ali a abancar nos já uísques, avisa do nobel de hoje. Festa logo, claro! A cada um o seu nobel, este meu, como de tantos nós. E, muito mais do que isso, muito mais do que o pobre e gasto nobel, a cada um o seu Dylan, esse labiríntico.

Este é o meu primeiro, não mais do que os outros que vieram, mas o meu primeiro Dylan, Hard Rain, o live em vinil comprado aos 14 anos, o ainda algo para mim incompreendido , como não naquela idade?, “shelter from the storm”, o fazer-me homem com quem nos fez homens, e ainda faz, mas como então adivinhar?, como depois adivinhar,? que me escrevera o futuro  …

I was in another lifetime, one of toil and blood
When blackness was a virtue the road was full of mud
I came in from the wilderness, a creature void of form
Come in, she said
I’ll give ya shelter from the storm
And if I pass this way again, you can rest assured
I’ll always do my best for her, on that I give my word
In a world of steel-eyed death, and men who are fighting to be warm
Come in, she said
I’ll give ya shelter from the storm
Not a word was spoke between us, there was little risk involved
Everything up to that point had been left unresolved
Try imagining a place where it’s always safe and warm
Come in, she said
I’ll give ya shelter from the storm
I was burned out from exhaustion, buried in the hail
Poisoned in the bushes an’ blown out on the trail
Hunted like a crocodile, ravaged in the corn
Come in, she said
I’ll give ya shelter from the storm
Suddenly I turned around and she was standin’ there
With silver bracelets on her wrists and flowers in her hair
She walked up to me so gracefully and took my crown of thorns
Come in, she said
I’ll give ya shelter from the storm
Now there’s a wall between us, somethin’ there’s been lost
I took too much for granted, I got my signals crossed
Just to think that it all began on an uneventful morn
Come in, she said
I’ll give ya shelter from the storm
Well, the deputy walks on hard nails and the preacher rides a mount
But nothing really matters much, it’s doom alone that counts
And the one-eyed undertaker, he blows a futile horn
Come in, she said
I’ll give ya shelter from the storm
I’ve heard newborn babies wailin’ like a mournin’ dove
And old men with broken teeth stranded without love
Do I understand your question, man, is it hopeless and forlorn
Come in, she said
I’ll give ya shelter from the storm
In a little hilltop village, they gambled for my clothes
I bargained for salvation and she gave me a lethal dose
I offered up my innocence I got repaid with scorn
Come in, she said
I’ll give ya shelter from the storm
Well, I’m livin’ in a foreign country but I’m bound to cross the line
Beauty walks a razor’s edge, someday I’ll make it mine
If I could only turn back the clock to when God and her were born
Come in, she said
I’ll give ya shelter from the storm

 

 

U2 e Trump

Em 2002, na sequência dos atentados de 11 de Setembro, os irlandeses U2 foram tocar à final do futebol americano, o Superbowl, o grande evento desportivo anual nos EUA. Fizeram esta pungente (em termos rockeiros) homenagem às vítimas. Uma extrema forma de solidariedade com o país, não só mostrando com o crime comovera mundo afora mas também expressando a ligação, profunda, não só dos irlandeses mas dos europeus com os EUA e com a ideia “América”. Os U2 sempre foram um grupo muito politizado, algo que escapará a alguns mais atento aos riffs do The Edge, e nisso por vezes muito críticos da política americana. Mas ali estiveram, solidários, ombreando com os “primos” do lado de lá do mar, o “país irmão” como se diz por cá – e em 2002 para uma banda especializada em macro-concertos, enchendo estádios sucessivamente, aquela atitude decerto que foi corajosa, sabedores dos riscos de se tornarem (ainda) mais alvos do terrorismo avulso, mais ou menos rizomático, que então assomava.

Aparecem agora de novo acerca os EUA, insurgindo-se contra o perigo do execrável populista Trump. Que consegue ser ainda mais repugnante do que os evangelistas anacrónicos do Tea Party, tanto que até os humaniza – e para nós, portugueses, estupefactos que ficámos este ano com o triste ambiente da política brasileira, isso deveria ser um dado a reflectir quando opinamos sobre a política americana. Que está assustadora. Como é aquilo possível, a importância de Trump, do Tea Party?, a repugnância pela “democracia na América”?

Eis U2 sobre Trump. Eu fico a ver, porque também a olhar para os “nossos” EUA, e deixando-me regressar aos tempos dos “Boy”, “October”, “War”, quando eles vieram ao Vilar de Mouros, e eu ainda tinha estofo para os riffs mais aquela poderosíssima parelha baixo-bateria.

Um nome

Andava eu no final da minha adolescência, começavam os 1980s, eram tempos em que ainda havia o longínquo, uma cunhada minha foi a Londres e perguntou-me o que eu queria lá daquele tão mítico longe. Porque eu lhe pedi trouxe-me o “Electric Ladyland”, que por maior que seja eu ouvi apenas durante aqueles tempos de então, e o “Berlin”, que ficou o disco da minha vida. Um dia, vinte anos depois, tive uma filha, neta da avó Carolina … E estará na idade de ela saber da razão daquela minha opção, o nome do amor infindo.

Autobiografia ideológica

joao_gilberto

Dizem-me reaccionário e coisas dessas, “como ficaste assim?” ri-se, amigo, um amigo … Não o sou mas lembro-me de momentos cruciais a formar-me, a sacudir os nichos pérfidos e impensantes do meu meio social, aquela “Lisboa” a fazer-se após 74, moles de gentes a malpensarem-se progressistas. Ideologicamente tive alguns momentos marcantes, alguns que terei esquecido com as décadas, outros que ficaram. Este foi o mais marcante.

Em 1984, aos meus 20 anos, João Gilberto veio a Lisboa, dois concertos no Coliseu dos Recreios. Acorri. A gente foi temendo o que se passaria, na véspera o gigante tocara apenas 40 minutos, irritara-se dado que lhe tinham mudado a disposição dos micros que aprovara no teste sonoro, resmungou que não se ouvia a ele próprio e abandonou o palco, reportava a imprensa do dia. A fama de perfeccionista irascível precedia-o e nem percebo como tal teria acontecido. Enfim, lá fui, com amigos, e galgámos ilegalmente da plateia apinhada para o balcão, mesmo sobre o palco. E o homem lá veio, para um espectáculo completo, absolutamente encantatório.

Em certo momento, casa já conquistada (estava-o, logo à partida), avança com o standard, que já dele também já era, “Uma casa portuguesa” (que só muito depois vim a perceber que era peça laurentina). E, espantosamente, da plateia surgiram alguns assobios, nada aclamatórios, que se vieram a repetir durante a canção. Pois para aquelas pobre mentes – a quem ainda não chamávamos “pós-modernos” e muito menos “bloquistas” – aquilo, a “Uma Casa Portuguesa”, era o símbolo, a Amália, o fado, o fascismo, sei lá mais o quê , e os símbolos a la carte eram-lhes odiosos – só uns anos depois, e já agora também por influência de alguns antropólogos portugueses, é que descobriram que o fado era popular, recomendável.

E lembro-me do nojo que senti, até envergonhado, daqueles parcos assobios, e do meu “estes gajos não prestam para nada”. Nunca me passou esse nojo. Eles, os assobiadores, cresceram em número. Mas também nós, os que aplaudimos, “sob um sol de primavera”. Fazemos é menos barulho, interrompemos menos o artista …